





Morte na Praia
Agatha Christie

Traduo Jos Loureno






CAPTULO UM

Quando o capito Roger Arigmering construiu, em 1782, uma casa na ilha ao largo da Baa de 
Leathercombe, considerou-se isso o cmulo da excentricidade. Um homem de boas famlias como ele 
deveria ter uma manso digna erguida num amplo prado, talvez com um riacho e boa terra de pastagem.
Mas o capito Roger Arigmering tinha apenas uma grande paixo, o mar. Por isso construiu a sua casa - 
uma casa bem slida, como precisava de ser no pequeno promontrio batido pelo vento e infestado de 
gaivotas, de modo a ficar isolada de terra durante a mar-alta.
Nunca chegou a casar-se, o mar foi o seu primeiro e ltimo amor, e, aps a sua morte, a casa e a ilha 
ficaram para um primo afastado. Esse primo e os seus descendentes pouca importncia deram ao legado. 
As suas prprias terras foram diminuindo e os seus herdeiros tornaram-se cada vez mais pobres.
Quando o grande culto das Frias na Praia se estabeleceu finalmente em 1922 e a costa de Devon e a 
Cornualha deixaram de ser consideradas demasiado quentes durante o Vero, Arthur Arigmering descobriu 
que no conseguia vender o seu enorme e desconfortvel casaro georgiano, mas em compensao obteve 
um bom preo pela propriedade adquirida pelo capito Roger.
A robusta casa foi ampliada e decorada. Construiu-se um ponto de beto entre o litoral e a ilha. 
Imaginaram-se e talharam-se veredas e recantos em redor de toda a ilha. Havia dois courts de tnis e 
terraos onde se podia apanhar sol que conduziam a uma pequena baa em baixo equipada com jangadas 
e pranchas de mergulho. o Hotel do Pirata, a Ilha dos Contrabandistas, a Baa de Leathercombe, passaram 
triunfantemente a a ter uma existncia. E de Junho a Setembro (com uma curta temporada pela Pscoa),o 
Hotel do Pirata estava habitualmente cheio at ao sto. Foi ampliado e renovado em 1934 com a adio 
de um bar, uma sala de jantar mais ampla e mais casas de banho. Os preos subiram.
As pessoas diziam: <j estiveram na Baa de Leathercombe? H l um hotel incrivelmente agradvel, numa 
espcie de ilha. Muito confortvel e sem excursionistas ou autocarros de turistas. Boa cozinha e tudo isso. 
Deviam ir l.
E as pessoas iam mesmo.
Havia uma pessoa muito importante (pelo menos era o que o prprio considerava) hospedada no Hotel do 
Pirata. Hercule poirot, resplandecente no seu fato de linho branco, com o panam descido sobre os olhos e 
o bigode magnificamente frisado, estava recostado numa espcie de espreguiadeira sofisticada, e 
observava a praia. Havia uma srie de terraos desde o hotel at  praia. Na praia propriamente dita havia 
gaivotas, colches insuflveis, botes de borracha e de lona, bolas e brinquedos de borracha. Havia uma 
comprida prancha de mergulho, e trs jangadas a distncias variadas da costa.
Quanto aos banhistas, uns estavam na gua, outros estendidos ao sol, e alguns aplicavam 
cuidadosamente protector solar.
No terrao imediatamente acima estavam sentados aqueles que no tomavam banho, a comentarem o 
clima, a vista que se estendia  sua frente, as notcias dos jornais da manh e qualquer outro assunto que 
lhes despertasse o interesse.
 esquerda de Poirot um interminvel fluxo de palavras brotava num tom suave e montono dos lbios de 
Mrs. Gardener ao mesmo tempo que as suas agulhas matraqueavam enquanto ia tricotando vigorosamente. 
Afastado dela, o marido, Odell C. Gardener, encontrava-se recostado numa cadeira de lona, com o chapu 
descado sobre o nariz, e uma vez por outra proferia uma breve afirmao quando lho solicitavam.
 direita de Poirot, Miss Brewster, uma robusta mulher de porte atltico com cabelo grisalho e um 
agradvel rosto curtido pelo clima, proferia comentrios speros. o resultado soava a algo como um co-
pastor cujobreve ladrar estentreo interrompesse o incessante latir de um lulu-da-ponierama.
Mrs, Gardener dizia:
- E por isso disse a Mr. Gardener: pois bem, disse eu, ver paisagens est tudo muito bem, e at gosto de 
percorrer um lugar minuciosamente. Mas, afinal, disse eu, j conhecemos Inglaterra bastante bem e tudo o 
que pretendo agora  arranjar um stio sossegado perto do mar e simplesmente descansar. Foi o que eu 
disse, no foi, Odell? Simplesmente descansar. Sinto que devo descansar, disse eu. Foi assim, no foi, 
Odell?
Mr. Gardener murmurou de detrs do chapu:
- Sim, querida.
Mrs. Gardener insistiu no tema.
- E assim, quando mencionei isso a Mr. Kelso, da Cook (ele planeou todo o nosso itinerrio e tem sido 
muito prestvel em tudo. Nem sei o que faramos sem ele!) bem, como ia dizendo, quando lhe mencionei 
isso, Mr Kelso disse que o melhor que podamos fazer era vir para aqui. Um local muito pitoresco, disse 
ele, bastante afastado de tudo e ao mesmo tempo muito confortvel e muito exclusivo sob todos os 
aspectos. E,  claro, Mr. Gardener interveio nessa altura e disse: E quanto s instalaes sanitrias? 
Porque, pode acreditar-em mim, M. Poirot, uma irm de Mr. Gardener ficou uma vez numa casa de 
hspedes muito exclusiva, diziam eles, situada no corao dos pntanos, mas acredita se lhe disser que 
as instalaes sanitrias no Passavam de um casinhoto com um buraco no cho?! Naturalmente que isso 
fez com que Mr Gardener ficasse desconfiado destes lugares afastados de tudo, no foi, Odell?
- Ora, sim, querida - respondeu Gardener.
- Mas Mr Kelso sossegou-nos logo. o saneamento, disse ele, era absolutamente o ltimo grito e a comida 
era excelente... E de facto  como ele disse. E o que mais me agrada  que  ntimo, se  que me 
entende. Tratando-se de um local pequeno, falamos todos uns com os outros e todos se conhecem. Se 
algum defeito se pode apontar aos ingleses  tenderem a ser um Pouco distantes at j conhecerem as 
pessoas h um par de anos. A partir de ento ningum pode ser mais simptico. Mr. Kelso disse que 
vinham aqui Pessoas interessantes, e vejo que ele tinha razo. H o senhor, M. Poirot,e Mss Darriley. Oh! 
Fiquei excitadssima quando descobri quem o senhor era, no fiquei, Odell?
- Ficaste sim, querida.
- Ah! - disse Miss Brewster, intervindo explosivamente. - Muita emoo, h, M. Poirot?
Hercule Poirot levantou as mos, em autodepreciao. Mas no passava de um gesto polido. Mrs. 
Gardener continuou suavemente.
- Est a ver, M. Poirot, Cornelia Robson falou-me muito a seu respeito, Mr. Gardener e eu estivemos em 
Badenhof em Maio. E  claro que Cornelia nos contou tudo a respeito daquele caso no Egipto, quando 
Linnet Ridgeway foi assassinada. Ela disse que o senhor foi maravilhoso, e eu estava doida por o conhecer, 
no estava, Odell?
- Sim, querida.
- E depois aquela Miss Darriley, tambm. Fao muitas compras na Rose Mond e  claro que ela  a Rose 
Mond, no ? Acho que as roupas dela so sempre to elegantes. Linhas maravilhosas. o vestido que usei 
na noite passada era um dos dela.  mesmo uma mulher encantadora sob todos os aspectos, acho eu.
o major Barry, que se encontrava do outro lado de Miss Brewster e que tinha estado sentado com olhos 
protuberantes colados aos banhistas, resmoneou:
- Uma rapariga distinta!
Mrs. Gardener entrechocou as agulhas de tric.
- Tenho mesmo de lhe confessar uma coisa, M. Poirot. Quase me assustei ao encontr-lo aqui... no que 
eu no tivesse ficado mesmo entusiasmada por o conhecer, porque fiquei. Mr: Gardener sabe que sim. Mas 
 que me veio  ideia que o senhor talvez estivesse aqui, bem... profissionalmente. Est a entender? Bem, 
 que eu sou mesmo terrivelmente sensvel, como Mr. Gardener poder confirmar, e no seria mesmo 
capaz de aguentar ver-me envolvida num crime de qualquer gnero. Est a ver...
Mr. Gardener clareou a garganta e disse: - Sabe, M. Poirot, Mrs. Gardener  muito sensvel.
As mos de Hercule Poirot dispararam para o ar.
- Mas permita-me que lhe assegure, Madame, que me encontro aqui

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simplesmente pelo mesmo motivo que vocs, para descansar... para passar as frias. Nem sequer penso 
em crimes.
Miss Brewster falou de novo, soltando o seu curto latido roufenho:
- No h corpos na Ilha dos Contrabandistas.
- Ah, mas isso no  estritamente verdade - disse Poirot apontando para baixo. - Olhem para eles, ali em 
baixo, deitados em fileiras. o que so? No so homens e mulheres. Nada tm de pessoal. So apenas... 
corpos!
o major Barry disse em tom apreciativo:
- Umas eguazinhas bem parecidas, algumas delas. Um tanto para o magro talvez.
- Sim, mas onde est o atractivo? - exclamou Poirot. - Onde est o mistrio? Eu c sou velho, perteno  
velha escola, Quando era novo, mal se viam os tornozelos. o vislumbre de um saiote vaporoso, que fascnio! 
o suave contorno da barriga da perna... um joelho... uma liga com laarotes...
- Seu malandreco - disse o major Barry, roufenho.
-  muito mais sensato a maneira como nos vestimos actualmente comentou Miss Brewster.
- Ora essa, M. Poirot - disse Mrs. Gardener. - Sabe, acho que as raparigas e os rapazes de hoje vivem uma 
vida muito mais saudvel e natural. Convivem  vontade e... bem, e... - Corou ligeiramente, pois possua um 
esprito recatado -.... acham isso nada de extraordinrio, se me entende.
- Claro que entendo -!- disse Hercule Poirot. -  deplorvel!
- Deplorvel? - guinchou Mrs. Gardener.
- Acabam com todo o romance... com todo o mistrio! Hoje em dia est tudo estandardizado! - Agitou a 
mo na direco das figuras deitadas. Isto faz-me lembrar, e muito, a morgue em Paris.
- M. Poirot! - Mrs. Gardener estava escandalizada.
- Corpos... dispostos sobre lajes... como carne no talho!
- Mas, M. Poirot, essas palavras no sero um pouco excessivas? Hercule Poirot admitiu:
- Sim, talvez.
- Seja como for - Mrs. Gardener tricotava com energia -, inclino-me a concordar consigo num ponto. Estas 
raparigas assim ali deitadas ao sol vo acabar por ter plos nas pernas e nos braos. j disse isso  Irene, 
a minha filha, M. Poirot. lrene, disse-lhe eu, se ficas assim deitada ao sol, vais ficar

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cheia de plos, plos nos braos e plos nas pernas e plos no peito, e o que  que parecers ento?. Foi 
o que eu lhe disse. No foi, Odell?
- Sim, querida - disse Mr. Gardener.
Ficaram todos em silncio, talvez imaginando lrene depois de lhe ter sucedido o pior.
Mrs. Gardener embrulhou o tric e disse:
- Ser que...
- Sim, querida? - disse Mr. Gardener, levantando-se com esforo da cadeira de lona e pegando no tric e no 
livro de Mrs. Gardener E perguntou:
- Que tal juntar-se a ns para uma bebida, Miss Brewster?
- Agora no, obrigada.
Os Gardeners encaminharam-se para o hotel.
- Os maridos americanos so maravilhosos! - disse Miss Brewster.
o lugar de Mrs. Gardener foi ocupado pelo reverendo Stephen Lane. Mr Lane era um clrigo alto e vigoroso 
com cinquenta e tal anos. Tinha o rosto bronzeado, e as calas de flanela cinzenta-escura apresentavam-
se num estado vergonhoso, sujas e velhas.
- Que regio maravilhosa! - disse com entusiasmo. - Fui da Baa de Leathercombe at Harford e voltei pelos 
penhascos.
- Hoje est um bocado quente para passeios a p - disse o major Barry, que nunca fazia passeios a p.
-  um bom exerccio - disse Miss Brewster. - Hoje ainda no fui remar. No h nada como remar para os 
msculos do estmago.
Os olhos de Hercule Poirot caram com algum pesar numa certa protuberncia  volta da cintura.
Notando o olhar de Poirot, Miss Brewster disse com simpatia:
- Depressa se veria livre disso, M. Poirot, se todos os dias pegasse num barco a remos.
- Mais, Mademoiselle. Detesto barcos!
- Refere-se a barcos pequenos?

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- Barcos de todos os tamanhos! - Fechou os olhos e estremeceu. o movimennto do mar no  agradvel.
- Abenoado seja! Hoje o mar est calmo como uma lagoa. Poirot respondeu convictamente:
- isso de um mar realmente calmo  coisa que no existe. H sempre movimento, sempre.
- Se quer a minha opinio - disse o major Barry -, o enjoo  nove dcimos de nervos.
- Pronto, falou o grande marinheiro... hein, major? - disse o clrigo, sorrindo um pouco.
- S fiquei enjoado uma nica vez... e foi durante uma travessia do Canal! o meu lema  no pensar nisso.
- o enjoo no mar  realmente uma coisa muito estranha - devaneou Miss Brewster. - Por que ser que 
algumas pessoas so atreitas a isso e outras no? Parece to injusto. E no tem nada a ver com a sade 
geral de cada um. Pessoas bem doentes so bons marinheiros. Algum me disse uma vez que isso tinha 
qualquer coisa a ver com a nossa espinha. Depois h tambm o caso das pessoas que no suportam 
alturas. Eu prpria no suporto l muito bem, mas Mrs. Redfern  bastante pior No outro dia, na vereda dos 
penhascos em direco a Harford, ficou com bastantes vertigens e simplesmente agarrou-se a mim. Disse-
me que uma vez parara a meio da descida da escadaria exterior da Catedral de Milo. Subira sem pensar, 
mas descer foi de mais para ela.
- Ento  melhor ela no descer a escada que vai dar  Enseada do Duende - observou Lane.
Miss Brewster fez uma careta.
- Eu prpria me intimidei. Est bem para os jovens. Os rapazes dos Cowans e os jovens Mastermans, por 
exemplo, esses sobem e descem e divertem-se.
- A vem Mrs. Redfern, regressada do banho - disse Lane.
- M. Poirot certamente que a aprovaria - observou Miss Brewster. Ela no gosta nada de banhos de sol.
A jovem Mrs. Redfern tirara a touca de borracha e sacudia o cabelo. Tinha cabelos louros de um tom cinza 
e a pele era daquela tonalidade

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mortia comum quela cor de cabelo. As pernas e os braos eram muito brancos.
- Parece um bocado malcozinhada entre as outras, no parece? - disse o major Barry com uma risada 
rouca.
Embrulhando-se num comprido roupo de banho, Christine Redfern atravessou a praia e subiu os degraus 
na direco deles.
Tinha um rosto belo algo srio, bonito mas estranho, e mos e Ps pequenos e delicados.
Sorriu-lhes, e deixou-se cair ao lado deles, aconchegando o roupo  sua volta.
- Conquistou a admirao de M. Poirot - disse Miss Brewster - Ele no gosta da multido que se bronzeia. 
Diz que so como pedaos de carne no talho, ou o mesmo por outras palavras.
Christine Redfern sorriu com uma expresso pesarosa e disse:
- Quem me dera poder apanhar banhos de sol! Mas no consigo ficar bronzeada. Fico  cheia de bolhas e 
com os braos cobertos de sardas de aspecto horrvel.
- Sempre  melhor do que ficar com eles cheios de plos como a Irene de Mrs. Gardener - disse Miss 
Brewster. E em resposta ao olhar curioso de Christine prosseguiu: - Mrs. Gardener tem estado em grande 
forma esta manh. Absolutamente imparvel. no  assim, Odell? Sim, querida. Fez uma pausa e depois 
disse: - Quem me dera, no entanto, que o senhor tivesse entrado um bocado com ela, M. Poirot. Por que 
no o fez? Por que  que no lhe disse que estava aqui a investigar um homicdio particularmente 
arrepiante, e que o assassino, um manaco homicida, se encontrava certamente entre os hspedes do 
hotel?
Hercule Poirot suspirou e disse:
- Receio bem que ela teria acreditado em mim.
o major Barry soltou uma risada ofegante.
- Pode crer que sim - disse.
- No, acho que nem a prpria Mrs. Gardener teria acreditado num crime acontecido aqui - disse Emily 
Brewster. - Este no  o gnero de local onde se encontraria um corpo.
Hercule Poirot agitou-se um pouco na cadeira.

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- Mas por que no, Mademoiselle? - protestou. - Por que no haveria aqui lua que chama um corpo aqui 
na Ilha dos Contrabandistas?
- No sei - disse Emily Brewster. - Acho que alguns lugares so mais improvveis do que outros. Este no 
 o gnero de stio... - interrompeu-se, tendo dificuldade em explicar o que pretendia dizer.
-  romntico, sim - concordou Poirot. -  pacfico. o Sol brilha. o mar  azul. Mas est a esquecer-se, 
Miss Brewster, de que o mal est debaixo do Sol.
o clrigo agitou-se na cadeira. Inclinou-se para a frente. Os seus olhos intensamente azuis iluminaram-se.
Miss Brewster encolheu os ombros.
- Oh! Claro que compreendo isso, mas mesmo assim...
- Mas mesmo assim isto continua a parecer-lhe um cenrio improvvel para um crime? Est a esquecer-se 
de um pormenor, mademoiselle.
- A natureza humana, ser?
- Isso, sim. Isso sempre. Mas no era isso que eu ia dizer. Ia chamar a sua ateno para o facto de que 
aqui toda a gente est de frias.
Emily Brewster mostrou-lhe um rosto intrigado.
- No estou a perceber.
Hercule Poirot sorriu-lhe com simpatia. Fez pequenos gestos no ar com um enftico dedo indicador.
- Digamos que tem um inimigo. Se o procurar em casa dele, no escritrio, na rua... eh bien, tem de ter uma 
razo... tem de justificar isso. Mas aqui,  beira-mar, ningum precisa de justificar a sua presena. Est na 
Baa de Leathercombe, porqu? Parbleu estamos em Agosto... vai-se para a beira-mar em Agosto... as 
pessoas esto de frias.
-  Perfeitamente natural que a senhora esteja aqui e que Mr. Lane esteja aqui e que o major Barry esteja 
aqui e que Mrs. Redfern e o marido estejam aqui. Porque em Inglaterra  costume ir-se para a beira-mar em 
Agosto, compreende?
- Bem - admitiu Miss Brewster -, essa  certamente uma ideia bastante engenhosa. Mas, e quanto aos 
Gardeners? Esses so americanos... Poirot sorriu.
- At Mrs. Gardener, conforme ela prpria nos disse, sente necessidade de descansar. Alm disso, 
atendendo a que anda a fazer a Inglaterra, tem

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de passar uma quinzena  beira-mar, como um turista que se preze, se no for por outro motivo. Ela gosta 
de observar as pessoas.
- Creio que o senhor tambm gosta de observar as pessoas, no  verdade? - murmurou Mrs. Redfern.
- Madame, tenho de confessar. Sim, gosto mesmo.
- o senhor v... muita coisa - disse ela de modo pensativo.
Seguiu-se uma pausa. Stephen Lane clareou a garganta e disse, com um toque de timidez: - Interessei-me, 
M. Poirot, por uma coisa que acabou de dizer. o senhor disse que o mal estava debaixo do Sol. Era quase 
uma citao do Eclesiastes. - Fez uma pausa, e depois citou: - Na verdade, tambm o corao dosfilhos 
dos homens est cheio do mal e a loucura reside-lhes no corao enquanto vivem. - o rosto iluminou-se 
com uma luz quase fantica.
- Fiquei contente por o ouvir dizer isso. Hoje em dia, ningum acredita no mal.  considerado, no mximo, 
uma mera negao do bem. o mal, dizem as pessoas,  praticado por aqueles que no tm conscincia 
disso, que no se desenvolveram, que devem ser lamentados mais do que censurados. Mas, M. Poirot, o 
mal  real!  umfacto! Acredito no Mal tal como acredito no Bem. Existe!  poderoso! Vagueia pela Terra!
Calou-se. A respirao estava ofegante. Limpou a testa com o leno e subitamente pareceu apologtico. - 
Peo desculpa. Entusiasmei-me.
- Compreendo o que quer dizer - disse Poirot calmamente. - At certo ponto concordo consigo. o Mal 
vagueia mesmo pela Terra e pode ser reconhecido como tal.
O major Barry aclarou a garganta.
- J que se fala desse gnero de coisas, alguns daqueles faquires na ndia...
O major Barry j estava hospedado no Hotel do Pirata h tempo suficiente para que todos estivessem 
precavidos contra a sua tendncia fatal para se lanar em longas histrias sobre a ndia. Tanto Miss 
Brewster como Mrs. Redfern irromperam em simultneo.

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-  o seu marido que vem a nadar para a praia, no , Mrs. Redfern? Tem uma braada magnfica.  um 
excelente nadador.
Ao mesmo tempo, Mrs. Redfern dizia:
- Oh, olhem! Que barco to bonito ali adiante com as velas encarnadas.  o de Mr. Blattendo?
o veleiro de velas encarnadas acabava de cruzar o extremo da baa.
- Que ideia estranha esta de usar velas encarnadas... - resmoneou o major Barry- Mas a ameaa da 
histria do faquir foi evitada.
Hercule Poirot olhou com admirao para o jovem que acabava de nadar para a praia. Patrick Redfern era 
um belo espcimen humano. Esbelto, bronzeado, com ombros largos e ancas estreitas, havia nele uma 
espcie de alegria e jovialidade contagiantes: uma simplicidade inata que o tornava querido de todas as 
mulheres e da maioria dos homens.
Ficou ali a sacudir a gua, levantando a mo numa jovial saudao  mulher.
Ela acenou-lhe tambm, chamando-o:
- Anda para aqui, Pat.
- Vou j.
Patrick afastou-se um pouco ao longo da praia para ir buscar a toalha que ali deixara.
Foi ento que uma mulher passou por eles vinda do hotel, encaminhando-se para a praia.
A sua chegada tinha toda a importncia de uma entrada em palco. Alm disso, ela caminhava como se o 
soubesse. No se lhe notava qualquer embarao. Parecia j estar bastante acostumada ao efeito invarivel 
que a sua presena produzia.
Era alta e esbelta. Vestia um fato-de-banho simples, branco e sem costas, e cada centmetro exposto do 
seu corpo estava bronzeado num belo e uniforme tom castanho. Era perfeita como uma esttua. o cabelo 
tinha um magnfico e flamejante tom arruivado, caindo-lhe ondulado, abundante e intimamente sobre o 
pescoo. o rosto exibia aquela ligeira dureza que se v quando os trinta anos j ficaram para trs, mas o 
efeito geral que transmitia era de juventude: de uma soberba e triunfante vitalidade. Havia no seu rosto uma 
imobilidade chinesa, e os olhos azuis-escuros eram ligeiramente oblquos. Usava um fantstico chapu 
chins de carto verde-jade.

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Havia algo nela que fazia com que todas as outras mulheres na praia parecessem apagadas e 
insignificantes. E foi com igual inevitabilidade que o olhar de todos os homens presentes foi atrado e se 
fixou nela.
Os olhos de Hercule Poirot abriram-se, o bigode estremeceu apreciativamente, o major Barry endireitou-se 
na cadeira e os seus olhos protuberantes esbugalharam-se ainda mais com a excitao;  esquerda de 
Poirot, o reverendo Stephen Lane inspirou com um ligeiro silvo e a sua figura retesou-se.
- Arlena Stuart - disse o major Barry num sussurro roufenho -, era como se chamava antes de se casar 
com o Marshall. Vi-a em Come and Go antes de abandonar os palcos.  digna de ser vista!
Christine Redfern disse lentamente, e a sua voz era fria: -  atraente... sim. Creio que... se parece mais 
com uma fera!
- Ainda agora falava no mal, M. Poirot - disse Emily Brewster abruptamente. - Na minha opinio, aquela 
mulher  a personificao do mal!  m rs da cabea aos ps. Por acaso sei muita coisa a respeito dela.
- Lembro-me de uma fulana l em Simla - disse o major Barry recordando o passado. - Tambm essa tinha 
cabelo avermelhado. Mulher de um oficial subalterno. No  que ps o quartel todo em polvorosa? Pois a 
verdade  que ps! Os homens estavam loucos por ela! E todas as mulheres, claro, teriam gostado de lhe 
arrancar os olhos! Causou distrbios em mais do que um lar.
Soltou uma risada ao recordar-se.
- o marido era um sujeito simptico e calmo. Idolatrava o cho que ela pisava. Nunca via nada, ou fingia que 
no via.
Stephen Lane disse, numa voz baixa e repleta de emoo: - Essas mulheres so uma ameaa... uma 
ameaa para...
Calou-se. Arlena Stuart aproximara-se da gua. Dois jovens, pouco mais do que adolescentes, tinham-se 
levantado de um salto, aproximando-se ansiosamente dela. Ela permaneceu ali a sorrir-lhes.
Os seus olhos desviaram-se deles para Patrick Redfern, que vinha caminhando ao longo da praia.
Era, pensou Hercule Poirot, como observar a agulha de uma bssola. Patrick Redfern fora deflectido, os 
seus ps mudaram de direco. Faa a

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agulha o que fizer, tem de obedecer  lei do magnetismo e apontar para o Norte. Os ps de Patrick Redfern 
levaram-no at Arlena Stuart.
Ela ficou parada a sorrir-lhe. Depois caminhou lentamente ao longo da praia. Patrick Redfern foi com ela. 
Arlena estendeu-se junto de um rochedo. Redfrn deixou-se cair sobre os seixos ao lado dela.
Christine Redfern levantou-se abruptamente e dirigiu-se para o hotel.
Fez-se um breve e incmodo silncio depois de Christine partir. Emily Brewster disse ento:
-  uma pena. Ela  to simptica... S esto casados h um ano ou dois.
- A fulana de que eu estava a falar - disse o major Barry -, aquela de Simla, perturbou um par de 
casamentos bem felizes.  uma pena, no acham?
- Existe um tipo de mulher - disse Miss Brewster - que gosta de destruir lares. - Passados uns momentos, 
acrescentou:
- Patrick Redfern  um idiota!
Hercule Poirot no disse nada. Estava de olhar fixo na praia mas no olhava para Patrick Redfern e Arlena 
Stuart.
- Bem,  melhor eu ir e reservar o meu barco - disse Miss Brewster. E deixou-os.
o major Barry virou com alguma curiosidade aqueles seus olhos congestionados e salientes como 
groselhas para Poirot.
- Bem, Poirot - disse. - Em que  que tem estado a pensar? Ainda no abriu a boca. o que pensa da 
sereia? Grande brasa, h?
- ,, - disse Poirot.
- Ora, sua velha raposa. Conheo bem os franceses. Como voc!
- Eu no sou francs! - ripostou Poirot com frieza.
- Bem, no me diga que no sabe apreciar uma jovem bonita! Que pensa dela, h?
-J no  nenhuma jovem - disse Poirot.
- Que interessa isso? Uma mulher tem a idade que aparenta! E a daquela parece-me bastante bem.

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Hercule Poirot anuiu em concordncia e disse:
- Sim,  bela. Mas no final no  a beleza que conta. No  a beleza que faz com que todas as cabeas, 
excepto uma, se voltem na praia para a olharem.
-  AQUELA COISA, rapaz - disse o major. -  o que isso : AQUELA COISA. Depois com sbita 
curiosidade, disse:
- Para onde est a olhar com tanta ateno?
- Estou a olhar para a excepo - respondeu Hercule Poirot. - Para o nico homem que no levantou o olhar 
quando ela passou.
O major seguiu o olhar dele at se fixar num homem de cerca de quarenta anos, de cabelos claros e 
bronzeado. Tinha um rosto calmo e agradvel e estava sentado na praia a fumar cachimbo e a ler o Times.
- Oh, esse! - exclamou o major. - Esse  o marido, meu caro.  o Marshall.
- Sim, eu sei - disse Poirot.
O major Barry soltou uma risada. Ele prprio era um solteiro. Estava habituado a considerar o Marido sob 
trs facetas apenas: como o Obstculo, a inconvenincia, ou a Salvaguarda.
- Parece um sujeito simptico - disse ele. - Sossegado. o meu Times j ter chegado?
Levantou-se e dirigiu-se para o hotel.
O olhar de Poirot desviou-se lentamente para o rosto de Stephen Lane. Este continuava a observar Arlena 
Marshall e Patrick Redfern. Virou-se subitamente para Poirot. Havia uma austeridade fantica nos seus 
olhos.
- Aquela mulher  o mal personificado - disse. - Tem alguma dvida?
-  difcil ter-se a certeza - respondeu Poirot, pausadamente.
- Seja franco! - exclamou Stephen Lane. - No o sente no ar? A toda a nossa volta? A presena do Mal.
Lentamente, Hercule Poirot confirmou com um aceno.

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CAPTULO DOIS

Quando Rosamund Darriley chegou e se sentou ao seu lado, Hercule poirot no fez qualquer esforo para 
disfarar o prazer que sentia.
Como veio a admitir, admirava Rosamund Darriley mais do que qualquer outra mulher. Gostava do seu ar 
distinto, das linhas graciosas da sua figura, do porte altivo da cabea. Gostava do seu cabelo escuro e 
brilhante, ondulado e bem tratado, e do toque de ironia no seu sorriso.
Ela trajava um vestido de fazenda azul-marinho com enfeites brancos. ia muito simples, graas  acentuada 
severidade do corte. Rosamund,, , sob a designao comercial de Rose Mond Ltd. Vartiley, era uma das 
mais conhecidas modistas de Londres.
- Acho que no gosto deste stio - declarou ela. - Pergunto a mim prpria que motivo me ter levado a vir 
para aqui!
- Mas j c esteve antes, no esteve?
- Sim, h dois anos, pela Pscoa. Nessa altura no havia tanta gente. - Hercule Poirot olhou para ela.
- Aconteceu alguma coisa que a preocupou - disse delicadamente. - Tenho razo, no tenho?
Ela aquiesceu. o seu p balouava para a frente e para trs. Fixou o olhar no p e disse: - Encontrei um 
fantasma, foi isso o que me sucedeu.
- Um fantasma, Mademoiselle?
- Isso mesmo.
- o fantasma de qu? Ou de quem?
- Oh, o fantasma de mim prpria.
- Seria um fantasma doloroso? - perguntou Poirot com delicadeza.
- Inesperadamente doloroso. Fez-me regressar ao passado, sabe... Calou-se por um instante, pensativa. 
Depois disse: - Tente imaginar a minha infncia. No, no pode! o senhor no  ingls!

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Poirot perguntou: - Foi uma infncia muito inglesa?
- Oh, incrivelmente! o campo... uma casa enorme, miservel... cavalos, ces... caminhadas  chuva... 
lareiras... mas no pomar... falta de dinheiro. tweeds velhos... vestidos de noite que passavam de uns 
anos para os outros... um jardim votado ao abandono, com margaridas de S. Miguel que floresciam como 
grandes estandartes no Outono...
- E tem vontade de regressar a isso? - perguntou Poirot delicadamente.
Rosamund Darriley abanou a cabea.
- Nunca podemos regressar ao passado, pois no? - disse. - Nunca. Mas eu gostaria de ter feito o meu 
caminho... de modo diferente.
Poirot disse: - Olhe que no sei...
Rosamund Darriley riu-se. - Tambm eu no, palavra.
Poirot prosseguiu: - Quando era novo (e acredite, Mademoiselle, que isso j foi h muito tempo) havia um 
jogo chamado Se no fosses quem s, quem gostarias de ser?. Escrevia-se a resposta naqueles lbuns 
que as jovens tinham, com rebordos dourados e uma encadernao em cabedal azul. A resposta, 
Mademoiselle, no  realmente muito fcil de encontrar.
- No, penso que no - disse Rosamund. - Seria um grande risco. Ningum havia de gostar de ser 
Mussolini ou a princesa Isabel. Quanto aos amigos, j sabemos de mais a respeito deles. Lembro-me de 
uma vez ter conhecido um casal encantador; eram to corteses um com o outro e pareciam to felizes 
aps vrios anos de casamento, que senti inveja da mulher. De boa vontade teria trocado o meu lugar pelo 
dela, at que algum me contou que h onze anos no falavam um com o outro quando estavam sozinhos!
Riu-se.
- Isto mostra que nunca se sabe nada, no ?
Passados alguns instantes, Poirot disse:
- Muita gente deve invej-la, Mademoiselle.
- Sim, com certeza - disse Rosamund Darriley com frieza.
Ficou pensativa, com os lbios recurvados naquele seu sorriso irnico.
- Sim, de facto sou o exemplo perfeito de uma mulher bem sucedida! Desfruto da satisfao artstica da 
criadora de sucesso (gosto realmente de desenhar roupas), e da satisfao financeira da mulher de 
negcios de sucesso

22

Tenho uma boa situao econmica, tenho uma boa figura, um rosto aceitvel, e uma lngua no muito 
mordaz.
Fez uma pausa. o sorriso acentuou-se:
- Claro... que no tenho marido! Nesse pormenor fracassei, no  verdade, M. PoirOt?
Galantemente, Hercule Poirot respondeu:
- Mademoiselle, se no est casada  porque ningum do meu sexo foi suficientemente eloquente.  por 
escolha, e no por necessidade, que continua solteira.
- E todavia - disse Rosamund Darriley -, estou certa de que no fundo o senhor cr, como todos os homens, 
que nenhuma mulher  feliz se no casar e tiver filhos.
Poirot encolheu os ombros.
- Casar e ter filhos  o destino da maioria das mulheres. Apenas uma mulher em cem - mais, em mil - 
consegue conquistar um nome e uma Posio como a senhora fez.
Rosamund sorriu-lhe maliciosamente.
- E todavia, no passo na mesma de uma solteirona infeliz!  como me sinto hoje, pelo menos. Seria mais 
feliz com meia dzia de tostes por ano e um marido taciturno e bruto e um bando de fedelhos correndo 
atrs de mim. Esta  a verdade. No concorda comigo?
Poirot encolheu os ombros.
- Se assim o diz, mademoiselle.
Rosamund riu-se, recuperando subitamente o equilbrio. Tirou um cigarro e acendeu-o. Depois disse:
- No h dvida de que sabe realmente lidar com as mulheres, M. Poirot. Estou agora tentada a considerar 
o ponto de vista contrrio e argumentar consigo a favor de uma carreira profissional para as mulheres. 
Certamente que estou muito bem como estou, e reconheo-o!
- Nesse caso, tudo o que existe no jardim - ou, talvez mais apropriadamente, na praia -  maravilhoso, 
Mademoiselle.
- Tem toda a razo.
Poirot recorreu tambm  sua cigarreira e acendeu um daqueles diminutos cigarros que tanto apreciava.

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Observando a espiral de fumo ascendente com um olhar inquiridor, murmurou:
- Portanto, o Mr... ou melhor, o capito... Marshall  um velho amigo seu, Mademoiselle?
Rosamund levantou-se.
- Como sabe isso? - perguntou. - oh, suponho que foi o Ken quem lhe disse.
Poirot abanou a cabea.
- Ningum me disse nada. Afinal, Mademoiselle, sou detective. Era a concluso bvia a retirar.
- No estou a ver como... - disse Rosamund Darriley.
- Pense um pouco! - As mos do homenzinho eram eloquentes. Encontra-se aqui h uma semana.  uma 
pessoa viva, alegre, sem problemas. Hoje, repentinamente, comea a falar de fantasmas, de tempos 
passados. o que ter acontecido? H alguns dias que no se registavam novas chegadas, at que, ontem  
noite, chegam o capito Marshall e a mulher e a filha. Hoje noto uma modificao.  bvio!
- Bem, tem uma certa razo - disse Rosamund Darriley. - Keneth Marshall e eu passmos a infncia 
praticamente juntos. Os Marshalls viviam na casa ao lado da nossa. o Ken foi sempre amvel comigo, 
ainda que um pouco condescendente, claro, visto ser quatro anos mais velho do que eu. H muito que no 
o via. Devem ter passado... uns quinze anos, pelo menos.
-  muito tempo - disse Poirot, pensativo. Rosamund concordou com um aceno.
Houve uma pausa, e ento Hercule Poirot perguntou:
- Ele  uma pessoa simptica, no ?
- o Ken  um amor - disse Rosamund com ternura. -  ptimo. Extraordinariamente sossegado e calmo. 
Diria que o seu nico defeito  um certo penchant para casamentos infelizes.
- Ah! - exclamou Poirot num tom de grande compreenso. Rosamund Darriley prosseguiu.
- Keneth  um tolo, um perfeito imbecil no que diz respeito a mulheres. Recorda-se do caso Martingdale?
Poirot franziu o sobrolho.
- Martingdale? Martingdale? Arsnico, no foi?

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- Isso mesmo. H dezassete ou dezoito anos. A mulher foi julgada pelo homicdio do marido.
- E ficou provado que ele era um consumidor habitual de arsnico, e ela foi ilibada?
- precisamente. Bem, depois de ter sido absolvida, o Ken casou-se com ela. Este  um exemplo das 
tolices que ele faz.
- Mas, se ela era inocente... - murmurou Hercule Poirot. Rosamund Darriley ripostou com impacincia:
- Oh, at eu me atrevo a dizer que estava inocente. Ningum sabe ao certo mas com tantas mulheres neste 
mundo para casar, ele no precisava de ter uma que tinha sido julgada por homicdio.
Poirot no disse nada. Talvez soubesse que, se ficasse calado, Rosamund continuaria a falar. E assim foi.
- Ele era muito novo, claro, s tinha vinte e um anos. Estava louco por ela. Morreu quando a Linda nasceu, 
um ano aps o casamento. Creio que ficou destroado com a morte dela. Depois andou na estrdia durante 
algum tempo, talvez a tentar esquecer, penso eu. - Fez uma pausa.- -, E depois surgiu esta histria da 
Arlena Stuart. Na altura ela trabalhava no teatro. Tinha havido aquele caso do divrcio dos Codringtons. 
Lady Codrington divorciou-se do marido e intimou Arlena Stuart a comparecer no tribunal - Dizem que Lorde 
Codrington estava absolutamente perdido por ela. Pensava-se que casariam assim que o divrcio fosse 
decretado. Na verdade, quando chegou a altura ele acabou por no casar com ela. Abandonou-a. Parece-
me que ela at chegou a pr-lhe um processo por quebra de contrato. De qualquer modo, o caso deu um 
grande barulho, na altura. Logo a seguir o Ken vai e casa-se com ela. o louco... completamente louco.
- Uma loucura dessas talvez se perdoe a um homem... ela  linda, Mademoiselle - murmurou Hercule 
Poirot.
- Sim, quanto a isso no h dvidas. Depois, h cerca de trs anos, surgiu outro escndalo. o velho Sir 
Roger Erskine legou a Arlena toda a sua fortuna. Pensei que aquilo tivesse servido para abrir os olhos do 
Ken, se  que alguma coisa o faria.
-E no serviu?
Rousamond Darriley encolheu os ombros.

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- Como lhe disse, no o via h muitos anos. Diz-se, contudo, que ele enfrentou o caso com perfeita 
serenidade. Porqu? Gostaria de saber. Ter uma confiana absolutamente cega nela?
- Talvez existam outras razes.
- Sim. o orgulho! Manter a cabea erguida! No sei o que ele sente realmente por ela. Ningum sabe.
- E ela? o que sente realmente por ele? Rosamund olhou fixamente para Poirot.
- Ela? - disse. - Ela  a maior interesseira do mundo! E ainda por cima uma devoradora de homens! Se 
algum com calas e bom aspecto se chega a menos de cem metros dela,  carne fresca para Arlena. Ela 
 desse gnero!
Poirot acenou lentamente, manifestando o seu completo acordo.
- Com efeito - comentou. - H muita verdade no que me disse... Os olhos dela s procuram uma coisa: 
homens.
Rosamund prosseguiu: - Neste momento s tem olhos para Patrick Redfern.  um homem com bom 
aspecto, bastante simples, amigo da mulher, e no tem ar de mulherengo.  precisamente o prato favorito 
de Arlena. Eu gosto de Mrs. Redfern,  bonita ainda que um pouco apagada, mas suspeito que no ter 
qualquer hiptese contra aquela tigresa devoradora de homens.
- Pois no, tem toda a razo - disse Poirot.
Parecia desolado.
- Christine Redfern era professora parece-me - continuou Rosamund -  das que pensam que a mente 
exerce controlo sobre a matria. Vai sofrer uma grande desiluso.
Poirot abanou a cabea, inquieto. Rosamund levantou-se, dizendo:
-  uma vergonha, sabe. - E acrescentou, vagamente: - Algum devia fazer qualquer coisa a respeito disto.
Linda Marshall examinava desapaixonadamente o seu rosto no espelho do quarto. No gostava nada da sua 
cara. Naquele momento parecia-lhe ser apenas ossos e sardas. Observava com desagrado as abundantes 
madeixas de

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cabelo castanho - parece plo de rato, pensou - os olhos cinzentos-esverdeados, as mas do rosto 
pronunciadas e a longa linha do queixo agressivo. A boca e os dentes talvez no fossem maus de todo, 
mas que interessava isso? E seria uma mancha aquilo que estava a aparecer-lhe no nariz?
Constatou com alvio que no era uma mancha,  horrvel ter dezasseis anos... simplesmente horrvel, 
pensou.
No sabia bem quem era. Linda era desajeitada como um potro jovem e irritadia como um ourio. Estava 
permanentemente consciente da sua deselegncia e do facto de no ser nem uma coisa nem outra. Na 
escola no se tinha sentido to mal, mas agora j no andava na escola. Ningum parecia saber 
exactamente o que ela iria fazer a seguir. o pai falava vagamente em a enviar para Paris no Inverno 
seguinte. Linda no queria ir para Paris... mas tambm no queria ficar em casa. Na realidade, nunca se 
tinha apercebido, como naquele momento, de como detestava Arlena.
O rosto jovem de Linda tornou-se tenso, e os olhos verdes endureceram. Arlena...
Arlena  uma besta... uma besta... Madrastas! Era detestvel ter madrasta, toda a gente dizia. E era 
verdade!
No que Arlena a tratasse mal. A maior parte do tempo nem dava pela existncia da jovem. Mas quando 
reparava nela havia um ar de ironia e desprezo no seu olhar, nas suas palavras. A graciosidade dos 
movimentos e o porte de Arlena realavam a falta de graa de Linda. Sempre que Arlena estava perto ela 
sentia, com embarao, como era imatura e imperfeita.
Mas no era apenas isso. No, no era apenas isso.
Linda sondou, hesitante, o mais recndito do seu esprito. No tinha jeito para analisar e classificar as suas 
emoes. Era alguma coisa que Arlena fazia s pessoas,  casa...
Ela  m, pensou Linda resoluta.  muito m.
Mas isso no bastava. No se podia simplesmente empinar o nariz em jeito de superioridade moral e 
passar a ignor-la.
Era alguma coisa que ela fazia s pessoas. O pai, por exemplo. O pai estava bastante diferente...
Sentia-se intrigada. o pai indo busc-la  escola. o pai levando-a uma vez nun cruzeiro. E o pai em casa... 
na companhia de Arlena. Todo... todo retrado como... no estivesse ali...

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E h-de continuar assim, pensou Linda. Dia aps dia, ms aps ms. No vou aguentar.
A vida estendia-se  sua frente, interminvel, numa srie de dias obscurecidos e envenenados pela 
presena de Arlena. Linda ainda era suficientemente infantil para ter pouco sentido das propores. Para 
ela, um ano parecia uma eternidade.
Uma onda enorme e escaldante de dio contra Arlena encapelou-se no seu esprito. Gostaria de a matar!, 
pensou. Oh, quem me dera que morresse...
Olhou alm do espelho para o mar que se via l em baixo.
Este lugar era realmente divertido. Ou poderia ser. Todas aquelas praias e enseadas e carreiros singulares. 
Tanta coisa a explorar. E stios para onde se poderia ir sozinho e vadiar. Havia cavernas, tambm, segundo 
lhe tinham dito os rapazes Cowan.
Se ao menos Arlena se fosse embora, eu podia divertir-me aqui, pensou Linda.
Recordou a tarde da sua chegada. Vir do continente tinha sido emocionante. A mar alta galgara o ponto 
e por isso tinham vindo de barco. o hotel parecera-lhe excitante, invulgar. E depois, no terrao, surgira uma 
mulher, alta e morena, que dissera: Ol, Kenneth!.
E o pai, parecendo terrivelmente surpreendido, exclamara: Rosamund!. Linda analisou Rosamund Carriley 
com a severidade e a crtica prprias dos jovens.
Decidiu que aprovava Rosamund. Rosamund, pensou, era sensvel. O cabelo dela crescia de um modo 
agradvel, ficando-lhe bem, o que no acontecia com a maioria das pessoas. A roupa que trazia era bonita. 
E tinha uma espcie de cara engraada e divertida... como se estivesse divertida consigo prpria, no com 
os outros. Rosamund tinha sido simptica com ela. No tinha sido efusiva, nem dito coisas, (Linda 
agrupava na expresso dito coisas uma miscelnea de averses). E Rosamund no a olhara como se a 
tivesse achado uma tolinha. Na realidade, tratara-a como se a considerasse um ser humano. Linda sentia-
se to raramente um ser humano que ficava muito grata quando algum parecia consider-la como tal.
O Pai tambm parecera contente por ver Miss Darriley.
Era curioso, de repente ficara diferente. Parecera... parecera... Era ISSO

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mesmo! - encontrou a palavra - mais jovem. Tinha-se rido, um riso estranho de garoto. Agora que pensava 
nisso, Linda constatava que raramente o ouvia rir-se.
Sentia-se intrigada. Era como se tivesse visto de relance uma pessoa diferente. Como seria o pai quando 
tinha a minha idade?, pensou. Mas era muito difcil. Desistiu.
Passou-lhe uma ideia pela cabea.
Que divertido teria sido se tivessem vindo aqui e encontrassem Miss Darriley... s ela e o pai.
Uma viso luminosa: o pai, juvenil e risonho, Miss Darriley, e ela prpria: como poderiam divertir-se na ilha, 
tomando banhos, explorando as cavernas...
Mas depressa regressou  realidade.
Arlena. Ningum poderia divertir-se quando Arlena estava por perto. Por que no? Bem, ela, Linda, no 
podia. No poderia sentir-se feliz quando estava presente uma pessoa que ela... odiava. Sim, odiava. Ela 
odiava Arlena.
Muito lentamente, aquela enorme e escaldante onda de dio voltou a surgir.
O rosto de Linda empalideceu. Os seus lbios abriram-se ligeiramente. As pupilas dos olhos contraram-se. 
E os seus dedos endureceram e crisparam-se...
Kenneth Marshall bateu  porta do aposento da mulher. Quando ela respondeu, abriu a porta e entrou.
Arlena estava a dar os ltimos retoques na sua toilette. Tinha um vestido verde resplandecente e parecia-se 
um pouco com uma sereia. Estava imvel diante do espelho a aplicar rmel nas pestanas.
- Ah, s tu, Ken - disse.
- Vinha saber se j estarias pronta.
- S mais um minuto.
Kenneth Marshall aproximou-se da janela. Olhou l para fora, para o mar.

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O seu rosto, como de costume, no exibia qualquer emoo. Era apenas agradvel e normal.
Dando meia-volta, disse: - Arlena?
- Sim?
- j conhecias Redfern, suponho?
Arlena replicou com naturalidade: - Oh, sim, querido. Conheci-o numa festa qualquer. Achei que era muito 
simptico.
- Estou a ver. Sabias que ele e a mulher vinham passar frias aqui?
Arlena abriu muito os olhos.
- No fazia ideia, querido. Foi uma enorme surpresa!
- Pensei que tivesse sido isso a dar-te a ideia deste local - disse Keneth Marshall calmamente. - Estavas 
muito empenhada em que vissemos para c.
Arlena pousou a escova do rmel. Virou-se para ele, exibindo um sorriso suave e sedutor. Depois disse:
- Houve algum que me falou deste stio. Parece-me que foram os Rylands. Disseram que era 
simplesmente maravilhoso, inexplorado. Porqu, no gostas?
- Ainda no sei bem - replicou Keneth Marshall.
- Oh querido, mas tu gostas tanto de banhos de mar e de ficar deitado ao sol. Estou certa de que vais 
adorar.
- Estou a ver que tencionas divertir-te.
Ela observou-o, hesitante, com os olhos muito abertos.
Kenet Marshall prosseguiu: - Tenho a impresso de que a verdade  que disseste ao jovem Redfern que 
vinhas para c.
- Kenneth querido -, replicou Arlena -, no vais fazer uma cena, pois no?
- Escuta, Arlena - disse Kenet Marshall. - Conheo-te bem. Eles formam um casal bastante simptico. 
Aquele rapaz gosta realmente da mulher. Precisas mesmo de vir estragar esta maldita cena?
- No  justo que estejas a culpar-me - queixou-se Arlena. - Eu no fiz nada, absolutamente nada. No 
posso evitar...
Ele incitou-a a continuar: -- o qu?
Arlena pestanejou. - Evidentemente, sei que os homens ficam loucos por mim. Mas a culpa no  minha. o 
problema  deles.

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- Admites portanto que o jovem Redfern est louco por ti?
- Acho que  uma grande estupidez da parte dele - murmurou Arlena. Deu um passo na direco do marido.
- Mas tu bem sabes, Ken, que s gosto de ti e de mais ningum, no sabes? - disse, olhando para ele.
Era um olhar maravilhoso - um olhar a que poucos homens teriam resistido.
Kenneth Marshall olhou para ela gravemente. o rosto estava tranquilo. com uma voz calma disse-lhe:
- Acho que te conheo muito bem, Arlena...
Ao sair-se do hotel pelo lado sul, os terraos e a praia ficavam imediatamente abaixo. Havia tambm um 
caminho que contornava o penhasco existente do lado sudoeste da ilha. Num certo ponto desse caminho 
alguns degraus conduziam a uma srie de recantos escavados na rocha e identificados no mapa do hotel 
pela designao de Sunny Ledge. E aqui havia nichos com assentos talhados na rocha.
Foi a um recanto destes que chegaram Patrick Redfern e a mulher, logo a seguir ao jantar. Estava uma 
noite lmpida e amena, iluminada pela lua cheia. Os Redferns sentaram-se. Durante algum tempo ficaram 
em silncio.
- Est uma noite maravilhosa, no est, Christine? - disse por fim Patrick Redfern.
- Est.
Algo na voz dela o fez sentir-se apreensivo. Permaneceu sentado sem olhar para ela.
Christine Redfern perguntou, com uma voz calma: - Sabias que aquela mulher ia estar aqui?
Ele voltou-se repentinamente para ela.
- No sei a quem te referes - disse.
- Acho que sabes.
- Escuta, Christine. No sei o que se passa contigo...
Ela interrompeu-o. A sua voz estava agora emocionada. Tremia.

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- o que se passa comigo? o problema  o que se passa contigo!
- No se passa nada comigo!
- Oh, Patrick, H com certeza qualquer coisa. Insististe em Virmos para c. Foste at bastante veemente. 
Eu queria ir outra vez para Tintagel, onde passmos a nossa lua-de-mel. Mas tu estavas decidido a vir para 
aqui.
- E por que no?  um local fascinante!
- Talvez. Mas tu querias vir para c porque ela vinha tambm.
- Ela? Ela quem?
- Mrs. Marshall. Tu... tu ests louco por ela.
- Pelo amor de Deus, Christine, no sejas tonta. Tu no costumas ser ciumenta.
A reaco dele parecia pouco firme, talvez exagerada.
- ramos to felizes... - disse ela.
- Felizes? Claro que ramos felizes! Somos felizes. Mas no continuaremos a ser por muito tempo se no 
puder sequer falar com outra mulher sem que armes uma discusso.
- No  nada disso.
- , sim. Num casamento tem que existir espao... bem... para amizades com outras pessoas. Esta 
atitude de uspeita est errada. No posso... no posso falar com uma mulher bonita sem que penses logo 
que estou apaixonado por ela...
Patrick calou-se e encolheu os ombros.
- Tu ests mesmo apaixonado por ela!
- Ora, no sejas tonta, Christine! Mal... mal falei com ela.
- Isso no  verdade.
- Pelo amor de Deus, no te tornes ciumenta de todas as mulheres bonitas com quem me cruzar.
- Ela no  apenas uma mulher bonita! - explodiu Christine. - Ela   diferente!  m rs.
, sim. Vai fazer-te mal, Patrick Por favor, desiste! Vamos embora daqui! Patrick Redfern espetou o queixo 
num gesto rebelde. Parecia, de algum modo, infantil ao dizer num tom de desafio:
- No sejas ridcula, Christine. E...  melhor no discutirmos mais.
- No quero discutir.

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- Nesse caso comporta-te como uma pessoa razovel. V, regressemos ao hotel.
Ps-se em p. Fez-se silncio e pouco depois Christine Redfern levantou-se tambm.
- Est bem... - disse.
Sentado no recanto ao lado daquele, Hercule Poirot abanou a cabea pesaroso. Algumas pessoas teriam 
evitado escrupulosamente ouvir uma conversa particular, mas no Hercule Poirot. Ele no tinha escrpulos 
desse gnero.
- Alm disso - como explicaria mais tarde ao seu amigo Hastings tratava-se de um caso de homicdio.
- Mas o homicdio no tinha ainda ocorrido... - ripostou Hastings, olhando-o fixamente.
Hercule Poirot suspirou e disse: - Mas j existiam muitos indcios, mon cher.
- Nesse caso, por que no o impediu?
E Hercule Poirot, suspirando, disse que como j dissera uma vez no Egipto, se algum est decidido a 
assassinar algum, no  fcil impedi-lo... No se considerava culpado pelo que acontecera. Era, na sua 
opimio, inevitvel.

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CAPTULO TRS

Rosamund Darriley e Kenet Marshall estavam sentados na relva curta e macia do penhasco sobranceiro  
Enseada da Gaivota, situada do lado leste da ilha. Algumas pessoas costumavam vir aqui de manh para 
tomarem banho, quando procuravam um local mais sossegado.
-  agradvel afastarmo-nos das outras pessoas - disse Rosamund.
- Hum... - respondeu Marshall quase inaudivelmente. Estendeu-se ao comprido sobre a barriga, aspirando a 
relva curta.
- Tem um cheiro agradvel. Lembras-te das dunas em Shipley?
- Muito bem.
- Bons velhos tempos.
- Sim.
- No mudaste muito, Rosamund.
- Mudei, sim. Mudei imenso.
- Tens tido muito sucesso e s rica e tudo isso, mas continuas a ser a mesma Rosamund.
- Quem me dera - murmurou Rosamund.
- Que disseste?
- Nada. No achas que  uma pena, Kenneth, no podermos conservar a boa ndole e os ideais que 
tnhamos quando ramos novos?
- No me parece que a tua ndole alguma vez tenha sido boa. Em eililla costumavas ter acessos de clera 
bem assustadores. Uma vez quase me estrangulaste quando te atiraste a mim furiosamente.
Rosamund riu-se.
- Lembras-te daquele dia em que resolvi levar o Toby a caar ratazanas... - disse.
Por momentos reviveram antigas aventuras. Depois ficaram em silncio. Os dedos de Rosamund brincavam 
com o fecho do seu saco.

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- Kenneth? - disse por fim.
- Hum... - A resposta dele era indistinta. Continuava estendido no cho, com a cara encostada  relva.
- Se eu te disser uma coisa que talvez seja uma grande impertinncia, deixas de falar comigo?
Ele deu meia-volta e sentou-se.
- No me parece - declarou com uma expresso sria - que alguma vez fosse capaz de considerar uma 
impertinncia qualquer coisa que me dissesses, Bem sabes que sou muito teu amigo.
Ela acenou em sinal de que compreendia o que ele pretendia dizer. Escondeu apenas o prazer que aquilo 
lhe dava.
- Kenneth, por que no te divorcias da tua mulher?
A expresso dele modificou-se radicalmente. Parecia ter endurecido, e o ar de felicidade desapareceu por 
completo. Tirou um cachimbo do bolso e comeou a ench-lo.
- Desculpa-me, se te ofendi - disse Rosamund.
- No, no me ofendeste - respondeu ele calmamente.
- Mas por que no te divorcias?
- Tu no podes compreender, minha cara amiga.
- Gostas... assim tanto dela?
- No  s disso que se trata. Sabes,  que eu casei com ela.
- Bem sei. Mas ela... tem uma certa reputao.
Ele pensou um pouco naquela afirmao, comprimindo cuidadosamente o tabaco na pipa do cachimbo. - 
Achas que tem?  capaz de ter.
- TuPodias divorciar-te dela, Ken.
- Minha querida amiga, no tens o direito de me dizer uma coisa dessas. O facto de alguns homens 
perderem a cabea por ela no significa que ela tambm a perca.
Rosamund evitou replicar Depois disse:
- Tu poderias preparar as coisas de forma a ser ela a divorciar-se de ti... se Preferisses assim.
- Sei bem que poderia...
- Devas faz-lo, Ken. Palavra. Tens de pensar na criana.
- Na Linda?
- Sim, na Linda.

35

- Que tem ela a ver com isto?
- No  de uma Arlena que a Linda precisa. No  mesmo. parece-me, sente as coisas com muita 
intensidade...
Kenet Marshall chegou um fsforo aceso ao cachimbo.
- Sim... s capaz de ter razo nesse ponto - disse entre cachimbadas.
- Parece-me que a Arlena e a Linda no se do muito bem. Talvez no seja o melhor ambiente para uma 
adolescente.  um pouco preocupante.
- Gosto muito da Linda - disse Rosamund. - Ela tem qualquer coisa... de muito especial.
-  muito parecida com a me - disse Keneth. - Leva as coisas muito a peito, tal como a Ruth fazia.
- Ento no achas que devias mesmo ver-te livre da Arlena? - perguntou Rosamund.
- Preparando o caminho para o divrcio?
- Sim. As pessoas fartam-se de fazer isso.
- Pois, e  precisamente isso que detesto - ripostou Kenneth Marshall com sbita veemncia.
- Detestas? - Rosamund estava surpreendida.
-  verdade. A forma como hoje em dia se encara a vida. Se aceitamos uma coisa e depois no gostamos 
dela, tratamos logo de a pr de parte o mais depressa possvel! Caramba, tem de haver uma coisa 
chamada boa-f. Se casamos com uma mulher e nos comprometemos a tomar conta dela, temos o dever 
de cumprir aquilo a que nos obrigmos.  nossa a responsabilidade, visto que a aceitmos. Estou farto dos 
casamentos rpidos e dos divrcios fceis. A Arlena  a minha mulher, e isso  que conta.
Rosamund inclinou-se para diante, e disse numa voz quase sumida: Ento  assim que pensas? At que a 
morte nos separe?
-  isso mesmo - respondeu Kenet Marshall com um aceno.
- Estou a ver - disse Rosamund.
Regressando  Baa de Leathercombe por uma estrada estreita e perigosa, Mr. Horace Blatt por pouco no 
atropelou Mrs. Redfern a seguir a uma curva.

36

Ao v-la encostar-se bem  sebe, Mr. Blatt fez parar o Sunbeam com uma travagem vigorosa.
- Ol ol - disse Mr. Blatt alegremente.
Era um homem corpulento com o rosto avermelhado e uma franja de cabelo ruivo em volta da calva luzidia. 
Aparentemente, a nica ambio de Mr. Blatt era dar vida e alegria a qualquer local onde calhasse 
encontrar-se. o Hotel do pirata, na sua opinio - alis transmitida em alto e bom som -, precisava de uma 
certa animao. Intrigava-o a maneira como as pessoas pareciam dissolver-se e desaparecer sempre que 
ele surgia.
- Quase ia sendo transformada em gelia de morango, no foi? - exclamou Nr Blatt com satisfao.
- Bem pode diz-lo - disse Christine Redfern.
- Entre! - sugeriu Mr Blatt.
- Oh, obrigada, mas acho que vou a p.
- Disparate! - disse Mr. Blatt. - Para que servem os carros?
Rendendo-se  evidncia, Christine Redfern entrou.
Mr. Blatt voltou a pr o carro a trabalhar, que tinha ido abaixo devido  prontido com que ele travara.
- E o que  que anda a fazer, aqui a passear sozinha? - perguntou, - No est certo, uma rapariga bonita 
como voc.
- Ora, gosto de estar s - disse Christine apressadamente.
Mr Blatt deu-lhe uma cotovelada quase atirando ao mesmo tempo o carro para a berma.
- As raparigas dizem sempre isso - comentou Mr Blatt. - Mas no so sinceras. Sabe, aquele lugar, o 
Hoteldo Pirata, est a precisar de um pouco de animao. No tem vida nenhuma.  verdade, est cheio de 
espantalhos. Chei o de garotada, por um lado, e muitos botas-de-elstico por outro. H aquele chatarro 
anglo-indiano e o clrigo atleta, mais aquele casal americano que nunca se cala, e o outro estrangeiro, o do 
bigode... d-me mesmo vontade de rir com aquele bigode ridculo! Deve ser algum cabeleireiro ou qualquer 
coisa do gnero.
Christine abanou a cabea. Oh, no. Ele  detective.
Blatt quase deixou o carro ir de novo para a berma. Detective? Quer dizer que ele est disfarado?

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Christine sorriu ligeiramente.
- Oh, no! Ele  mesmo assim.  o Hercule Poirot. De certeza que ouviu falar nele.
- No tinha percebido bem o nome dele - disse Mr. Blatt. - Sim, sim, Claro que j ouvi falar nele, mas 
pensava que j tivesse morrido. Caramba, j devia ter morrido. Do que andar ele  procura aqui?
- No anda  procura de nada. Est aqui a passar frias.
- Pode ser - disse Mr Blatt, com ar duvidoso. - Parece um bocado metedio, no acha?
- Bem... - respondeu Christine, hesitante. - Talvez um pouco excntrico.
- o que eu gostava de saber - prosseguiu M r. Blatt -,  o que  que as pessoas tm contra a Scotland 
Yard? C para mim, o que  ingls  que  bom.
Chegou ao final da descida e com uma triunfal buzinadela entrou na garagem do hotel, a qual, por causa 
das mars, estava situada em terra, na zona fronteira ao hotel.
Linda Marshall encontrava-se na pequena loja que fornecia tudo o que os visitantes da Baa de 
Leathercombe podiam desejar. Uma das paredes do estabelecimento estava coberta de diversas estantes 
com livros, que eram, requisitados por dois pence. Os mais recentes tinham dez anos, alguns Vinte, e 
outros tinham ainda mais.
Linda tirou um e depois outro, indecisa, e olhou-os de relance. Decidiu que no lhe interessaria ler quer The 
Four Teathers ou Vice-Versa. Tirou Um pequeno volume encadernado a carneira castanha.
Decorreu algum tempo...
Sobressaltada, Linda reps o livro na estante ao ouvir Christine Redfern perguntar:
- o que ests a ler, Linda?
- Nada de especial - respondeu Linda, apressada. - Ando  procura de um livro.

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Ao acaso, retirou da estante The Marrage of William Ashe e avanou para o balco enquanto procurava no 
bolso uma moeda de dois pence.
- Mr. Blatt deu-me boleia at aqui... depois de quase me ter atropelado - disse Christine. - Achei que no 
era capaz de o aturar durante a travessia do ponto, por isso dsse-lhe que precisava de comprar umas 
coisas.
-  um homem horrvel, no acha? Sempre a dizer que  rico e a contar anedotas desagradveis.
- Pobre homem. Chego a ter pena dele - disse Christine.
Linda no concordou. No via em Mr. Blatt nada que lhe fizesse ter pena. Linda era jovem e implacvel.
Saiu da loja na companhia de Christine, e caminharam at ao ponto. Ia embrenhada nos seus 
pensamentos, Simpatizava com Christine Redfern. Ela e Rosamund Darrley eram, na opinio de Linda, as 
nicas pessoas suportveis na ilha. Uma das razes era que nenhuma delas falava demasiado. Agora, 
enquanto caminhavam, Christine seguia em silncio. Era perfeitamente sensato, pensou Linda. Se no se 
tinha nada de interessante para dizer, para que se havia de estar sempre a tagarelar?
Depois, perdeu-se nas suas prprias perplexidades. Inesperadamente, perguntou:
- Mrs. Redfern, alguma vez sentiu que tudo  to terrvel, to feio, que vai... oh, rebentar?.
As palavras eram quase cmicas, mas o rosto de Linda, distorcido e ancioso, no era. Olhando para ela 
vagamente, e compreendendo com dificuldade, Christine Redfern no viu nada que lhe desse vontade de rir. 
Subitamente susteve a respirao, e respondeu-lhe: - Sim, sim... j senti...
isso mesmo.
- COM que ento o senhor  o famoso detective, hein? - observou Nr. Blatt.
Estavam no bar do hotel, o local favorito de Mr. Blatt.
Hercule Poirot confirmou a observao com a sua habitual falta de modstia.

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Mr. Blatt prosseguiu: - E o que est a fazer aqui? Vem em servio?
- No, no. Estou a descansar.Tirei frias.
Mr. Blatt piscou um olho.
- Diria isso de qualquer maneira, no  verdade?
- No necessariamente - respondeu Poirot.
- Ora! Deixe-se disso - insistiu Horace Blatt. - Por acaso o seu segredo ficaria em segurana comigo. Eu 
no sou desses que repetem tudo aquilo que escutam! Aprendi a conservar a boca fechada h muitos anos. 
No teria chegado aonde cheguei se no fosse assim. Mas o senhor sabe como  a maioria das pessoas: 
 s bl bl bl a respeito de tudo o que ouvem! Ora isso no  coisa que se permita na sua profisso!  
por isso que tem de dizer a toda a gente que est aqui em frias e mais nada.
- E por que pensa que no ser assim? - perguntou Poirot.
Mr. Blatt fechou um olho e disse: - Sou um homem muito vivido, e sei bem tirar uma pessoa pela pinta. Um 
homem como o senhor estaria em Deauville ou em Touquet ou ju an les Pins.  esse o seu... como direi?... 
o seu lar espiritual.
Poirot suspirou. Olhou pela janela. A chuva caa, e a neblina envolvia a ilha.
-  possvel que tenha razo! - disse. - Ao menos ali, quando o tempo est hmido, h sempre outras 
distraces.
- o velho casino! - exclamou Mr. Blatt. - Sabe uma coisa? Tive de trabalhar no duro quase toda a minha 
vida. No havia tempo para frias ou distraces. Estava decidido a ter sucesso, e tive sucesso. Agora 
posso fazer o que bem me apetece. o meu dinheiro  to bom como o de qualquer outro, E tenho-me 
divertido bastante nestes ltimos anos, pode crer.
- Ah, sim? - Murmurou Poirot.
- Nem sei por que razo me lembrei de vir para aqui - prosseguiu Nr. Blatt.
- Estava precisamente a fazer essa pergunta a mim prprio - observou Poirot.
- Ah? o que foi que disse? Poirot fez um gesto eloquente.
- Tambm eu tenho alguns poderes de observao. Era capaz de supor

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que o senhor certamente preferiria Deauville ou Biarritz. Mas em vez disso, aqui estamos ns. Mr. Blatt 
soltou uma risada rouca.
- Nem sei mesmo por que razo vim para aqui - comentou pensativamente. - Talvez, no sei, porque o 
nome me parecesse romntico. Hotel do pirata, ilha dos Contrabandistas. Nomes destes so excitantes, 
fazem-nos lembrar de quando ramos midos. Piratas, contrabando, tudo isso.
Riu-se, um tanto constrangido.
- Quando era novo costumava velejar bastante. No nesta zona. Ao largo da costa leste.  engraado como 
uma experincia desse gnero nunca se esquece. Podia possuir um iate dos melhores, se me apetecesse, 
mas na realidade a ideia no me agrada muito. Prefiro entreter-me no meu pequeno escaler. o Redfern 
tambm gosta muito de velejar. j saiu comigo uma ou duas vezes. Agora nunca consigo apanh-lo, anda 
sempre  volta daquela ruiva que  casada com o Marshall.
Fz uma pausa; depois, baixando o tom de voz, prosseguiu:
- So quase todos uns papa-aordas, neste hotel. Mrs. Marshall  a nica vivaa! Parece-me bem que o 
marido muito ter que se esforar para tomar conta dela. Conhecem-se muitas histrias a respeito dos 
seus tempos de teatro... e depois disso! Os homens ficam malucos por ela. Vo ver que  capaz de vir a 
provocar problemas, um destes dias.
- Que tipo de problemas? - perguntou Poirot.
- Isso depende - respondeu Horace Blatt. - Olhando para Marshall. Diria que ele  um homem com um 
temperamento invulgar. Alis, tenho a Certeza de que . Ouvi dizer umas coisas a respeito dele. Conheo 
bem este gnero de pessoa muito calada, com quem nunca sabemos com o que Podemos contar. O 
Redfern que se acautele...
Calou-se de repente, pois o sujeito das suas palavras entrou no bar. Continuou a falar, alto e pouco  
vontade.
- Conforme estava a dizer, velejar em redor desta costa  bem divertido. Ol Redfern, quer beber alguma 
coisa? o que toma? Um martini seco? ptimo - E o senhor, m. poirot?
Poirot abanou a cabea.
Patrick Redfern sentou-se e disse:
- Velejar?  o que h de melhor no mundo. Quem me dera poder

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praticar mais vela. Quando era rapaz passava quase todo o meu tempo num bote  vela  volta desta costa.
- Nesse caso conhece bem este stio? - perguntou Poirot.
- Bastante bem! Conheci isto antes de existir o hotel. Havia apenas algumas cabanas de pescadores na 
Baa de Leathercombe, e um velho casaro em runas, todo fechado, na ilha.
- Existia aqui uma casa?
-  verdade, mas no era habitada h muitos anos. Estava praticamente a cair. Havia uma srie de histrias 
sobre passagens secretas entre a casa e a Caverna do Duende. Andvamos sempre  procura dessa 
passagem secreta, ainda me recordo.
Horace Blatt entornou a bebida. Praguejou, limpou-se, e perguntou: Onde  que  essa Caverna do 
Duende?
- o qu, no sabe? - replicou Patrick. - Fica na Enseada do Duende. No  fcil encontrar-se a entrada. 
Fica numa das pontas da enseada, no meio de uns pedregulhos amontoados. No passa duma fenda 
estreita e comprida. A entrada  muito apertada. Depois abre-se numa caverna bastante espaosa. Pode 
fazer uma ideia de como isso era divertido para um mido! Foi um velho pescador que ma mostrou. Hoje em 
dia nem os pescadores sabem da sua existncia. No outro dia perguntei a um por que razo aquele stio se 
chamava Enseada do Duende, e no soube responder-me.
- Mas ainda no compreendo - disse Hercule Poirot. - o que  isso do duende?
- Oh,  um termo tpico de Devonshire - explicou Patrick Redfern. H uma caverna do duende em Sheepstor 
on the Moor. Diz a tradio que se deve deixar l um alfinete, sabe, como prenda para os duendes. Um 
duende  uma espcie de esprito das charnecas.
- Ah, mas isso  interessante - comentou Poirot. Patrick Redfern prosseguiu.
- Ainda h muitas lendas sobre duendes em Dartmoor. Existem picos rochosos que se diz estarem 
povoados por duendes, e creio que os agricultores que tm de regressar s suas casas j de noite, quando 
est nevoeiro, ainda se queixam de terem sido embruxados Pelos duendes.
- Quer dizer depois de terem bebido uns copos? - perguntou Horace Blatt.

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- Essa  certamente a explicao mais sensata! - respondeu Patrick Redfern com um sorriso.
- Vou entrando, para ir jantar - disse Blatt consultando o relgio. De um modo geral, Redfern, os piratas so 
os meus favoritos, no os duendes.
- Palavra que gostava de ver este sujeito embruxado pelos duendes disse Patrick Redfern com uma 
gargalhada quando o outro saiu.
- Para um homem de negcios inflexvel, Mr. Blatt parece ter uma imaginao muito romntica - observou 
Poirot pensativamente.
- Isso  porque no  verdadeiramente instrudo. Pelo menos  o que a minha mulher diz. Veja-se o que ele 
costuma ler! Nada, a no ser policiais e histrias de cowboys...
- Quer dizer com isso que ele tem a mentalidade de um rapazinho? perguntou Poirot.
- Bem, no  essa a sua opinio, sir?
- Ainda no o conheo muito bem.
- Eu tambm no. Fui velejar com ele por uma ou duas vezes, mas na realidade no gosta muito de levar 
ninguem consigo. Prefere estar sozinho.
- Isso  realmente curioso - replicou Poirot. - Contrasta bastante com o comportamento dele em terra.
- Tambm acho - disse Redfern rindo-se. - Todos ns temos uma certa dificuldade em nos vermos livres 
dele. Parece-me que o seu sonho era transformar isto numa mistura de Margate e Le Touquet.
Por uns momentos Poirot no disse nada. Estava a estudar com muita ateno o rosto risonho do seu 
companheiro.
- Tenho a impresso de que aprecia muito a vida, M. Redfern - disse sbita e inesperadamente.
Patrick olhou para ele, surpreendido.
- Assim , com efeito. Por que no?
- Por que no, na verdade - concordou Poirot. - Aceite as minhas felicitaes por esse facto.
- Obrigado, sir - disse Patrick Redfern sorrindo ligeiramente.
-  por esse motivo que, sendo um homem mais velho, muito mais velho mesmo, me atrevo a dar-lhe um 
conselho.
- Sim, sir?
- Um amigo meu, muito sbio, que pertencia  Polcia, disse-me h j

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alguns anos: Hercule, meu amigo, se quiseres viver tranquilo, evita as mulheres.
- Creio que j  um pouco tarde para isso, sir. Como sabe, sou casado - disse Patrick Redfern.
- Sei, sim. A sua esposa  uma pessoa encantadora, muito prendada. Segundo me parece, gosta muito de 
si.
- E eu tambm gosto muito dela - replicou Patrck, prontamente.
- Ah! - ripostou Poirot. - Fico muito satisfeito por ouvir isso.
O semblante de Patrck ficou subitamente carregado. - Oua l, M. Poirot, aonde pretende chegar?
- Les fmmes. - Poirot recostou~se e fechou os olhos. - Conheo algumas coisas a respeito delas. So 
capazes de complicar insuportavelmente a vida de uma pessoa. E os ingleses, esses conduzem os seus 
assuntos de um modo indescritvel. Se lhe era necessrio vir para aqui, Mr. Redfern, por que motivo, em 
nome do cu, trouxe consigo a sua mulher?
- No sei o que quer dizer com isso - disse Patrick Redfern reagindo furioso.
Hercule Poirot respondeu calmamente:
-  evidente que sabe. No tenho a pretenso de discutir com um homem enfeitiado. Pretendo apenas 
recomendar-lhe cautela.
- V-se que tem andado a dar ouvidos a essas mexeriqueiras, Mrs. Gardener, a Brewster, que nada tm 
que fazer alm de dar trabalho  lngua. S porque uma mulher  atraente, saltam-lhe logo em cima para a 
denegrir.
- o senhor ser assim to ingnuo? - murmurou Hercule Poirot levantando-se.
Abanando a cabea, saiu do bar. Patrick Redfern ficou a olhar para ele, irado.
Hercule Poirot parou no trio ao sair da sala de jantar. As portas estavam abertas, e entrava um sopro de ar 
nocturno agradvel.
A chuva tinha cessado e a neblina dispersara-se. Era novamente uma noite amena.

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Hercule Poirot foi encontrar Mrs. Redfern no seu banco favorito  beira do penhasco. Parou ao p dela e 
disse-lhe:
- Esse assento est hmido. No devia sentar-se a. Vai apanhar um resfriado.
- No apanho, no. E de qualquer forma no tem importncia.
- No diga isso, j no  uma criana! Seja razovel. Deve olhar para as coisas de uma forma sensata.
- Posso garantir-lhe que nunca me constipo - replicou Christine friamente.
- o dia esteve hmido - disse Poirot. - o vento soprou, a chuva caiu, e havia tanta neblina que no se podia 
ver nada. Eh bien, e agora como est o tempo? A neblina levantou, o cu est lmpido, e l no alto as 
estrelas brilham.  como a vida, madame.
- Sabe o que mais detesto neste lugar? - disse Christine numa voz baixa e incisiva.
- o qu, madame?
- A compaixo. - Cuspiu a palavra com a intensidade duma chicotada. Depois prosseguiu: - Julga que no 
sei? Julga que no percebo? As pessoas esto sempre a dizer: Pobre Mrs. Redfern... pobre mulher. E 
no suporto isso!
Cuidadosamente, Hercule Poirot abriu o seu leno sobre o assento e sentou-se.
- Tem toda a razo - disse pensativamente.
- Aquela mulher... - exclamou Christine; depois calou-se.
- D-me licena que lhe diga uma coisa, madamme? - disse Poirot com gravidade. - Uma coisa que  to 
verdadeira como as estrelas que esto por cima de ns? As Arlenas Stuarts ou Marshalls deste mundo no 
contam.
- Disparate - disse Christine Redfern.
- Asseguro-lhe que  verdade. o seu imprio  o do momento e para o momento. Para contar... para contar 
real e verdadeiramente uma mulher precisa de ter bondade ou inteligncia.
- Pensa por acaso que os homens se interessam pela bondade ou pela inteligncia? - replicou Christine 
com desprezo.
- Fundamentalmente, sim - declarou Poirot com gravidade. Christine deu uma risada.

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- No concordo consigo.
- o seu marido ama-a, madame. Estou certo disso.
- o senhor no pode saber se  assim.
- Sei, sim. j o vi a olhar para si.
De repente ela descontrolou-se. Chorou copiosa e amargamente no ombro reconfortante de Poirot. Depois 
disse:
- No aguento isto... no aguento...
Poirot afagou-lhe o brao dizendo com suavidade:
- Pacincia, precisa de ter pacincia.
Christine endireitou-se e levou o leno aos olhos.
- j estou bem - disse numa voz abafada. - Deixe-me, por favor. Prefiro... prefiro estar s.
Ele obedeceu, deixando-a ali sentada e comeando a percorrer o carreiro tortuoso que conduzia ao hotel.
Estava quase a chegar quando escutou o murmrio de vozes. Afastou-se um pouco do carreiro. Havia uma 
aberta entre os arbustos.
Viu Arlena Marshall e Patrick Redfern ao seu lado. Ouviu a voz dele, notando nela um latejo de emoo.
- Estou doido por ti... doido... Tu enlouqueceste- me! Gostas um bocadinho de mim, no gostas?
Poirot viu o rosto de Arlena Marshall. Era como o focinho de um gato feliz e saciado, pensou; era um rosto 
animalesco, no humano. Ela replicou suavemente:
- Claro que sim, Patrick querido. Adoro-te. Tu sabes isso...
Hercule Poirot abreviou a sua escuta clandestina. Regressou ao carreiro e prosseguiu a caminho do hotel. 
Subitamente um vulto juntou-se a ele. Era o capito Marshall.
- Uma linda noite, no acha? - comentou. - Depois de um dia to desagradvel. - Olhou para o cu. - 
Parece que amanh vamos ter bom tempo.

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CAPTULO QUATRO

A manh de 25 de Agosto surgiu clara e sem nuvens. Era uma daquelas manhs que tentava at um 
dorminhoco inveterado a levantar-se cedo. Naquela manh, diversas pessoas se levantaram cedo no Hotel 
do Pirata. Eram oito horas quando Linda, sentada diante do seu toucador, pousou no tampo da mesa um 
pequeno mas grosso volume encadernado a carneira, aberto e virado para baixo, e olhou para o seu rosto 
no espelho.
Tinha os lbios comprimidos, e as pupilas dos olhos contradas.
- Vou faz-lo, pois... - disse para si prpria.
Despiu o pijama e enfiou o fato-de-banho. Vestiu o roupo de praia e calou um par de alpergatas.
Saiu do quarto e percorreu o corredor. No final deste, uma porta abria-se para uma varanda e para uma 
escadaria exterior que conduzia s rochas abaixo do hotel. Havia uma pequena escada de ferro cravada nas 
rochas, que conduzia ao mar, e que era usada por muitos dos hspedes do hotel para um rpido mergulho 
antes do pequeno-almoo, uma vez que isso levava menos tempo do que descer at  praia principal.
Ao comear a descer a escadaria exterior, Linda encontrou o pai, que vinha a subir.
- j ests a p? - perguntou-lhe ele. - Vais dar um mergulho?
Linda confirmou acenando com a cabea.
Passaram um pelo outro, cada um para o seu lado.
Contudo, em vez de descer at s rochas, Linda circundou o hotel pelo lado esquerdo at atingir o carreiro 
que ia dar ao ponto que ligava o hotel ao continente. A mar estava cheia e o ponto achava-se submerso, 
mas o bote usado no transporte dos hspedes do hotel estava amarrado a um pequeno molhe. o homem 
que cuidava dele tinha-se ausentado. Linda subiu a bordo, desatou o bote e remou at chegar  outra 
margem.

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Prendeu a embarcao do outro lado, subiu a rampa, passou pela garagem do hotel e encaminhou-se para 
a loja.
A dona tinha acabado de retirar os taipais e ocupava-se a varrer o cho. Ficou admirada ao deparar com 
Linda.
- Ena, menina. Isso  que foi madrugar.
Linda retirou algum dinheiro do bolso do roupo e tratou de fazer as suas compras.
Christine Redfern estava no quarto de Linda quando esta regressou.
- Ah, ests a! - exclamou Christine. - Pensava que ainda no te tivesses levantado.
- No, fui dar um mergulho - disse Linda.
Reparando no embrulho que a rapariga trazia na mo, Christine disse, com surpresa: - o correio chegou 
cedo hoje.
Linda corou. Com a sua inpcia habitual, o embrulho soltou-se-lhe das mos. o frgil fio quebrou-se e uma 
parte do contedo espalhou-se no cho.
- Para que foste comprar velas? - exclamou Christine.
Contudo, para alvio de Linda, ela no ficou  espera de uma resposta, baixando-se para a ajudar a apanhar 
as coisas do cho.
- Vinha c para te perguntar se querias ir comigo  Enseada da Gaivota esta manh. Quero ir fazer alguns 
desenhos.
Linda aceitou prontamente.
Naqueles ltimos dias tinha acompanhado Christine Redfern por vrias vezes nas suas expedies 
artsticas. Christine era uma artista de pouco mrito, mas talvez achasse na pintura um consolo para o seu 
orgulho ferido. agora que o marido passava a maior parte do tempo na companhia de Arlena Marshall.
Linda Marshall estava cada vez mais taciturna e irascvel. Gostava de estar com Christine porque esta, 
entretida com o seu trabalho, pouco falava. Na opinio de Linda, era quase to agradvel como se estivesse 
sozinha, mas ao mesmo tempo ansiava, curiosamente, por companhia. Existia um subtil lao de simpatia 
entre ela e Christine, possivelmente porque ambas tinham averso  mesma pessoa.

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- Vou jogar tnis ao meio-dia - disse Christine -, por isso  melhor sairmos cedo. s dez e meia est bem?
- ptimo! Estarei pronta. Espero por si no trio.
Ao sair da sala de jantar aps um pequeno-almoo muito tardio, Rosamund Darriley quase foi abalroada por 
Linda quando esta descia a escada numa correria desenfreada.
- Oh, desculpe, Miss Darriley.
- Est uma bela manh, no achas? - disse Rosamund. - Quase custa a acreditar, depois do dia de ontem.
- Tambm acho. Vou com Mrs. Redfern  Enseada da Gaivota. Fiquei de me encontrar com ela s dez e 
meia. Pensei que vinha atrasada.
- No, ainda faltam cinco minutos.
- Oh, ainda bem.
Parecia um pouco ofegante, e Rosamund olhou para ela com curiosidade.
- No ests com febre, pois no, Linda?
Os olhos da rapariga estavam muito brilhantes, e tinha as faces bastante rosadas.
- Oh, no, nunca tenho febre.
- Est um dia to bonito que me levantei para tomar o pequeno-almoo - disse Rosamund sorrindo. - 
Normalmente tomo-o na cama. Mas hoje desci e devorei ovos e bacon como um homem.
- , hoje est um dia magnfico, comparado com o de ontem. A Enseada da Gaivota  muito agradvel pela 
manh. Vou pr muito bronzeador para ficar bem morena.
- Sim, a Enseada da Gaivota  muito agradvel de manh. E  mais tranquila do que a praia daqui.
- Por que no vem tambm? - perguntou Linda com timidez.
- Esta manh no posso - disse Rosamund. - Tenho coisas mais importantes a tratar.
Christine Redfern vinha a descer a escadaria.
Vestia um traje de praia muito largo e solto, com longas mangas e pernas amplas, num tecido esverdeado 
com desenhos amarelos. Rosamund sentiu

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desejo de lhe dizer que o amarelo e o verde eram as cores mais desaconselhadas para o seu plido tom de 
pele. Fazia-lhe sempre impresso deparar com pessoas que no tinham o menor gosto para escolher as 
suas roupas.
Se fosse eu a vestir esta rapariga pensou, depressa faria com que o marido passasse a prestar-lhe mais 
ateno. Por muito imbecil que seja, Arlena ao menos sabe vestir-se. Esta infeliz parece uma alface 
murcha.
- Divirtam-se - disse depois em voz alta. - Eu vou at ao Terrao do Sol com o meu livro.
Como sempre, Hercule Poirot tomou o pequeno-almoo - caf e pezinhos - no seu quarto.
Contudo, a beleza da manh tentou-o a deixar o hotel mais cedo do que era seu hbito. Eram dez horas, 
pelo menos meia hora mais cedo do que costumava aparecer, quando desceu a caminho da praia. Esta 
encontrava-se deserta,  excepo de uma nica pessoa.
Essa pessoa era Arlena Marshall.
No seu fato-de-banho branco, com o chapu chins verde na cabea, tentava lanar  gua uma gaivota. 
Poirot avanou galantemente em seu auxlio, encharcando por completo os seus sapatos de camura 
branca.
Ela agradeceu-lhe com um dos seus olhares atrevidos.
No momento em que comeava a afastar-se da praia, chamou-o:
- M. Poirot?
Este saltou de novo para a beira da gua.
- Madame?
- Faa-me um favor, sim?
- o que quiser.
Ela sorriu-lhe e murmurou:
- No diga a ningum onde estou. - Lanou-lhe um olhar agora suplicante. - Toda a gente vir atrs de mim. 
S desejo estar sozinha.
E afastou-se, pedalando vigorosamente a gaivota. Poirot comeou a caminhar ao longo da praia.
- Ah a jamais! - murmurou para si. - Nisto, par exemple, no acredito!

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Duvidava que Arlena Stuart, para lhe dar o seu nome artstico, alguma vez tivesse desejado estar sozinha.
Hercule Poirot, um homem to experiente da vida, sabia que no era assin]. Arlena Marshall teria 
certamente algum encontro, e Poirot desconfiava bem de com quem seria.
Ou pensava que sim, mas depressa constatou que se enganara, porque logo que ela dobrou o extremo da 
baa, desaparecendo de vista, Patrick Redfern - seguido de perto por Kenet Marshall - surgiu caminhando 
pela praia, vindo do hotel.
Marshall cumprimentou Poirot.
- Bom dia, Poirot. Por acaso viu a minha mulher?
A resposta de Poirot foi diplomtica:
- Quer dizer que Madame j se levantou, to cedo?
- j no est no quarto - respondeu Marshall. - Olhou para o cu. Lindo dia. Vou j dar um mergulho. Tenho 
muito que escrever esta manh.
Mais disfaradamente, Patrick Redfern estava a examinar a praia de uma ponta  outra. Sentou-se prximo 
de Poirot e preparou-se para aguardar a chegada da sua amada.
- E madame Redfern? - inquiriu Poirot. - Ter-se- tambm levantado cedo?
- Christine? Oh, foi desenhar no sei para onde - respondeu Patrick Redfern. - Agora anda entusiasmada 
com a arte. - Falava com nervosismo, obviamente a pensar noutra coisa. Conforme o tempo ia decorrendo, 
menos conseguia disfarar a sua impacincia em relao  chegada de Arlena. Sempre que escutava um 
passo, voltava ansiosamente a cabea para ver quem teria sado do hotel.
As desiluses sucediam-se.
Primeiro surgiram Mr. e Mrs. Gardener, com o tric e o livro, e depois apareceu Miss Brewster.
Mrs. Gardener, diligente como sempre, acomodou-se na sua cadeira e comeou a tricotar vigorosamente e 
a falar ao mesmo tempo.
- Bem, M. Poirot. A praia parece muito deserta esta manh. Onde est toda a gente?
Poirot respondeu que os Mastermans e os Cowans, duas famlias com jovens, tinham partido numa 
excurso  vela que duraria o dia inteiro.

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- Ora a est a diferena; nota-se a falta deles e dos seus risos e gritos. Havia s uma pessoa a tomar 
banho, o capito Marshall.
Marshall tinha justamente terminado o seu mergulho matinal, e vinha a subir a praia balanando a toalha.
- A gua est muito agradvel esta manh - anunciou. - Pena  que eu tenha tanto que fazer. Tenho de 
regressar ao hotel e atirar-me ao trabalho.
- Oh, que lstima, Mr. Marshall! Logo num dia to bonito como este.
Ontem foi mesmo horrvel, no foi? Disse at a Mr. Gardener que, se o tempo continuasse assim, teramos 
de nos ir embora.  a melancolia, sabe, com a neblina a cercar a ilha. D-nos uma sensao 
fantasmagrica, mas a verdade  que sempre fui muito sensvel  atmosfera, desde criana. Por vezes, 
sabe, sentia que s me apetecia gritar. E isso, claro, era muito penoso para os meus pais. Mas a minha 
me era uma mulher encantadora e costumava dizer para o meu pai: Sin clair, se a criana se sente assim, 
temos de a deixar fazer o que quer. Gritar  a sua forma de se exprimir>,. E, evidentemente, o meu pai 
concordava. Era muito dedicado  minha me, e fazia tudo o que ela dizia. Formavam um casal 
perfeitamente adorvel, como Mr. Gardener certamente confirmar. Eram um casal de excepo, no eram, 
Odell?
- Eram sim, querida - disse Mr. Gardener.
- E onde est a sua menina esta manh, capito Marshall?
- A Linda? No fao ideia.  capaz de andar por a a devanear pela ilha.
- Sabe, capito Marshal], a menina parece-me um bocado enfermia. Precisa de ser bem alimentada e de 
ser tratada com muita, muita compreenso.
Kenet Marshall replicou, mal disfarando a sua irritao:
- A Linda encontra-se perfeitamente bem. - E encaminhou-se para o hotel.
Patrick Redfern no foi  gua. Ficou sentado, olhando com frequncia para o hotel. Comeava a parecer 
mal-humorado.
Miss Brewster chegou cheia de energia e boa disposio.
A conversa prosseguiu nos moldes da manh anterior: a serena tagarelice de Mrs. Gardener, e os curtos 
latidos staccato de Miss Brewster que por fim comentou:
- A praia parece hoje um pouco deserta. Teria ido toda a gente em excurses?

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Mrs. Gardener interveio:
- Ainda h pouco estive a dizer a Mr. Gardener que temos mesmo de fazer uma excurso a Dartmoor.  
bastante perto, e os locais histricos so todos muito romnticos. E gostava tambm de visitar a priso... 
Princetown, no ? Acho que ser melhor marcarmos j e irmos l amanh, Odell.
- Sim, querida - respondeu Mr Gardener.
- Vai tomar banho, mademoiselle? - perguntou Hercule Poirot a Miss Brewster.
- Oh, j dei o meu mergulho matinal antes do pequeno-almoo. Na verdade, at houve algum que quase 
me partiu a cabea com um frasco, atirado de uma das janelas do hotel.
- Ora a est uma aco muito perigosa - comentou Mrs. Gardener. Um bom amigo meu fez uma 
concusso ao apanhar com uma lata de pasta dentfrica quando caminhava na rua; tinha sido atirada de um 
trigsimo quinto andar, soube-se depois. Uma coisa extremamente perigosa. Ainda recebeu uma boa 
indemnizao pelo sucedido. - Comeou a rebuscar entre as suas meadas de l. - Sabes, Odell, parece-
me que no trouxe aquele segundo tom de l roxa. Est na segunda gaveta da cmoda no nosso quarto, ou 
talvez na terceira.
- Sim, querida.
Mr. Gardener levantou-se obedientemente e partiu.
- Por vezes, sabem - prosseguiu Mrs. Gardener -, parece-me que estamos a ir um bocado longe de mais. 
Com todas estas grandes descobertas e todas as ondas elctricas que deve haver na atmosfera, acho que 
tudo isto d origem a uma grande perturbao mental, e parece-me que talvez tenha chegado a altura de 
surgir uma nova mensagem para a humanidade. No sei, M. Poirot, se o senhor alguma vez se interessou 
pelas profecias das pirmides.
- Confesso que no - replicou Poirot.
- Bem, posso assegurar-lhe que so muito, muito interessantes. Dado que Moscovo se situa exactamente 
a mil quilmetros ao norte de... do que  que era?... seria Nnive?... mas, seja o que for, desenha-se um 
crculo e encontram-se as coisas mais surpreendentes, e qualquer pessoa pode ver que isso deve querer 
dizer qualquer coisa, e que os antigos egpcios no podiam ter inventado tudo o que inventaram sem 
ajudas. E quando se entra na teoria dos nmeros e da sua repetio,  tudo to claro que no percebo 
como h quem ainda no acredite em tudo aquilo.

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Mrs. Gardener fez uma pausa triunfante, mas nem Poirot nem Miss Emily Brewster demonstraram qualquer 
interesse em debater o assunto.
Poirot observou com um ar pesaroso os seus sapatos de camura branca.
- M. Poirot, por acaso andou a usar os sapatos como remos? - perguntou Emily Brewster.
- Oh, foi uma imprudncia.
- Onde estar a nossa vampe esta manh? - disse Emily, intrigada. Est atrasada.
Levantando o olhar do seu tric para observar Patrick Redfern, Mrs. Gardener murmurou:
- Parece mesmo que lhe mordeu um bicho. Meu Deus, tudo isto faz-me uma pena... Gostava de saber o 
que pensa o capito Marshall de tudo isto.  um homem to simptico... muito ingls e despretensioso. 
Nunca se sabe o que ele pensa sobre as coisas.
Patrick Redfern levantou-se e comeou a andar de um lado para o outro.
- Parece mesmo um tigre enjaulado - sussurrou Mrs. Gardener. Patrick estava a ser observado por trs 
pares de olhos, o que parecia faz-lo ficar desconfortvel. A sua expresso j no era apenas de mau 
humor: agora parecia prestes a explodir.
No silncio que se seguiu chegou-lhes aos ouvidos o tnue tocar de um sino, vindo do continente.
- o vento est outra vez do leste - disse Emily Brewster. -  um bom sinal, quando se consegue ouvir o sino 
do relgio da igreja.
Nada mais foi dito at que Mr. Gardener regressou do hotel com uma meada de luzidia l vermelha.
- Demoraste-te tanto, Odell.
- Desculpa, querida, mas a l no estava na cmoda. Fui encontr-la na tua prateleira do roupeiro.
- Ora essa, que estranho! Era capaz de jurar que a tinha deixado na gaveta da cmoda. Ainda bem que 
nunca precisei de prestar declaraes num tribunal. Ficaria cheia de remorsos se por acaso no me 
lembrasse correctamente de qualquer pormenor.
- Mrs. Gardener  muito conscienciosa - declarou Mr. Gardener.

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Tinham decorrido uns cinco minutos quando Patrick Redfern perguntou:
- Por acaso vai remar esta manh, Miss Brewster? Importa-se que v consigo?
- Com muito gosto - replicou Miss Brewster, satisfeita.
- Proponho darmos uma volta  ilha a remar - sugeriu Redfern.
Miss Brewster consultou o relgio. - Acha que teremos tempo? Ah, pois, ainda no so onze e meia. 
Vamos, ento.
Foram ambos at  beira-mar. Patrick Redfern foi o primeiro a remar. Remava com movimentos vigorosos, e 
o barco deu um salto em frente.
- Muito bem. Vejamos se consegue aguentar esse ritmo - comentou Emily Brewster em tom de aprovao.
Ele riu-se, com aparente satisfao. A sua disposio tinha melhorado bastante.
- Sou capaz de ter as mos cobertas de bolhas quando regressarmos. Fez um gesto com a cabea, 
atirando para trs a cabeleira negra. - Santo Deus, est um dia mesmo maravilhoso! Quando se consegue 
ter um dia de autntico Vero em Inglaterra, no h nada melhor.
- Faa bom ou mau tempo, nada h melhor do que a Inglaterra - replicou Emily Brewster com aspereza. - 
No seria capaz de viver noutro pas.
- Concordo inteiramente consigo.
Circundaram o extremo da baa para oeste e passaram por baixo dos penhascos. Patrick Redfern olhou 
para o alto.
- Estar algum no Terrao do Sol esta manh? Est, sim: vejo um chapu-de-sol. Quem ser?
- Deve ser Miss Darriley - disse Emily Brewster. - Ela tem uma daquelas coisas japonesas.
Continuaram a remar, seguindo a linha da costa, com o mar aberto  sua esquerda.
- Devamos ter feito a volta ao contrrio - comentou Emily Brewster.
- Desta forma temos a corrente contra ns.
- A corrente  muito fraca. Tenho nadado por aqui e mal a sinto. De qualquer forma no poderamos ir na 
outra direco, pois o ponto no deve estar submerso.

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- Depende da mar, claro. Mas sempre ouvi dizer que tomar banho na enseada do Duende  perigoso, se 
se nadar para longe do areal.
Patrick continuava a remar vigorosamente, no deixando de observar atentamente a falsia.
De repente, Emily Brewster pensou: ele anda  procura da Marshall. Foi por isso que quis vir comigo. Ela 
no apareceu esta manh e ele no sabe o que ela andar a fazer. Possivelmente ela f-lo de propsito, s 
para o acicatar.
Dobraram a ponta rochosa ao sul da pequena baa conhecida por Enseada do Duende. Era uma enseada 
muito pequena, com fantsticos rochedos, distribudos pela praia. Voltada para noroeste, uma parte da 
praia estava coberta pelos penhascos. Era um local muito utilizado pela tarde para piqueniques. Mas 
durante a manh, como o sol no chegava l, no era procurado e quase nunca estava l ningum.
Contudo havia um vulto na praia.
O ritmo das remadas de Patrick Redfern fraquejou, para logo recuperar.
- Ol, quem estar ali? - disse num tom pretensamente casual.
- Parece ser Mrs. Marshall - respondeu Miss Brewster secamente.
- Assim parece, com efeito! - exclamou Patrick Redfern, como se estivesse admirado.
Alterou a sua rota, remando para terra. Emily Brewster protestou:
- No vamos acostar aqui, pois no?
Patrick Redfern respondeu prontamente:
- Ora, temos muito tempo... - Os seus olhos fixaram-se nos de Miss Brewster, e alguma coisa neles, uma 
ingnua expresso de splica que recordava a de um co maador, a fez calar-se.
Pobre rapaz, pensou, est mesmo pelo beicinho. Bem, no h nada a fazer. Aquilo acaba por lhe 
passar.
O bote aproximava-se rapidamente do areal.
Arlena Marshall estava deitada de cara para baixo sobre os seixos, com os braos estendidos para os 
lados. A gaivota estava puxada para fora da gua. no longe.
Algo estava a intrigar Emily Brewster. Era como se estivesse a olhar para qualquer coisa que conhecia 
bem, mas na qual havia algum pormenor que lhe parecia errado.
S passados alguns momentos constatou o que era.

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A posio de Arlena Marshall era a de algum a tomar banhos de sol. Tinha-a visto muitas vezes deitada na 
praia prximo do hotel, com o corpo bronzeado estendido na areia e o chapu de carto verde a proteger-
lhe a cabea e o pescoo.
Mas no havia sol na praia da Enseada do Duende, e no haveria durante as prximas horas. A falsia 
protegia a praia do sol toda a manh. Uma vaga apreenso apossou-se de Emily Brewster.
O bote encalhou nos seixos. Patrick Redfern chamou:
- Ol, Arlena!
Foi ento que o vago pressentimento de Emily Brewster tomou forma, pois a figura deitada no reagiu ao 
chamamento.
Emily reparou na mudana na expresso do rosto de Patrick, que saltou do barco logo seguido por ela. 
Puxaram o bote para fora da gua e depois caminharam at onde a figura vestida de branco estava deitada, 
inerte e sem reagir, prximo da base da falsia.
Patrick alcanou-a primeiro, mas Emily seguia um pouco atrs dele e viu, como num sonho, as pernas 
bronzeadas, o fato-de-banho branco sem costas... uma madeixa de cabelo ruivo sobressaindo da aba do 
chapu verde-jade... e outra coisa, sim, o curioso ngulo anormal dos braos estendidos. Sentiu, nesse 
preciso momento, que aquele corpo no se deitara ali, mas que fora para l atirado...
Ouviu a voz de Patrick - apenas sussurro amedrontado. Ele ajoelhou-se junto da figura imvel, tocou-lhe na 
mo, no brao...
Num arrepiante murmrio disse:
- Meu Deus, ela est morta! - E depois, ao levantar ligeiramente a aba do chapu, espreitou-lhe o pescoo: 
- Santo Deus, ela foi estrangulada... assassinada.
Era um daqueles momentos em que o tempo parece ficar parado.
Com uma estranha sensao de irrealidade Emily ouviu a sua prpria Voz:
- No podemos tocar em nada... at que chegue a polcia.
A resposta de Redfern veio maquinalmente: - No, no... claro que no.

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- E depois, num profundo e agonizante murmrio: - Quem? Quem? Quem ter feito isto a Arlena? Ela no 
pode... ter sido assassinada. No pode ser verdade!
Emily Brewster abanou a cabea, sem saber o que responder.
Ouviu-o tomar flego, e sentiu a ira controlada na sua voz ao dizer: Meu Deus, se ponho as mos no diabo 
que fez uma coisa destas...
Emily arrepiou-se. Imaginou algum assassino emboscado atrs de uma das rochas. Depois ouviu-se a 
dizer:
- Quem quer que tenha feito isto no ia ficar aqui  espera. Temos de ir buscar a polcia. Talvez... - hesitou - 
um de ns devesse ficar aqui com... com o corpo.
- Eu fico - disse Patrick Redfern prontamente.
Emily Brewster soltou um pequeno suspiro de alvio. No era do gnero de mulher que alguma vez 
admitisse estar com medo, mas sentia-se secretamente grata por no ter de ficar sozinha na praia, apesar 
de ser quase impossvel que algum manaco homicida ainda permanecesse por perto.
- Est bem - disse. - Vou o mais rpido que puder. Vou no barco. No tenho coragem para subir a escada 
de ferro. H um polcia na Baa de Leathercombe.
- Sim... sim - murmurou Patrick Redfern de um modo mecnico. Faa o que achar melhor.
Ao afastar-se da praia remando vigorosamente, Emily viu Patrick sentar-se ao lado do corpo e enterrar a 
cara nas mos. Havia algo to triste nesta atitude que ela sentiu pena dele, ainda que a contragosto. Fazia-
lhe lembrar um co velando o seu dono falecido. Apesar de tudo, o forte bom senso de Emily no cessava 
de lhe dizer: Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido, tanto para ele como para a mulher, como 
tambm para Marshall e para a filha... mas no creio que ele possa encarar o assunto por esse prisma, 
pobre infeliz.
Emily Brewster era uma daquelas mulheres sempre capazes de fazer face a uma emergncia.

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CAPTULO CINCO

O inspector Colgate esperou junto da falsia que o mdico-legista terminasse a observao do corpo de 
Arlena. Patrick Redfern e Emily Brewster aguardavam a alguma distncia.
O Dr. Neasden ps-se em p com um movimento gil. - Estrangulada - anunciou -, e por um poderoso par 
de mos. Ela no aparenta ter oferecido muita resistncia. Foi apanhada de surpresa. Hum... bem...  um 
caso terrvel.
Emily tinha dado um rpido olhar ao rosto da mulher morta, que logo desviou. Aquela horrvel face 
arroxeada...
- J conseguiu determinar a hora da morte? - perguntou o inspector Colgate.
- No posso ter a certeza antes de possuir mais factos a respeito da vtima - ripostou Neasden irritado. - H 
numerosos factores a considerar. Vejamos,  uma menos um quarto. Que horas eram quando a encontrou?
Patrick Redfern, a quem a pergunta era endereada, disse distraidamente: - Um pouco antes do meio-dia. 
No sei exactamente.
- Era exactamente meio-dia menos um quarto quando vimos que estava morta - interveio Emily Brewster.
- Ah, e tinham vindo de barco. Que horas seriam quando primeiro a viram aqui deitada?
Emily ponderou um pouco.
- Creio que dobrmos o extremo da ilha uns cinco ou seis minutos antes. - Virou-se para Redfern: - 
Concorda?
- Sim... sim, mais ou menos isso, acho eu - respondeu Redfern num tom vago.
-  este o marido? - perguntou Neasden ao inspector, em voz baixa.

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- Oh! Estou a ver. Enganei-me. Pensei que talvez fosse. Parece ter ficado bastante abalado.
Digamos portanto meio-dia menos vinte. Ela no devia ter sido morta muito antes disso. Digamos, entre 
essa hora e as onze menos um quarto como limite mximo.
O inspector fechou com rudo o seu livro de notas.
- Obrigado - disse. - Isso deve ajudar-nos consideravelmente. Coloca a hora da morte dentro de limites 
bastante estreitos, menos de uma hora no total.
Voltando-se para Miss Brewster disse:
- Portanto, parece-me que est tudo compreendido at agora. A senhora chama-se Miss Emily Brewster e 
este senhor Patrick Redfern, ambos hospedados no Hoteldo Pirata. Ambos identificam esta senhora como 
sendo tambm hspede do mesmo hotel, e mulher do capito Marshall?
Emily Brewster confirmou com um aceno.
- Nesse caso - disse o inspector Colgate -, parece-me que poderemos regressar ao hotel.
Chamou um polcia.
- Ilawkes, voc fica aqui e no autoriza ningum a aproximar-se desta enseada. Depois mando o Phillips vir 
ter consigo.
- Macacos me mordam! - exclamou o coronel Weston. - Que surpresa encontr-lo aqui!
Hercule Poirot retribuiu de maneira apropriada o cumprimento do chefe da polcia, murmurando:
- Ah, sim, muitos anos se passaram j, desde aquele caso em St. Loo.
- Mas eu no me esqueci dele - disse Weston. - A maior surpresa da minha vida. O que no me sai da 
memria, contudo, foi o modo como me fez andar s voltas com o assunto do funeral. Absolutamente nada 
ortodoxo Fantstico!
- Tout de mme, mon Colonel - declarou Poirot -, produziu o resultado que se pretendia, no  verdade?

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- Bem... sim, provavelmente. Mas estou convencido de que acabaramos por alcanar o mesmo resultado 
com mtodos mais convencionais.
-  possvel - concordou Poirot com diplomacia.
- E agora encontra-se de novo na presena de outro homicdio - disse o chefe da polcia. - Tem alguma ideia 
a respeito deste?
Poirot respondeu lentamente: - Nada de concreto... mas parece-me um caso interessante.
- Estar disposto a dar-nos uma ajuda?
- Se o permitir, sim.
- Meu caro amigo, a sua colaborao d-me muito prazer. No sei ainda se ser um caso para a Scotland 
Yrd.  primeira vista parece-me que o nosso homicida no deve ser de muito longe. Por outro lado todos 
os que esto aqui so forasteiros. Para se saber alguma coisa a respeito deles ou dos seus motivos ser 
necessrio ir a Londres.
- Sim, tem razo - disse Poirot.
- Primeiro que tudo, teremos de saber quem ter sido a ltima pessoa a ver a vtima ainda viva - continuou 
Weston. - A criada de quartos levou-lhe o pequeno-almoo s nove. A rapariga da recepo viu-a passar 
pelo trio e sair perto das dez.
- Meu amigo - disse Poirot -, creio ser eu a pessoa que procura.
- Viu-a esta manh? A que horas?
- Passavam cinco minutos das dez. Ajudei-a a lanar  gua a gaivota que estava na praia.
- E ela partiu nela?
- Com efeito.
- Sozinha?
- Sim.
- Reparou em que direco seguiu?
- Vi-a dobrar aquele extremo da ilha, ali  direita.
- Ou seja, na direco da Enseada do Duende?
- Isso mesmo.
- E que horas seriam ento?
- Eu diria que saiu da praia s dez e um quarto.
Weston pensou um pouco.

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- Sim, deve estar certo. Quanto tempo acha que ela levaria a pedalar at enseada?
- Ah, no sou um especialista. No gosto de andar de barco nem de me expor em gaivotas. Talvez meia 
hora?
-  mais ou menos isso que eu calculo - disse o coronel. - Ela no devia ir com pressas, penso eu. Bem, 
se tiver chegado l por volta das onze menos um quarto, os tempos ajustam-se.
- E a que horas calcula o mdico que ela ter morrido? - perguntou Poirot.
- Oh, Neasden no gosta de se comprometer.  um tipo cuidadoso. um quarto para as onze  o limite 
inicial que ele estabeleceu.
Poirot acenou.
- Existe um outro ponto que tenho de mencionar - disse. - Ao embarcar, Mrs. Marshall pediu-me para no 
dizer a ningum que a tinha visto.
Weston olhou para ele fixamente.
- Hum, isso tem o seu interesse, no acha?
- Foi tambm o que pensei - murmurou Poirot. Weston cofiou o bigode, e disse:
- Escute, Poirot. o senhor tem muita experincia de vida. Que tipo de mulher era Mrs. Marshall?
Um ligeiro sorriso aflorou aos lbios de Poirot.
- Ainda no lhe constou? - perguntou.
- Sei muito bem o que as mulheres dizem - disse o chefe da polcia com secura. - No admira. Em que 
medida ser verdade? Teria ela realmente um caso com aquele sujeito, Redfern?
- A minha resposta : sim, sem dvida.
- Ele seguiu-a at aqui, no foi?
- Tudo leva a crer que sim.
- E o marido? Saberia? o que pensaria?
- No  fcil saber-se o que o capito Marshall sente ou pensa - respondeu lentamente Poirot. -  um 
homem que no demonstra as suas emoes.
- Mas ainda assim deve t-las - replicou Weston. Poirot confirmou com um aceno.
- Oh, sim, deve t-las.

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O chefe da polcia estava a ser o mais diplomtico que sabia na sua conversa com Mrs. Castle. Mrs. Castle 
era a proprietria e gerente do Hotel do pirata. Era uma mulher de cerca de quarenta anos com um amplo 
busto, cabelo pintado de um ruivo bastante forte e um modo de falar quase desagradavelmente rebuscado.
- E uma coisa destas no meu hotel! - estava ela a dizer. - Sempre foi, estou certa, o local mais tranqui-lo 
que possa imaginar-se! As pessoas que c vm so to simpticas. Nada de turbulncias, se  que me 
fao entender! Nada comparvel com os grandes hotis de St. Loo...
- Tem toda a razo, Mrs. Castle - confirmou o coronel Weston. - Mas acidentes acontecem at nos 
melhores... hum... ambientes.
- Tenho a certeza de que o inspector Colgate poder ratificar o que afirmo - disse Mrs. Castle lanando um 
olhar de splica na direco do inspector, sentado a pouca distncia deles com um ar muito solene. - Sou 
sempre muito exigente em tudo o que se refere a assuntos legais de licenciamento. Nunca puderam 
apontar-me a menor irregularidade.
- Certamente, certamente - assegurou Weston. - No a incriminamos pelo que sucedeu, Mrs. Castle.
- Contudo, a verdade  que o sucedido vai reflectir-se no estabelecimento - queixou-se Mrs. Castle, com o 
amplo busto a arfar. - S de pensar nas multides pasmadas e ruidosas... Claro que o acesso  ilha  
reservado aos clientes do hotel... ainda assim, sem dvida que viro at  costa para apontar para aqui! - 
Ao dizer isto, estremeceu.
O inspector Colgate calculou que esta era a melhor oportunidade para encaminhar a conversa para o que 
interessava.
- Relativamente a esse ponto que acaba de referir... o acesso  ilha disse. - Como procede para manter as 
pessoas afastadas?
- Sou muito exigente nesse ponto.
- Certo, mas que medidas toma? Como  que impede o acesso aos indesejveis? Na poca das frias os 
veraneantes enxameiam por toda a parte COMO Moscas.
Mrs. Castle voltou a encolher os ombros.

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- Isso  culpa dos charabs. J cheguei a ver dezoito estacionados em fila diante da Baa de 
Leathercombe. Dezoito!
- Mesmo assim, como consegue evitar que eles venham para este lado?
- Existem avisos. E depois, claro, quando a mar est cheia, ficamos isolados.
- Est bem, mas com a mar baixa?
Mrs. Castle explicou. No extremo do ponto, do lado da ilha, havia uma cancela com um letreiro dizendo: 
Hotel do Pirata. Propriedade Privada. Acesso proibido excepto ao servio do hotel. Os rochedos eram 
muito escarpados de ambos os lados, e no poderiam ser escalados.
- Contudo - insistiu o inspector -, qualquer pessoa poderia meter-se num barco e dar a volta  ilha para 
desembarcar numa das angras, suponho. A senhora no poderia impedir que algum o fizesse, pois o 
acesso s praias entre as linhas da preia-mar e da baixa-mar  livre.
Aparentemente, contudo, era muito raro isto acontecer. Podiam alugar-se botes no porto da Baa de 
Leathercombe, mas era tarefa rdua remar-se at  ilha a partir da, e alm disso havia uma forte corrente 
logo  sada do porto.
Havia tambm avisos afixados junto das escadas de acesso por terra e as Enseadas da Gaivota e do 
Duende. Mrs. Castle acrescentou que George ou William estavam sempre de atalaia  praia propriamente 
dita, que era a que estava mais prxima do continente.
- Quem so George e William?
- George  quem cuida da praia.Toma conta das roupas e das gaivotas. William  o jardineiro. Trata dos 
carreiros e marca os courts de tnis e outras coisas assim.
O coronel Weston parecia impaciente.
- Bem, tudo isso me parece perfeitamente claro - disse. - Pelo que depreendo, no seria impossvel algum 
vir do exterior, mas quem o fizesse correria um risco: o risco de ser detectado. Daqui a pouco falaremos 
com George e William.
Mrs. Castle prosseguiu: - No estou interessada em excursionistas; so uma gente muito barulhenta, e 
frequentemente deixam cascas de laranja e invlucros de cigarros no ponto e junto da falsia, mas mesmo 
assim nunca pensei que algum deles fosse um homicida. Deus me proteja! No h palavras

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para algo to terrvel! Uma senhora como Mrs. Marshall assassinada... pior ainda... estrangulada!
Via-se que Mrs. Castle tinha dificuldade em pronunciar a palavra, mas acabou por dizer com grande 
relutncia.
-  na realidade um caso muito desagradvel - disse o inspector Colgate, tranquilizador.
- E os jornais? o meu hotel referido nos jornais!
- Bem, serve de publicidade, por assim dizer - disse Colgate com um tnue sorriso.
Mrs. Castle empertigou-se. o seu amplo busto agitou-se, fazendo ranger as barbas-de-baleia do espartilho.
- No  este o gnero de publicidade que pretendo, M r. Colgate - disse num tom glacial.
- Muito bem, Mrs. Castle, j tem a lista dos hspedes do hotel, como lhe solicitei? - disse o coronel 
Wston metendo-se na conversa.
- Sim, sir.
O coronel Weston examinou os registos. Deitou um olhar a Poirot, que era o quarto elemento do grupo 
reunido no gabinete dagerente do hotel.
-  neste ponto que talvez possa auxiliar-nos daqui a pouco. E quando ao pessoal?
Mrs. Castle apresentou uma segunda lista.
- H quatro criadas de quarto, o chefe de mesa mais trs criados de Mesa, e o Henry no bar. William 
encarrega-se das botas e dos sapatos. Depois h o cozinheiro e dois auxiliares.
- E quanto aos criados de mesa?
- Bem, o chefe de mesa  o Albert, que veio do inceni, em PIvi-nouth. Esteve l alguns anos. Os trs 
criados de mesa esto c h trs anos... um deles h quatro. So bons rapazes e muito respeitadores. o 
Henry trabalha c desde que o hotel abriu. j faz parte da moblia.
Weston fez um aceno.
- Parece tudo em ordem - disse para Colgate. - o inspector ir informar-se sobre eles, claro. Muito 
agradecido, Mrs. Castle.
-  tudo?
- Sim.
Mrs. Castle saiu da sala acompanhada pelo ranger do seu espartilho.

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- A primeira coisa a fazer ser falar com o capito Marshall - disse Weston.
Kenet Marshall respondeu tranquilamente s perguntas que lhe foram formuladas. Excluindo um ligeiro 
endurecimento da expresso do rosto, estava bastante calmo. Observado de perto, com a luz do sol que 
entrava pela janela e incidia sobre ele, via-se que era um homem atraente, com traos correctos, serenos 
olhos azuis, boca firme. A sua voz era grave e agradvel.
- Compreendo perfeitamente, capito Marshall - disse o coronel Weston -, que isto deve ter sido um 
tremendo choque para o senhor. Mas pode imaginar como estou ansioso por recolher as informaes mais 
detalhadas que me for possvel obter.
Marshall acenou.
- Compreendo perfeitamente - disse. - Queira prosseguir.
- Mrs. Marshall era a sua segunda esposa?
- Era.
- E estiveram casados durante quanto tempo?
- Pouco mais de quatro anos.
- Qual era o nome de solteira da sua esposa?
- Helen Stuart. Profissionalmente era conhecida por Arlena Stuart.
- Era actriz?
- Tinha participado em revistas e espectculos musicais.
- Desistiu da carreira teatral ao casar-se?
- No. Continuou a actuar. S se retirou da cena teatral h cerca de um ano e meio.
- Houve alguma razo especial para se ter retirado?
Kenet Marshall parecia ponderar a resposta.
- No - disse -, apenas achou que estava cansada daquela actividade.
- No teria sido... hum... para corresponder a um desejo seu?
Marshall levantou o sobrolho.
- Oh, no.
- Gostou que ela continuasse a actuar depois do vosso casamento?

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Marshall sorriu ligeiramente.
- Teria preferido que ela desistisse, sim. Mas nunca fiz um drama disso.
- Nunca houve qualquer discrdia entre ambos por causa disso?
- Certamente que no. A minha mulher tinha toda a liberdade para fazer o que quisesse.
- E... era um casamento feliz?
- Certamente - replicou Kenneth Marshall com frieza.
O coronel Weston fez uma ligeira pausa. Depois perguntou:
- Capito Marshall, tem alguma ideia de quem possa ter assassinado a sua esposa?
A resposta surgiu sem a menor hesitao.
- No fao ideia.
- Ela tinha inimigos?
-  possvel.
- Como?
Marshall prosseguiu rapidamente:
- No me interprete mal, coronel. A minha mulher era actriz. Era tambm uma mulher muito bonita. Estes 
dois factores despertaram certamente alguns cimes e invejas. Houve disputas por causa de papis, houve 
a rivalidade de outras mulheres, houve bastantes casos de inveja, de dio, maldade, e sobretudo de 
maledicncia! Mas isso no significa que houvesse algum capaz de a assassinar.
Hercule Poirot, interveio pela primeira vez.
- Pretender realmente dizer, monsieur, que os inimigos da sua esposa eram principalmente, ou at 
totalmente, mulheres?
Kenneth Marshall olhou para ele: - Assim , com efeito.
- Tem conhecimento de algum homem que guardasse rancor contra a sua esposa? - disse o chefe da 
polcia.
- No.
- Sabe se ela conhecera anteriormente alguns dos actuais hspedes do hotel?
- Creio que j conhecia Mr. Redfern... possivelmente de uma festa qualquer. Que eu saiba mais ningum.
Weston fez uma pausa. Parecia tentar decidir se deveria continuar a debater esse pormenor. Depois 
preferiu no o fazer.

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- Chegamos assim aos acontecimentos desta manh - disse. - Quando foi a ltima vez que viu a sua 
esposa?
Marshall pensou um pouco; depois disse: - Fui falar-lhe quando desci, para tomar o pequeno-almoo...
- Desculpe-me; Ocupavam quartos separados?
- Sim.
- E que horas seriam?
- Deviam ser aproximadamente nove horas.
- o que estava ela a fazer?
- A abrir a correspondncia.
- E disse alguma coisa?
- Nada de interesse especial. Apenas bom dia... e que o tempo estava agradvel... coisas desse gnero.
- Que disposio aparentava? Nada de invulgar?
- No, tudo perfeitamente normal.
- No lhe pareceu enervada, ou deprimida, ou de algum modo transtornada?
- No notei nada de especial.
Hercule Poirot, interveio: - A sua esposa referiu-se ao contedo das cartas?
Novamente um ligeiro sorriso surgiu nos lbios de Marshall.
- Se bem me recordo - respondeu -, disse que eram apenas contas.
- Ela tomou o pequeno-almoo na cama?
- Tomou, sim.
- Era sempre assim?
- Invariavelmente.
- A que horas costumava ela descer? - perguntou Poirot.
- oh, entre as dez e as onze horas... quase nunca antes das onze. Poirot prosseguiu:
- Se por acaso ela descesse exactamente s dez horas, seria caso para ficar surpreendido?
- Sim. Ela nunca saa assim to cedo.
- Contudo, esta manh foi isso que sucedeu. Qual seria o motivo. capito Marshall?

68

Este replicou sem emoo:
- No fao a menor ideia. Talvez fosse por causa do tempo, visto estar un dia to agradvel.
- Deu por ela ter sado?
Kennet Marshall mudou de posio na cadeira.
- Voltei para lhe falar de novo depois do pequeno-almoo - disse - mas o quarto estava vazio. Fiquei um 
pouco surpreendido.
- E foi ento que se dirigiu  praia, tendo-me perguntado se a teria visto?
- Hum, sim deve ter sido. - Com uma ligeira nfase na voz, acrescentou: - E o senhor disse-me que no 
tinha...
Os olhos inocentes de Hercule Poirot no acusaram o remoque. Ps-se a acariciar suavemente o farto e 
espalhafatoso bigode.
- Tinha alguma razo especial para procurar a sua esposa esta manh?
- perguntou Weston.
Marshall desviou o olhar para o chefe da polcia.
- No, apenas tinha curiosidade de saber onde estaria.
Weston fez uma pausa. Corrigiu ligeiramente a posio da sua cadeira. A sua voz adoptou um tom 
diferente, ao dizer:
- H alguns momentos, capito Marshall ,o senhor mencionou que a sua esposa conhecera Mr. Patrick 
Redfern numa ocasio prvia. At que ponto se conheciam?
- Importam-se de que fume? - perguntou Kenneth Marshall.Comeou a mexer nos bolsos. - Bolas! Esqueci-
me do cachimbo!
Poirot ofereceu-lhe um cigarro, que ele aceitou. Ao acend-lo, disse:
- Estava a perguntar-me a respeito de Redfern. A minha mulher disse-me que o tinha conhecido numa festa 
qualquer.
- Nesse caso, ele era apenas um conhecimento superficial?
- Creio que sim.
- Contudo... - o chefe da polcia fez uma pausa. - Fui informado de que esse conhecimento se transformou 
em algo mais ntimo.
- Acha que sim? Quem lho disse? - ripostou Marshall asperamente.
- Toda a gente fala disso no hotel.
Por um momento os olhos de Marshall desviaram-se para Hercule Poirot, nele permanecendo com uma 
expresso de raiva surda.

69

- Normalmente os mexericos de hotel no passam de um monte de mentiras!
- Possivelmente. Mas, segundo me parece, Mr Redfern e a sua esposa foram os prprios a fomentar esses 
mexericos.
- Fomentar? Como?
- Passando o tempo constantemente juntos.
-  s isso?
- No nega que era assim?
- Pode ter acontecido. Nunca reparei.
- No dava importncia (desculpe-me a franqueza)  amizade que a sua esposa demonstrava por Mr. 
Redfern?
- No estava habituado a criticar o comportamento da minha mulher.
- No lhe manifestou qualquer objeco ou qualquer protesto?
- Claro que no.
- Nem mesmo por esse relacionamento estar a tornar-se objecto de escndalo, ao mesmo tempo que as 
relaes entre Mr. Redfrn e a mulher pareciam deteriorar-se?
- No me meto na vida dos outros, e agradeo que os outros no se metam na minha - retorquiu Kenneth 
Marshall com frieza. - No dou ouvidos a ms-lnguas ou a mexericos.
- No nega que Mr. Redfern admirava a sua esposa?
-  provvel que sim. Quase todos os homens a admiravam. Era uma mulher muito bela.
- Mas o senhor estava persuadido de que no haveria nada de censurvel na relao de ambos?
- Nunca pensei nisso, garanto-lhes.
- E se ns tivermos uma testemunha pronta a afirmar que existia uma grande intimidade entre eles?
Uma vez mais aqueles olhos azuis desviaram-se para Hercule Poirot. Uma vez mais uma expresso de 
antipatia subiu quele rosto normalmente impassvel.
- Se quiserem dar ouvidos a essas histrias, dem. A minha mulher morreu, e j no se pode defender.
- Quer dizer que, pessoalmente, no acredita nelas?

70

Pela primeira vez um tnue orvalho de suor podia ser observado na testa de Marshall.
- Posso assegurar que no creio em nada disso - protestou Marshall. Depois prosseguiu: - No estaro a 
afastar-se do que interessa? o que eu acredito ou no acredito no  de certeza susceptvel de alterar o 
simples facto do homicdio da minha mulher.
Hercule Poirot respondeu antes que um dos outros pudesse reagir:
- o senhor no est a compreender, capito Marshall. Um simples facto no  coisa que exista num 
homicdio. Em noventa por cento dos casos, o homicdio  resultante do carcter e das circunstncias da 
pessoa assassinada. Foi porque a vtima era este ou aquele tipo de pessoa, que foi assassinada. Enquanto 
no pudermos compreender perfeitamente o tipo de pessoa que Arlena Marshall era, no poderemos 
determinar com exactido o tipo de a que a assassinou. Da a necessidade das nossas perguntas.
Marshall voltou-se para o chefe da polcia. -  tambm essa a sua opinio? - perguntou-lhe.
Weston hesitou um pouco.
- Bem, de certo modo... quero dizer... Marshall soltou uma breve risada.
- J sabia que no ia concordar - disse. - Esta coisa do carcter  especialidade de M. Poirot, segundo 
creio.
- Ao menos poder gabar-se de no ter feito nada para me auxiliar... respondeu Poirot a sorrir.
- Que pretende dizer com isso?
- o que  que nos disse o senhor a respeito da sua esposa? Exactamente nada. Disse-nos apenas aquilo 
que qualquer pessoa poderia ver sem ajuda: que ela era bela e admirada. Nada mais.
Kenet Marshall encolheu os ombros e disse:
- o senhor est louco.
Depois voltou-se para o chefe da polcia e perguntou-lhe, com nfase:
- Haver mais alguma coisa que o senhor pretenda que lhe diga?
- h, ,sim, capito Marshall.Conte-nos, por favor, os seus movimentos desta manh.
Kenet Marshall concordou com um aceno. Estivera obviamente  espera disto.

71

- Tomei o pequeno-almoo c em baixo, cerca das nove horas, e li o jornal. Conforme j disse, regressei ao 
quarto da minha mulher e constatei que ela j tinha sado. Encaminhei-me para a praia, encontrei M. Poiroi 
e perguntei-lhe se ele a teria visto. Depois nadei um pouco e regressei ao hotel. Seriam ento, deixe-me 
pensar, cerca de onze menos vinte - sim, mais ou menos isso. Recordo-me de ter olhado para o relgio do 
salo. Subi ao meu quarto, mas a criada ainda no tinha acabado de o arrumar. Pedi-lhe para terminar 
depressa. Precisava de dactilografar umas cartas que queria mandar pelo correio. Desci de novo e 
conversei um pouco com Henry, no bar, Voltei ao meu quarto quando faltavam dez minutos para as onze. 
Fiquei a escrever as cartas at ao meio-dia menos dez. Ento vesti-me para ir jogar tnis, pois tinha 
combinado uma partida ao meio-dia. Tnhamos reservado o court no dia anterior.
- o senhor e mais quem?
- Mrs. Redfern, Miss Darriley, Mr. Gardener e eu. Fui para baixo ao meio-dia e dirigi-me ao court. Miss 
Darriley j l estava com Mr. Gardener. Mrs. Redfern chegou uns minutos depois. jogmos tnis durante 
uma hora. Assim que chegmos ao hotel... recebi a notcia.
- Obrigado, capito Marshall. Por mera formalidade, haver algum que possa corroborar o facto de ter 
estado a escrever  mquina no seu quarto entre hum... as onze menos dez e o meio-dia menos dez?
- Estar convencido de que matei a minha prpria mulher? - disse Kenneth Marshall com um sorriso frouxo. 
- Vejamos: a criada andava a arrumar os quartos. Deve ter escutado o barulho da mquina de escrever. 
depois h as prprias cartas. Com toda esta confuso no cheguei a mand-las para o correio. Acho que 
devem constituir um bom testemunho do que acabei de afirmar.
Retirou do bolso trs envelopes. Estavam endereados, mas no tinham ainda selo.
- o contedo destes envelopes - explicou -  estritamente confidencial. Mas quando se trata de um 
homicdio, somos forados a confiar na discrio da polcia. Contm vrios documentos de ordem 
financeira. Estou certo de que, se puser um dos seus homens a copi-los  mquina de escrever, no 
levar menos duma hora.
Calou-se um momento.

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- Est satisfeito, segundo espero?
- No se trata de uma questo de suspeita - replicou Weston com diplomacia. - Todos os que se 
encontram na ilha sero convidados a explicar os seus movimentos entre as onze menos um quarto e o 
meio-dia menos vinte desta manh.
- Compreendo - concedeu Marshall.
- S mais uma coisa, Capito Marshall - acrescentou Weston. - Sabe algo a respeito de como a sua 
esposa ter tencionado dar destino a quaisquer bens que possusse?
- Refere-se a um testamento? No creio que alguma vez o teria feito.
- Mas no tem a certeza?
- Os advogados dela eram a firma Barkett, Markett & Arwegood, com escritrio na Bedford Square. Eram 
eles que tratavam dos seus contratos, etc. Mas estou quase certo de que ela nunca fez testamento. Disse-
me uma vez que s de pensar nisso ficava arrepiada.
- Nesse caso, se faleceu intestada, o senhor, como seu marido,  o nico herdeiro.
- Sim, creio que sim.
- Ela tinha familiares?
- No me parece. Se os tinha, nunca me falou neles. Sei que os pais morreram quandoainda era criana, e 
no tinha irmos.
- De qualquer modo presumo que tenha deixado poucos bens...
Kenet Marshall retorquiu com frieza:
- Pelo contrrio. H apenas dois anos, Sir Robert, Erskine, que era um velho amigo dela, faleceu e deixou-
lhe quase toda a sua fortuna, no valor de cerca de cinquenta mil libras, creio eu.
o inspector Colgate levantou os olhos, subitamente alerta. At ento tinha permanecido em silncio. Agora 
perguntava:
- Nesse caso capito Marshall, a sua esposa era uma mulher rica?
Kenneth Marshall encolheu os ombros.
- Sim, creio que era.
- E continua a afirmar que no deixou testamento?
- Podem perguntar aos advogados. Mas tenho a certeza de que no deixou. Conforme j disse, ela pensava 
que lhe daria azar.

73

Houve um silncio; depois Marshall acrescentou:
- Mais alguma coisa?
Weston abanou a cabea.
- No me parece... Colgate? No. Uma vez mais, capito Marshall, permita que lhe apresente as minhas 
condolncias.
Marshall pestanejou. Depois disse, hesitante: - Oh... obrigado. - E saiu.
Os trs homens olharam uns para os outros.
- Este  fresco - comentou Weston. - No se consegue arrancar-lhe nada, pois no? o que  que acha dele, 
Colgate?
o inspector sacudiu a cabea. -  difcil dizer. No  do gnero de mostrar o jogo. As pessoas deste tipo 
causam m impresso no banco das testemunhas, o que pode ser-lhes injusto. s vezes so umas 
farsantes, e noentanto no se nota. Foi este tipo de postura que determinou o veredicto de culpado no 
caso Wallace. No foram as provas. Pura e simplesmente no conseguiram acreditar que um homem 
pudesse perder a mulher e falar e agir com tanta serenidade a respeito disso.
Weston voltou-se Para Poirot.
- Qual  a sua opinio? - perguntou. Hercule Poirot levantou as mos.
- Que poderei dizer? - respondeu. - Ele  como uma caixa trancada... uma ostra fechada. Foi o papel que 
escolheu: no ouviu nada, no viu nada, no sabe nada.
- Podemos escolher entre, dois motivos - disse Colgate. - H o motivo do cime, e h o motivo do dinheiro. 
 claro que, de certo modo, um marido  sempre o suspeito bvio. Pensa-se naturalmente nele em primeiro 
lugar Se ele soubesse que a mulher andava metida com outro sujeito...
- Acho que ele sabia isso - interrompeu Poirot.
- Por que diz isso?
- Escute, meu amigo. A noite passada estive a conversar com Mrs. Redfern no Terrao do Sol. Ao 
regressar ao hotel deparei com os dois, juntos: Mrs. Marshall e Patrick Redfern. E um momento depois 
encontrei o capito

74

Marshall. A sua expresso era tensa. No deixava transparecer nada... mas nada mesmo! Estava 
excessivamente inexpressiva, se me entendem. Oh! No restam dvidas de que ele sabia!
Colgate soltou um resmungo de dvida.
- Bem, se  essa a sua opinio... - disse.
- Estou certo disso! Mas mesmo assim, o que  que esse facto nos diz? o que sentiria Kenneth Marshall a 
respeito da mulher?
- Encara a morte da mulher com bastante frieza - disse o coronel Weston.
Poirot abanou a cabea, insatisfeito.
- Por vezes, estes tipos aparentemente mais tranquilos so os mais violentos, por assim dizer. Est tudo 
recalcado. Pode ter estado loucamente apaixonado por ela... e loucamente ciumento. Mas no  do gnero 
de o demonstrar.
- Sim, isso  bem possvel - declarou Poirot, lentamente. -  uma personagem muito interessante, este 
capito Marshall. Sinto-me bastante curioso a seu respeito. E tambm a respeito do seu libi.
- o libi da mquina de escrever - exclamou Weston com uma curta risada. - Qual  a sua opinio a 
respeito disso, Colgate?
o inspector Colgate semicerrou os olhos, e disse:
- Bem, como sabe, tenho uma certa simpatia por este libi. No  bom de mais, se me fao entender. ... 
bem,  natural. E se confirmarmos que a criada de quarto andava por ali, e escutou o bater da mquina de 
escrever, nesse caso teremos de o aceitar e passar a procurar noutro lado.
- Hum... - fez o coronel Weston. - E procurar onde?
Durante alguns instantes os trs homens ficaram a ponderar sobre a questo. o inspector Colgate foi o 
primeiro a falar.
- Resumindo, teria sido algum do exterior, ou um hspede do hotel? No elimino totalmente o pessoal, 
note-se, mas no tenho esperana nenhuma de virmos a descobrir que algum dos empregados se envolveu 
no assunto. No, ou  um hspede, ou  algum vindo de fora. Temos de encarar o caso

75

da seguinte forma. Em primeiro lugar, o motivo. H proveito financeiro. A nica pessoa que lucraria com a 
morte dela era o marido, segundo parece. Outros motivos? o principal  o cine. Assim de repente parece-
me que se alguma vez um homicdio teve direito a ser classificado como um crinie passionnel - fez uma 
vnia na direco de Poirot, -  sem dvida este.
Olhando para o tecto, Poirot murmurou: - As paixes podem assumir aspectos muito variados...
o inspector Colgate prosseguiu:
- o marido insistiu em que a vtima no tinha inimigos, mas no posso acreditar nisso! Eu diria que uma 
senhora como ela faria... Bem, faria alguns inimigos e dos bons... Que acha, h, ,sir?
- Mais oui, tem toda a razo - respondeu Poirot. - Arlena Marshall no poderia deixar de fazer inimizades. 
Mas na minha opinio a teoria do inimigo no  sustentvel, porque, penso eu, os inimigos de Arlena 
Marshall seriam sempre, como eu disse ainda h pouco, mulheres, Compreende?
o coronel Weston resmungou:
- H qualquer coisa de verdade nisso. So as mulheres que tm sempre a faca apontada.
Poirot prosseguiu:
- Parece-me pouco plausvel que este homicdio tenha sido cometido por uma mulher. o que  que diz o 
mdico legista?
- Neasden parece convencido de que ela foi estrangulada por um homem - informou Weston. - Um homem 
com mos grandes e bastante fora. Claro que  possvel que uma mulher de compleio invulgarmente 
atltica o pudesse ter feito, mas  bastante improvvel.
Poirot concordou com um aceno.
- Exactamente. Arsnico na chvena do ch... uma caixa de chocolates envenenados... uma faca, at 
mesmo uma pistola; mas por estrangulamento no!  um homem que temos de procurar.
- E o caso torna-se logo mais complicado - prosseguiu. - H duas pessoas aqui no hotel que tm motivo 
para querer Arlena Marshall fora de jogo... mas ambas so mulheres.
- A mulher de Redfern  uma delas, segundo creio - sugeriu o coronel Weston.
- Sim. Mrs. Redfern bem poderia ter tido vontade de matar Arlena

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Stuart. Convenhamos que motivo no lhe faltava. Parece-me tambm que Mrs. Redfern seria uma boa 
candidata para cometer um assassnio, mas no deste gnero. Apesar de toda a sua infelicidade e do seu 
cime, ela no , na minha opinio, uma mulher de paixes intensas. No que diz respeito ao amor, ela 
seria devotada, leal, mas no arrebatada. Conforme ainda h Pouco indiquei... Arsnico no ch, 
possivelmente, mas estrangulamento nunca. Tenho tambm a certeza de que ela seria fisicamente incapaz 
de cometer este crime, porque tem mos pequenas, de um tamanho abaixo da mdia.
Weston acenou.
- Sim, tem razo, isto no , um crime feminino. No, o assassino  um homem.
o inspector Colgate tossiu.
- Permita-me sugerir uma soluo, sir. Digamos que, antes de conhecer este Mr. Redfern, a senhora tinha 
tido outro caso com algum... chamemos-lhe X. Ela deixa o X por Mr. Redfern. X fica louco de raiva e 
cime. Segue-a at aqui, hospeda-se algures nas proximidades, vem at  ilha, trata-lhe da sade. -  bem 
possvel!
-  possvel, com efeito - disse Weston. - E se for verdade, ser fcil de provar. Teria vindo a p ou de 
barco? Esta ltima hiptese parece mais vivel. Sendo assim, deve ter alugado um barco algures.  melhor 
proceder a algumas investigaes, inspector.
Voltou-se para Poirot. - Que pensa da sugesto do inspector Colgate?
- De algum modo, depende demasiado do acaso - disse Poirot, lentamente. - Alm disso... h qualquer 
coisa no cenrio que no me soa a verdadeiro. No sou capaz de imaginar este homem... este homem 
louco de raiva e de cime...
- Mas algumas pessoas parecem mesmo ter perdido a cabea por ela, sir. Veja o Redfern, por exemplo.
- Sim, sim... mas mesmo assim...
Colgate olhou para ele, numa muda interrogao. Poirot abanou a cabea.
- No sei bem o qu - disse franzindo o sobrolho - mas h alguma coisa que nos escapa...

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CAPTULO SEIS

O coronel Weston estava a examinar o livro de registo do hotel. Comeou a ler em voz alta:
- Major e Mrs. Cowan Miss Pamela Cowan Master Robert Cowan
Master Evan Cowan
Rydals Mount, Leatherhead.
Mr. e Mrs. Masterman
Mr. Edward Masterman Miss Jennifer Masterman Mr. Roy Masterman
Master Frederick Masterman
5 Marlborough Avenue, Londres, N.W.
Mr. e Mrs. Gardener
Nova Iorque.
Mr. e Mrs. Redfern
Crossgates, Seldon, Princes Risborough.
Major Barry
18 Cardon St., St. James, Londres, S.W. 1.
Mr. Horace Blatt
5 Pickersgill Street, Londres, E.C. 2.
M. Hercule Poirot
Whitehaven Mansions, Londres, W 1.
Miss Rosamund Darriley
8 Cardigan Court, W 1.
Miss Emily Brewster
Southgates, Sunbury-on-Thames.

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Rev. Stephen Lane Londres.
Capito e Mrs. Marshall Miss Linda Marshall
73 Upcott Mansions, Londres, S.W 7.
Terminou a leitura.
- Tenho a impresso de que poderemos cortar os dois primeiros registos - disse o inspector Colgate. - Mrs. 
Castle disse-me que os Mastermans e os Cowans vm para aqui todos os Veres com os filhos. Esta 
manh partiram todos numa excurso que demora o dia inteiro, a bordo dum veleiro, levando o almoo com 
eles. Saram pouco depois das nove horas. Foram com um guia chamado Andrew Baston. Podemos 
confirmar com ele, mas creio que  possvel p-los de parte.
Weston concordou.
- Acho bem. Eliminemos todos os que pudermos. Poder dar-nos uma dica a respeito dos restantes, 
Poirot?
- Superficialmente, isso  fcil - disse Poirot. - Os Gardeners so um casal de meia-idade... simpticos, 
bastante viajados. A senhora  quem se encarrega de falar. o marido limita-se a concordar. Ele joga tnis e 
golfe, e usa uma forma de humor seco que se torna agradvel quando conseguimos apanh-lo longe da 
cara-metade.
- Parece-me ser boa pessoa.
- A seguir: os Redferns. Mr. Redfern  um homem novo, atraente para as mulheres, um excelente nadador, 
bom jogador de tnis e ptimo danarino. Da mulher j vos falei.  muito calada, bonita sem dar nas vistas. 
Parece-me bastante dedicada ao marido. Tem algo que Arlena Marshall nunca teve.
- E que ... ?
- Miolos.
o inspector Colgate suspirou; depois disse:
- A cabea serve de pouco quando toca a paixes.
- Talvez. E contudo creio firmemente que, apesar dessa paixo desenfreada por Mrs. Marshall, Patrick 
Redfern gosta realmente da mulher.
-  possvel, sir. No seria a primeira vez que isso acontece.
- E isso  que  de lamentar! - murmurou Poirot. -  sempre o que as mulheres acham mais difcil de crer.

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prosseguiu na sua anlise  lista dos hspedes.
- o major Barry. Reformado do exrcito das ndias. Admirador do sexo oposto e narrador de longas e 
aborrecidas histrias.
o inspector Colgate suspirou.
- No precisa de dizer mais. Conheo perfeitamente o gnero.
- Mr. Horace Blatt. aparentemente um homem rico. Fala muito... a respeito de si mesmo. Quer ser amigo 
de todos.  Pena, porque ningum gosta muito dele. E h ainda outra coisa. Ontem  noite Mr. Blatt fez-
me uma quantidade de perguntas. No parecia estar  vontade. Sim, h qualquer coisa que no bate certo 
com respeito a Mr. Blatt.
Fez uma pausa, e a seguir prosseguiu, com um tom de voz diferente:
- A seguir vem Miss Rosamund Dariiley.  conhecida no mundo dos negcios pelo nome de Rosamond, 
Ltd.,  uma costureira consagrada. Que poderei dizer acerca dela?  inteligente, encantadora e elegante. 
D gosto olhar para ela. - Calou-se por instantes, e depois acrescentou:
-  uma grande amiga do capito Marshall desde a adolescncia.
Wston endireitou-se na cadeira.
- Ah,  isso, ?
- Sim. No se viam h vrios anos.
- Saberia que ele ia estar aqui?
- Ela diz que no.
Poirot prosseguiu:
- Quem vem a seguir? Miss Bruster. Considero-a um pouco assustadora. - Abanou a cabea. - Parece um 
homem a falar.  rude e atltica. Gosta de remar e tem um handicap de quatro no golfe. - Calou-se de novo.
- Mas parece-me ter um bom corao.
- Assim resta-nos apenas o reverendo Stephen Lane - comentou Weston. - Quem  o reverendo Stephen 
Lane?
- Apenas posso dizer uma coisa. Encontra-se debaixo duma forte tenso nervosa. Acho tambm que  um 
fantico.
- Ah,  um desses - interveio o inspector Colgate.
- E  tudo! - disse o coronel Weston. Olhou para Poirot. - Parece-me muito pensativo, meu amigo...
Poirot confirmou.
- Tem razo. Quer saber porqu? Quando Mrs. Marshall partiu esta manh e me pediu para no dizer a 
ningum que a tnha visto, cheguei sapressadamente a uma certa concluso. Pensei que a amizade dela 
com patrick Redfern tinha provocado um problema entre ela e o marido. Pensei que ia encontrar-se algures 
com Patrick Redfern, e no queria que o marido soubesse onde ela estava.
Fez uma pausa.
- Contudo, foi a que me enganei, sabe. Porque apesar de o marido ter chegado quase a seguir, Patrick 
Redfern surgiu, e era evidente que tambm andava  procura dela! Consequentemente, meus amigos. 
pergunto a mim mesmo: com quem iria Arlena, Marshall encontrar-se?
- Isso ajusta-se  minha teoria - comentou o inspector Colgate. Algum homem de Londres, ou de qualquer 
lado.
Hercule Poirot abanou a cabea.
- Mas, meu amigo - disse -, de acordo com a sua teoria Arlena Marshall tinha deixado esse amigo 
imaginrio. Assim, por que razo se daria a tanto trabalho para ir encontrar-se com ele?
o inspector Colgate abanou a cabea. - Quem acha ento que seria?
-  isso, precisamente, que no sei. Acabmos de analisar a lista dos hspedes do hotel. So todos 
pessoas de meia-idade e desinteressantes. Qual deles poderia rivalizar com Patrick Redfern nas 
preferncias de Arlena Marshall? No, isso  impossvel. E contudo, ela ia ao encontro de algum... e esse 
algum no era Patrick Redfern.
- Acha que ela desejava apenas estar sozinha? - murmurou Weston. Poirot abanou a cabea.
- Mon cher - disse -,  evidente que no chegou a conhecer a falecida. Algum escreveu uma vez um 
erudito tratado sobre o efeito que o isolamento poderia exercer sobre Beau Brummel e sobre um homem 
como Newton. Arlena Marshall ,meu caro amigo, no conseguiria sobreviver na solido. Vivia 
exclusivamente para o calor da admirao dos homens. No, Arlena ia encontrar-se com algum esta 
manh. Mas quem?
o coronel Weston suspirou, abanou a cabea, e disse:
- Bem, poderemos entrar nas teorias mais tarde. Primeiro temos de

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despachar os interrogatrios. H que estabelecer concretamente onde estava toda a gente. Acho que agora 
 melhor irmos falar com a jovem Marshall ,Pode ser que nos diga algo de til.
Linda Marshall entrou desajeitadamente na sala, colidindo com a ombreira da porta. Estava ofegante, e 
tinha as pupilas dilatadas. Parecia um potrozinho assustado. o coronel Weston sentiu simpatia por ela. 
Pobre garota... , pensou na realidade no passa de uma garota. Isto deve ter sido um grande choque para 
ela.
Puxou uma cadeira para ela se sentar e disse-lhe, numa voz tranquilizante:
- Lamento ter de lhe fazer algumas perguntas, Miss...  Linda, no ?
- Sim, chamo-me Linda.
A voz dela tinha aquele tom aspirado que  caracterstico nas colegiais. As suas mos descansavam 
desajeitadamente na mesa, mos patticas, grandes e avermelhadas, com ossos volumosos e pulsos 
compridos. Uma mida no devia ser envolvida numa coisa destas, pensou Weston.
- Esta conversa nada tem de alarmante - disse num tom calmo. Apenas queremos que nos conte qualquer 
coisa que pense poder ser-nos til. mais nada.
- A respeito da Arlena, quer dizer? - perguntou Linda.
- Isso mesmo. Chegou a v-la esta manh?
A rapariga abanou a cabea.
- No. A Arlena levanta-se sempre muito tarde. Gosta de tomar o pequeno-almoo na cama.
Hercule Poirot inquiriu: - E a Mademoiselle?
- Eu no. Levanto-me sempre. o pequeno-almoo na cama  to chato...
- Pode dizer-nos o que fez esta manh? - perguntou Weston.
- Bem, primeiro fui nadar um pouco e a seguir tomei o pequeno-almoo, e depois fui com Mrs. Redfern  
Enseada da Gaivota.
- A que horas partiram?
- Ela tinha-me dito que esperava por mim no trio s dez e meia. Estava com medo de me atrasar, mas 
afinal consegui chegar a horas. Pusemo-nos a caminho talvez uns trs minutos depois.
- E o que fizeram na Enseada da Gaivota? - perguntou Poirot.
- Oh, eu pus bronzeador e estendi-me ao sol, enquanto Mrs. Redfern

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desenhava. Depois, mais tarde, meti-me na gua e Christine regressou ao hotel para se arranjar para o 
tnis.
- Recorda-se de que horas seriam? - perguntou Weston, num tom de voz natural.
- Quando Mrs. Redfern regressou ao hotel? Um quarto para o meio-dia.
- Tem a certeza disso? Um quarto para o meio-dia?
-Tenho, sim. Olhei para o meu relgio - replicou Linda abrindo muito os olhos.
- o mesmo relgio que tem agora?
Linda olhou de relance para o pulso. - Sim, sim.
- Posso v-lo? - pediu Weston.
Ela estendeu-lhe o pulso. Weston comparou-o com o seu relgio e com o do hotel, afixado na parede. 
Depois disse, sorridente: - Est certo ao segundo. E depois ficou a nadar durante algum tempo?
- Sim.
- E que horas eram quando voltou ao hotel?
- Passava um pouco da uma. E foi ento que... que soube... a respeito da Arlena...
- Dava-se... Hum... bem com a sua madrasta? - perguntou o coronel Weston.
Linda olhou para ele durante alguns instantes, sem responder.
- Certamente - disse depois.
- Gostava dela, mademoiselle? - perguntou Poirot.
- Certamente - respondeu Linda de novo. - Ela era bastante amvel comigo - acrescentou.
- No tinha nada a ver com o gnero da madrasta cruel, pois no? perguntou Weston, com um ar 
pretensamente brincalho.
Linda sacudiu a cabea sem sorrir.
- Ainda bem. Ainda bem - prosseguiu Weston. - s vezes, como sabe, h alguns problemas nas famlias... 
cimes, coisas desse gnero. A filha e o pai so grandes amigos e depois ela ressente-se quando ele 
aparece com uma nova mulher. No sentia nada disso, pois no?
Linda olhou para ele.
- Claro que no - disse com bvia sinceridade. Weston insistiu.

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- Calculo que o seu pai era... bem... muito dedicado a ela?
- No sei - respondeu Linda simplesmente.
- Como j disse - prosseguiu Weston -, surgem nas famlias dificuldades de toda a espcie: discusses, 
brigas, esse gnero de coisas. Se o marido e a mulher se desentendem, os Filhos tambm se ressentem. 
Existe alguma coisa desse gnero no seu caso?
- Est a perguntar se o meu pai e a Arlena discutiam? - precisou Linda.
- Bem... sim - admitiu Weston, e pensou Raio de profisso esta, que me obriga a interrogar uma criana a 
respeito do pai. Mas algum ter de o fazer, bolas.
- Pois bem - respondeu Linda, decidida. - o meu pai nunca discut(, com ningum. No  desse gnero.
- Muito bem, Miss Linda - prosseguiu Weston. - Quero que pense com muito cuidado. Tem alguma ideia de 
quem possa ter assassinado a sua madrasta? Ter escutado alguma coisa, ou conhecer algum facto que 
nos possa auxiliar em relao a isso?
Linda ficou calada durante um momento. Parecia estar a dedicar  pergunta a sua total concentrao.
- No, no sei de ningum que pudesse ter desejado matar Arlena - disse por fim. - Excepto, claro, Mrs. 
Redfern.
- Pensa que Mrs. Redfern queria mat-la? - perguntou Weston. Porque?
- Porque o marido dela estava apaixonado pela Arlena - respondeu Linda. - Mas no acho que ela quisesse 
mesmo mat-la. Penso que s desejava que ela morresse, e isso  uma coisa muito diferente, no ?
- Com certeza, so coisas totalmente diferentes - disse Poirot delicadamente.
Linda acenou. Uma estranha espcie de espasmo perpassou-lhe pelo rosto. Depois disse:
- E de qualquer modo, Mrs. Redfern nunca poderia fazer uma coisa dessas... matar algum. Ela no ... 
no  violenta, se me fao entender.
Poirot e Weston acenaram demonstrando ter entendido.
- Percebo perfeitamente o que pretende dizer, minha filha, e concordo consigo - disse Poirot. - Mrs. Redfern 
no  uma daquelas pessoas que,

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como  costume dizer-se, fervem em pouca gua. No  do tipo - Poirot recostou-se na cadeira, 
semicerrando os olhos e seleccionando cuidadosamente as palavras - de ser possuda Por um vendaval de 
emoes vendo a vida estreitar-se  sua frente... deparando com um rosto odiado... um pescoo branco 
detestado... sentindo as mos apertando-se com fora... desejosa de as fazer comprimir naquela carne...
Calou-se. Linda afastou-se sobressaltada da mesa.
- Posso ir-me embora? j acabaram? - disse numa voz trmula.
- Sim, sim,j terminmos - disse o coronel Weston. - Obrigado, Miss Linda.
Levantou-se para lhe abrir a porta. Depois regressou  mesa e acendeu um cigarro.
- Ufa! - exclamou. - No  muito agradvel o nosso trabalho. Posso afirmar que me senti incomodado ao 
fazer quela criana perguntas a respeito das relaes entre o pai e a madrasta. Mais ou menos a convid-
la a colocar uma corda  volta do pescoo do pai. De qualquer maneira, era necessrio. um homicdio  um 
homicdio. E ela  a pessoa que provavelmente melhor conhece a realidade. Ainda bem que no tinha nada 
a dizer-nos sob esse aspecto.
- Sim, concordo consigo - disse Poirot.
- A propsito Poirot - disse Weston com uma tossidela de embarao - parece-me que foi um pouco longe 
de mais, j perto do final, com aquela histria das mos a comprimir-se na carne! No  uma imagem que 
se ponha na cabea de uma criana...
Hercule Poirot olhou para Weston com um olhar srio, e disse:
- Pensa portanto que lhe pus uma imagem na cabea?
- Ento? No acha que  verdade?
Poirot abanou a cabea.
Weston decidiu mudar de conversa. - De qualquer modo, pouco conseguimos extrair-lhe com algum 
interesse para ns. A no ser um libi mais ou menos consistente para a Redfern.Se elas estiveram juntas 
desde as dez e meia at s doze menos um quarto, Christine Redfern fica ilibada. A esposa ciumenta 
deixa de ser suspeita.
- H razes melhores do que essa para se pr Mrs. Redfern de parte - disse Poirot. - Estou convencido de 
que lhe seria fsica e mentalmente

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impossvel estrangular qualquer pessoa.  uma mulher de sangue-frio, no emotiva, capaz de uma profunda 
dedicao, mas no de se deixar levar pela raiva. Alm disso, tem mos demasiado pequenas e delicadas.
- Concordo com M. Poirot - disse Colgate. - Ela est fora de causa. o Dr. Neasden diz que a mulher foi 
estrangulada por um possante par de mos.
- Bem - disse Weston -, acho que  melhor falarmos com os Redferns. Calculo que ele j esteja refeito do 
choque.
Patrick Redfern j se encontrava efectivamente recomposto. Estava plido e perturbado, e subitamente 
parecia mais jovem, mas a sua atitude era tranquila.
- o senhor chama-se Patrick Redfern, residente em Crossgates, Seldon, Princes Risborough?
- Sim.
- Desde quando conhecia Mrs. Marshall?
Patrick Redfern hesitou; depois disse: - Desde h trs meses.
Weston prosseguiu: - o capito Marshall disse-nos que se tinham conhecido casualmente numa festa. Est 
correcto?
- Sim, foi assim que nos conhecemos.
- o capito Marshall sugeriu que, at se terem encontrado aqui, o senhor e a esposa dele no se 
conheciam muito bem.  verdade, Mr. Redfern?
Uma vez mais Patrick Redfern hesitou por uns momentos.
- Bem... no  inteiramente correcto - disse depois. - Na realidade tnhamo-nos encontrado algumas vezes.
- Sem conhecimento do capito Marshall?
Redfern corou ligeiramente. - No sei se ele teria conhecimento ou no - disse.
Hercule Poirot interveio.
- E tambm sem conhecimento da sua esposa, Mr. Redfern? - murmurou.
- Creio ter referido  minha mulher que havia encontrado a famosa Arlena Stuart.

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Poirot insistiu: - Mas ela no sabia quantas vezes se tinham encontrado?
- Bem,  possvel que no.
- Tinha combinado com Mrs. Marshall encontrarem-se aqui? - perguntou Weston.
Redfern ficou em silncio por algum tempo. Depois, encolheu os ombros e disse:
- Bem, acho que ia acabar por se saber. No vale a pena estar a esgrimir convosco. Andava louco por 
aquela mulher... enfeitiado... perdido... tudo o que possam imaginar. Pediu-me que viesse ter com ela 
aqui. Hesitei um pouco, mas depois concordei. Estava... bem estava disposto a fazer tudo o que ela 
quisesse. Era esse o efeito que exercia sobre as pessoas.
- Creio que desenha um retrato perfeito dela. Arlena era a eterna Circe, sem tirar nem pr! - murmurou 
Poirot.
- Arlena transformava os homens em animais, l isso  verdade! disse Patrick Redfern com amargura. - 
Estou a ser franco convosco, meus senhores. No pretendo esconder nada. Para qu? Como j disse, 
estava enfeitiado por ela. Se gostava ou no de mim, no sei. Fingia gostar, mas creio que ela era uma 
dessas mulheres que se desinteressam de um homem depois de o ter dominado de corpo e alma. Ela 
sabia que me tinha debaixo do seu controlo. Esta manh, quando a encontrei ali morta, na praia, foi como 
se... como se alguma coisa me tivesse atingido! Fiquei entontecido... de rastos!
Poirot inclinou-se para diante. - E agora?
Patrick olhou-o de frente e declarou: - Disse-vos a verdade. Agora quero perguntar-vos isto: Haver 
necessidade de estes factos serem tornados pblicos? No me parece que possam ter qualquer coisa a ver 
com a morte dela. Se isto passa a ser do conhecimento pblico, quem ir sofrer mais  a minha mulher.
- continuou -, claro que acham que at agora no pensei muito nela, no ? Talvez seja verdade. Contudo, e 
apesar de poder soar como o pior dos hipcritas, a verdade  que me preocupo muito com a minha 
mulher... muito. A outra - encolheu os ombros - foi uma loucura, o gnero de coisa imbecil que os homens 
s vezes fazem. Mas Christine  diferente,  autntica. Sei que a tenho tratado mal, mas no ntimo sempre 
soube que s ela me

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interessa. - Fez uma pausa, suspirou, e depois disse, de uma forma algo pattica: - Quem me dera que 
acreditassem nisso.
Hercule Poirot, inclinou-se para a frente, e disse: - Ah, mas eu acredito. Sim, sim acredito!
Patrick Redfern olhou para ele, reconhecido. - Obrigado.
o coronel Weston clareou a garganta. - Pode ter a certeza, Mr. Redfern. de que no pretendemos 
interessar-nos por irrelevncias. Se o seu entusiasmo por Mrs. Marshall no tem nada a ver com o 
assassinato, ento no adianta traz-lo a pblico. Contudo, o que o senhor parece no compreender  que 
esta... intimidade Pode reflectir-se directamente nocaso. Poder constituir, como compreende, um motivo 
para o homicdio.
- um motivo? - exclamou Redfern.
- Sim, Mr. Redfern, um motivo! - ripostou Weston. - Talvez o capito Marshall no soubesse da relao. 
Suponha que, repentinamente, descobria.
- Santo Deus - exclamou Redfern. - Quer dizer que ele soube do caso... e matou-a?
- Nunca lhe ocorreu essa hiptese? - perguntou o chefe da polcia com secura.
Redfern abanou a cabea, e disse: - No... Tem uma certa graa, mas nunca pensei nisso. Sabe, Marshall 
 um sujeito to calmo... Eu... oh, no me parece provvel.
- Qual era a atitude de Mrs. Marshall em relao ao marido em tudo isto? - perguntou Weston. - Ter-se-ia 
mostrado... bem, pouco  vontade, receando que o assunto chegasse ao conhecimento dele? Ou manteve-
se sempre indiferente?
Redfern respondeu com lentido: - Ela parecia... um pouco enervada. No queria que ele suspeitasse de 
nada.
- Parecia ter receio dele?
- Receio? No, no diria tanto.
- Desculpe-me, Mr. Redfern - murmurou Poirot. - Chegaram alguma vez a encarara hiptese de um divrcio?
Patrick Redfern sacudiu a cabea com energia. - Oh, no, nunca cheguei a esse ponto. Tinha de pensar na 
Christine, sabe. E a Arlena, estou certo disso, nunca pensou numa coisa dessas. Estava perfeitamente 
satisfeita com o seu casamento com Marshall. Ele ... bem, um tipo de certa

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importncia... - Sorriu repentinamente. -  bastante rico. Ela nunca me considerou sequer como um 
possvel marido. No, eu era apenas um pobre pateta, de uma longa srie deles, apenas uma coisa para 
passar tempo. Eu sempre soube isso, e mesmo assim, estranhamente, esse facto nunca conseguiu alterar 
o que sentia por ela...
Calou-se, imerso nos seus pensamentos.
Weston f-lo regressar  realidade. - Pois bem, Mr. Redfern, tinha marcado alguma coisa para essa manh 
com Mrs. Marshall?
Patrick Redfern parecia ligeiramente intrigado.
- Nada de especial - disse. - Normalmente encontrvamo-nos todas as manhs na praia. Costumvamos 
pedalar nas gaivotas.
- Ficou surpreendido por no a ter encontrado esta manh?
- Sim, sim. Muito surpreendido. No compreendia nada do que poderia estar a passar-se.
- o que  que pensou?
- Bem, nem sabia o que pensar. Quero dizer, fiquei sempre  espera de que ela aparecesse.
- Se ela poracaso tivesse marcado algum encontro com algum noutro local, faz alguma ideia de com quem 
poderia ter sido?
Patrick Redfern limitou-se a olhar para ele, abanando a cabea.
- Quando tinha um rendez-vous com Mrs. Marshall, onde se encontravam?
- Bem, por vezes encontrvamo-nos  tarde na Enseada da Gaivota. Sabem,  que o sol no bate na 
enseada da parte da tarde, pelo que no  muito frequentada. Fomos l algumas vezes.
- Nunca na outra enseada, a do Duende?
- No, porque a Enseada do Duende fica voltada para oeste e as pessoas passam muito por l da parte da 
tarde, nos botes a remos ou nas gaivotas. Nunca experimentmos encontrar-nos durante a manh. Daria 
muito nas vistas.  tarde muitos dos hspedes fazem sesta e nunca sabem por onde os outros andam.
Weston fez um aceno, e Redfern prosseguiu: - Depois do jantar, claro, quando o tempo estava agradvel, 
costumvamos ir dar uma volta por vrios locais da ilha.

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- Pois claro! - murmurou Poirot, e Patrick Redfern lanou-lhe um olhar de relance.
- Nesse caso no pode dar-nos nenhuma ajuda quanto ao motivo que ter levado Mrs. Marshall a visitar a 
Enseada do Duende esta manh? - perguntou Weston.
Redfern abanou a cabea e depois disse, com uma voz que parecia genuinamente intrigada: - No fao a 
menor ideia! No parece da Arlena.
Weston insistiu: - Teria ela alguns amigos hospedados na regio?
- Que eu saiba, no. Alis, tenho a certeza de que no tinha.
- Oua, Mr. Redfern, peo-lhe que pense com muito cuidado. o senhor tinha conhecido Mrs. Marshall em 
Londres. Deve relacionar-se com alguns membros dos crculos em que ela se movia. Conhecer algum 
que pudesse ter-lhe tido rancor? Algum, por exemplo, que o senhor tivesse suplantado nos afectos de 
Arlena?
Patrick Redfern pensou por alguns instantes. Depois abanou a cabea.
- Com franqueza - disse -, no consigo recordar-me de ningum.
o coronel Weston tamborilou com os dedos no tampo da secretria. Bem - disse finalmente -, parece que  
tudo. Aparentemente, restam-nos trs possibilidades: a de algum assassino desconhecido, algum 
psicopata que por acaso andasse por esta regio... e isso  bem difcil de acreditar...
- E contudo  a explicao mais aceitvel - interrompeu-o Redfern.
Weston abanou a cabea: - No estamos perante um daqueles casos do bosque isolado. Esta enseada  
dificilmente acessvel. o homem teria de chegar atravs do ponto, passando pelo hotel e atravessando a 
ilha para descer pelas escadas de ferro, ou ento teria de vir por barco. Qualquer destes trajectos  
altamente improvvel para um homicdio casual.
- Referiu-se a trs possibilidades... - disse Patrick Redfern.
- Hum... sim - concordou o chefe da polcia. - Queria dizer que existem mais duas pessoas nesta ilha que 
tinham motivo para a matar. o marido, por um lado, e tambm a sua esposa, Mr. Redfern.
Redfern olhou para ele, aparentemente estupefacto.
- A minha mulher? - exclamou. - A Christine? Est a sugerir que a Christine teve alguma coisa a ver com 
isto?
Ps-se em p e prosseguiu, gaguejando um pouco com a sua pressa

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incoerente de dizer o que pretendia: - o senhor est louco... completamente louco! A Christine? Isso  
impossvel. D vontade de rir!
Weston insistiu: - Seja como for, Mr. Redfern, o cime  um motivo muito forte. As mulheres ciumentas 
podem facilmente perder o controlo de si mesmas.
- Christine nunca - disse Redfern gravemente. - Ela... oh, ela no  nada desse gnero. Sentia-se infeliz, 
sim. Mas no  do gnero de pessoa capaz de... No, ela no  uma pessoa violenta.
Hercule Poirot acenou, com uma expresso grave. Violncia. A mesma palavra que Linda Marshall tinha 
usado. Como acontecera antes, Poirot era da mesma opinio.
- Alm disso - prosseguiu Redfern, confiante -, seria um absurdo. A Arlena tinha o dobro da fora da 
Christine. Duvido que a Christine conseguisse estrangular um gatinho, quanto mais uma criatura robusta 
como a Arlena. E por outro lado Christine nunca teria sido capaz de descer a escada de ferro at  praia. 
No suporta alturas. E... oh, toda essa teoria  impensvel.
o coronel Weston coou uma orelha, pensativo.
- Bem - disse -, visto por esse prisma no parece realmente muito provvel, concordo. Mas o motivo  a 
primeira coisa que temos de procurar. E acrescentou: - o motivo e a oportunidade.
Depois de Redfern sair da sala, o chefe da polcia observou com um ligeiro sorriso: - No me pareceu 
necessrio contar ao sujeito que a mulher tem um libi. Queria ver o que ele tinha a dizer a respeito 
daquela ideia. Ficou um bocado agitado, no vos parece?
- Os argumentos que apresentou so to fortes como qualquer libi - murmurou Hercule Poirot.
- Pois so. Oh, no foi ela a assassina! No poderia ter feito aquilo; era fisicamente impossvel, conforme o 
senhor disse. Marshall podia, t-lo feito... Mas aparentemente tambm no foi ele.
o inspector Colgate tossiu; a seguir disse: - Se me d licena, sir, tenho

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estado a pensar naquele libi. Se ele tivesse planeado isto, era possvel, como sabe, que ele preparasse as 
cartas antecipadamente.
- Ora a est uma boa ideia - disse Weston. - Temos de verificar... Parou de falar ao ver chegar Christine 
Redfern.
Apresentava-se, como habitualmente, calma e meticulosa. Vestia mini saia branca de tnis e uma 
camisola azul-clara. Este traje acentuava a sua beleza, ainda que um tanto anmica. Contudo, notou 
Hercule Poirot, o seu rosto nada tinha de apatetado nem de frgil. Mostrava firmeza, coragem e bom senso. 
Poirot fez-lhe um aceno de apreciao.
Entretanto, o coronel pensava: Umajovem agradvel. um pouco desenxabida, talvez. Demasiado simptica 
para aquele marido, mulherengo e imbecil. Bem, o rapaz ajuda.  novo.  possvel que tenha aprendido a 
lio.
- Sente-se, Mrs. Redfern - disse. - Temos de cumprir uma certa rotina, como sabe, perguntando a toda a 
gente os seus movimentos no decorrer desta manh. S para constar nos nossos relatrios.
Christine Redfern anuiu.
- Compreendo perfeitamente - disse na suavoz calma e precisa. Compreendo perfeitamente. Onde quer que 
eu comece?
- o mais cedo possvel, madame - disse Poirot. - o que fez quando se levantou esta manh?
- Vejamos - disse Christine. - Ao descer para tomar o pequeno-almoo, dirigi-me ao quarto de Linda 
Marshall para combinarmos uma ida esta manh  Enseada da Gaivota. Combinmos encontrarmo-nos no 
trio s dez e meia.
- No foi nadar antes do pequeno-almoo, madame? - perguntou Poirot.
- No, raramente o fao. - Sorriu. - Gosto da gua quente. Sou bastante friorenta.
- Mas o seu marido costuma ir?
- Oh, sim. Quase sempre.
- E Mrs. Marshall tambm?
Notou-se uma modificao no tom de voz de Christine, que se tornou fria e quase sarcstica: - Oh no, 
Mrs. Marshall nunca aparecia antes do meio da manh.
Aparentemente confuso, Hercule Poirot, disse: - Perdo, madame, por

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ter interrompido. Estava a dizer que tinha ido ao quarto de Miss Linda Marshall. Que horas seriam?
- Deixe-me pensar... oito e meia... no, um pouco mais tarde.
- E Miss Marshall j estava a p?
- Oh, sim, j tinha sado.
- j tinha sado?
- Sim, ela disse que tinha ido  praia tomar um banho.
Notou-se na voz de Christine um toque muito ligeiro de hesitao que intrigou Hercule Poirot.
Weston insistiu: - E depois?
- Depois desci para o pequeno-almoo.
- E a seguir ao pequeno-almoo?
- Subi ao meu quarto, fui buscar o estojo de desenho e o bloco de papel, e samos.
- A senhora e Miss Linda Marshall?
- Sim.
- Que horas eram ento?
- Acho que deveria passar um pouco das dez e meia.
- E o que fizeram?
- Seguimos para a Enseada da Gaivota. Sabe onde , aquela enseada que fica do lado leste da ilha. 
Acomodmo-nos ali. Eu fiz um desenho, e a Linda deitou-se ao sol.
- A que horas saram da enseada?
- Faltava um quarto de hora para o meio-dia. Tinha combinado um jogo de tnis ao meio-dia e ainda tinha de 
mudar de roupa.
- Tinha o seu relgio consigo?
- No, por acaso no tinha. Perguntei as horas  Linda.
- Estou a ver. E depois?
- Arrumei as minhas coisas e voltei ao hotel.
- E quanto a mademoiselle Linda?
- A Linda? Oh, a Linda foi nadar.
- Na enseada sentaram-se muito distantes do mar?
- Bem, ficmos logo a seguir  linha da preia-mar. Quase por baixo da falsia, para podermos ter um pouco 
de sombra para mim e de sol para Linda.

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- Antes de deixar a praia, chegou a ver Linda entrar na gua? - perguntou Poirot.
Christine franziu a testa tentando recordar-se.
- Vejamos - disse. - Ela desceu a praia a correr... eu fechei o meu estojo... Sim, ouvi-a chapinhar na gua 
ao comear a subir o carreiro da flsia.
- Est certa disso, madame? De que ela entrou mesmo na gua?
- Estou, sim. - Olhou-o, surpreendida.
o coronel Weston estava tambm a olhar para ele. Depois disse: - Queira continuar, Mrs. Redfern.
- Cheguei ao hotel, mudei de roupa e dirigi-me ao court de tnis onde os outros j esperavam por mim.
- Quem eram os outros?
- o capito Marshall, Mr. Gardener e Miss Darriley. Jogmos dois sets. amos comear o terceiro quando 
chegou a notcia a respeito... a respeito de Mrs. Marshall.
Hercule Poirot inclinou-se para a frente, e perguntou: - Em que pensou, madame, quando ouviu a notcia?
- Em que pensei? - o rosto dela demonstrava que no tinha gostado da pergunta.
- Sim.
Christine Redfern respondeu lentamente: - Que era... uma coisa horrvel.
- Ah, sim, o seu temperamento delicado sentia-se revoltado. Mas o que significaria para si, pessoalmente, 
o que acontecera?
Ela lanou-lhe um olhar rpido, suplicante. Poirot reagiu quele olhar, e disse num tom de voz casual:
- Estou a fazer-lhe esta pergunta, madame, porque sei que  uma pessoa inteligente e cheia de bom 
senso. Sem dvida que, durante a sua estadia, formou uma opinio a respeito de Mrs. Marshall e do tipo de 
mulher que ela era.
Christine respondeu cautelosamente: - Creio que qualquer pessoa faz mais ou menos isso quando se 
hospeda num hotel - respondeu Christine cautelosamente.
- Certamente,  uma coisa completamente natural. Portanto pergunto-lhe, madame, sentiu-se realmente 
surpreendida pela maneira como ela morreu?
- Creio que estou a perceber o alcance da sua pergunta - comentou

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Christine, lentamente. - No, com efeito talvez no me tenha surpreendido.
Chocada, sim. Mas ela era o gnero de mulher...
Poirot concluiu a frase por ela.
- Ela era o gnero de mulher a quem uma coisa destas poderia acontecer... Sim, madame, essa  a frase 
mais verdadeira e mais significativa que j se pronunciou hoje nesta sala. Colocando agora de parte todas 
as suas... hum... emoes pessoais, o que pensava realmente da falecida Mrs. Marshall?
Christine Redfern replicou calmamente: - Acha que vale agora a pena enveredarmos por esse caminho?
- Acho que pode valer, sim.
- Bem, que posso eu dizer? - o seu rosto plido enchera-se repentinamente de cor. A atitude cuidadosa 
descontraiu-se. Por um curto espao de tempo surgiu  superfcie uma mulher sem quaisquer artifcios. - 
Ela era do gnero que, na minha opinio,  absolutamente intil! No fazia nada para justificar a sua 
existncia. No tinha nada na cabea nem inteligncia. S pensava em homens, roupas e adulao. Uma 
intil, uma parasita! Talvez fosse atraente para os homens... oh, claro que era! E vivia exclusivamente para 
isso. Portanto no me surpreendeu que acabasse de um modo to doloroso. Era o tipo de mulher que se 
envolveria com tudo o que fosse srdido... chantagem, cime, violncia, todo o gnero de emoes 
bsicas. Parecia atrair o que havia de pior nas pessoas.
Calou-se, ligeiramente ofegante. o seu lbio superior, um pouco curto, levantou-se numa expresso de 
desprezo. o coronel Weston pensou que dificilmente poderia encontrar algum que mais contrastasse com 
Arlena Marshall do que Christine Redfern. Ocorreu-lhe tambm que, para quem fosse casado com Christine 
Redfern, o dia-a-dia seria to inspido que as Arlena Stuarts deste mundo teriam indubitavelmente um poder 
de atraco especial.
E depois, na sequncia destes pensamentos, uma nica palavra, de entre todas as que Christine tinha dito, 
prendeu a sua ateno com uma intensidade especial. Inclinou-se para diante e disse:
- Mrs. Redfern, explique-me uma coisa. Ao falar a respeito dela, porque se teria referido a chantagem?

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CAPTULO SETE

Christine fitou Weston, aparentemente sem perceber o que ele queria dizer. Respondeu quase 
automaticamente:
- Possivelmente... porque ela estava a ser alvo de chantagem. Era o gnero de pessoa que se arriscaria a 
isso.
- Mas... sabe realmente se ela estava a ser vtima de chantagem? - perguntou o coronel Weston.
Uma tnue cor subiu s faces de Christine.
- Por acaso at sei - disse embaraada. - Escutei... escutei acidentalmente uma coisa.
- Quer explicar, Mrs. Redfern?
Corando ainda mais, Christine Redfern contou:
- No era... no era inteno minha escutar. Foi um acidente. Foi h duas... no, h trs noites. Estvamos 
a jogar britge. - Virou-se para Poirot. - Recorda-se? o meu marido e eu, M. Poirot e Miss Darriley. Eu era o 
morto. Estava muito abafado na sala de jogo, por isso sa , pela porta envidraada para apanhar um pouco 
de ar fresco. Dirigi-me para os lados da praia e subitamente escutei vozes. Uma delas, era a de Arlena 
Marshall.reconheci-a logo; estava a dizer: No adianta estares a pressionar-me. No posso conseguir mais 
dinheiro agora. o meu marido pode suspeitar de alguma coisa. E depois uma voz de homem disse: No 
aceito mais desculpas. tens de passar a massa para c. E a seguir Arlena Marshall disse: Bruto 
chantagista!. E o homem disse: Bruto ou no, tens de pagar, minha menina.
Christine fez uma pausa.
- Quando regressava ao hotel e um minuto depois Arlena Marshall passou por mim, apressada. Parecia... 
bem, muito transtornada.
- E o homem? Sabe quem seria? - perguntou Weston.

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Christine Redfern abanou a cabea; depois disse: - Falava em voz baixa, eu mal o ouvia.
- No lhe fez lembrar a voz de nenhum dos homens que conhece daqui?
Ela pensou um pouco, e uma vez mais abanou a cabea.
- No, no sei quem seria. Era uma voz roufenha e grave. Poderia... oh, poderia ter sido qualquer pessoa.
- Obrigado, Mrs. Redfern - agradeceu o coronel Weston.
Quando a porta se fechou atrs de Christine Redfern, o inspector Colgate disse: - Agora j estamos a 
chegar a algum lado!
- Acha? - perguntou Weston.
- Bem,  sugestivo, no pode negar. Algum neste hotel andava a fazer chantagem com a senhora.
- Mas no  o perverso chantagista quem jaz morto - murmurou Poirot. -  a vtima.
- Isso  uma contrariedade, concordo - disse o inspector. - Os chantagistas no costumam dar cabo das 
suas vtimas. Contudo, isto sempre nos sugere uma razo para o invulgar comportamento de Mrs. Marshall 
esta manh. Tinha um encontro com este sujeito que andava a chantage-la, e no pretendia que o marido 
ou Redfern soubessem do caso.
- Sem dvida que esclarece esse ponto - concordou Poirot. o inspector Colgate prosseguiu:
- E pensem no local escolhido. o stio ideal para o efeito. A senhora parte na gaivota, uma actividade natural 
que ela repete todos os dias. Dirige-se  Enseada do Duende, onde ningum vai da parte da manh, e que 
constituir o local apropriado para um encontro.
- Com efeito - disse Poirot. - Tambm eu me senti intrigado por esse pormenor. , como diz, o local 
apropriado para um rendez-vous.  um stio deserto, s acessvel por terra atravs de uma escada vertical 
em ferro que no  para qualquer um, bien entendu. Alm disso, a maior parte da praia  invisvel para quem 
est no cimo da falsia, por esta cobrir parcialmente a

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enseada. E tem uma outra vantagem. Foi Mr. Redfern quem ma referiu, um dia. Existe l uma caverna, cuja 
entrada no  fcil de encontrar, mas onde algum poderia esperar sem ser visto.
- Pois claro! - disse Weston. - A caverna da Enseada do Duende... recordo-me de ter ouvido falar dela.
- No ouo falar disso h anos - interveio o inspector Colgate. Talvez seja uma boa ideia irmos inspeccion-
la. Nunca se sabe: talvez encontremos alguns indcios.
-  capaz de ter razo, Colgate - disse Weston. - j temos a soluo para a primeira parte do enigma. Por 
que foi Mrs. Marshall  Enseada do Duende? Mas agora ainda nos falta a segunda parte da soluo: Com 
quem foi encontrar-se? Presumivelmente algum alojado aqui no hotel. Nenhum dos hspedes se adapta  
descrio de um amante... mas o caso j  diferente tratando-se de um chantagista.
Puxou o livro de registo para si.
- Excluindo-se os criados de mesa, o pessoal da cozinha, etc., que no consideramos provveis, temos os 
seguintes: o americano, Gardener; o major Barry; Mr. Horace Blatt, e o reverendo Stephen Lane.
o inspector Colgate interveio: - Podemos encurtar a lista um pouco mais, sir. Quase poderemos excluir o 
americano, acho eu. Esteve na praia durante toda a manh. No  verdade, M. Poirot?
- Esteve ausente durante um curto perodo de tempo quando foi buscar uma meada de l a mando da 
mulher - respondeu Poirot.
- Bem, isso no conta - disse Colgate. Weston prosseguiu: - E quanto aos outros trs?
- o major Barry saiu s dez da manh, regressando s treze e trinta. M r. Lane saiu ainda mais cedo, tendo 
tomado o pequeno-almoo s oito. Disse que ia fazer uma caminhada a p, Mr. Blatt saiu no seu veleiro s 
nove e meia. como faz quase todos os dias. Nenhum destes regressou ainda.
- No veleiro, hein? - comentou Weston, com uma expresso pensativa.
A voz do inspector Colgate dava indcio de concordncia. - Talvez se ajuste bem, sir - declarou.
- Bem - props Weston -, conversaremos com este tal major; vejamos, quem mais haver? Rosamund 
Darriley. E depois temos a Brewster, que

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encontrou o cadver quando estava acompanhada por Redfern. Que tal  ela, Colgate?
- Oh, parece uma pessoa sensata, sir. No  nada tola.
- No deu qualquer opinio a respeito do assassinato?
o inspector abanou a cabea. - No me parece que ela tenha mais alguma coisa para nos dizer, mas 
precisamos de ter a certeza. Depois h ainda os americanos.
o coronel Weston anuiu. -  melhor virem todos ao mesmo tempo, para ficarmos despachados daqui. 
Nunca se sabe, pode ser que saibamos alguma coisa. Pelo menos a respeito da histria da chantagem.
Mr. e Mrs. Gardener apresentaram-se juntos perante as autoridades. Mrs. Gardener explicou 
imediatamente:
- Espero que compreenda a situao, coronel Weston ( esse o seu nome, no ?). - Elucidada sobre esse 
pormenor, prosseguiu: - Isto foi um choque terrvel para mim, e Mr. Gardener tem sempre muito, muito 
cuidado com a minha sade...
-  que Mrs. Gardener  muito sensvel - interrompeu Mr. Gardener.
- _e ele disse-me: Sabes, querida, acho que  melhor acompanhar-te. No  que no tenhamos a mxima 
admirao pelos mtodos da polcia britnica, porque temos. Fui informada de que o procedimento da 
polcia britnica  dos mais correctos e delicados, e nunca duvidei disso, e at aconteceu que uma vez 
perdi uma pulseira no Savoy hotel, e ningum podia ser mais atencioso e simptico do que aquele jovem 
agente que veio falar comigo por causa disso, e, evidentemente, na realidade no tinha perdido a pulseira, 
apenas a tinha posto no stio errado;  o resultado de andarmos sempre a correr de um lado para o outro, 
acabamos por esquecer onde guardamos as coisas... - Mrs. Gardener fez uma pausa, respirou fundo e 
recomeou. -  o que eu digo, e sei que Mr. Gardener concorda comigo, e que temos todo o gosto em 
fazer o que nos for possvel para auxiliar a polcia britnica. Portanto, faa o favor e pergunte-me o que 
quiser saber...

99

o coronel Weston abriu a boca para corresponder ao convite, mas teve de adiar, pois Mrs. Gardener 
prosseguia:
- Foi o que eu disse, no foi, Odell? E  verdade, no ?
- Sim, querida - respondeu Mr. Gardener.
o coronel Weston interveio, apressado: - Tenho conhecimento, Mrs. Gardener, de que a senhora e o seu 
marido estiveram na praia durante toda a manh, no  verdade?
Por esta vez, foi Mr. Gardener quem respondeu primeiro: - Efectivamente.
- Foi isso, exactamente - disse Mrs. Gardener. - E foi uma linda e tranquila manh, alis como as outras, 
s que ainda mais bela, e ns sem suspeitarmos sequer do que se estava a passar do outro lado da ilha, 
naquela praia solitria.
- Chegou a ver hoje Mrs. Marshall?
- No vimos, no. E at disse ao Odell: Onde poder Mrs. Marshall ter iido esta manh?. Foi o que eu 
disse. E primeiro veio o marido  procura dela, e depois aquele jovem simptico, Mr. Redfern, e que 
impaciente estava, ali sentado na praia, muito carrancudo. E eu disse para comigo: Se ele tem uma 
esposa to simptica, para que h-de andar a correr atrs daquela horrvel mulher?. Porque era isso 
mesmo o que eu pensava dela. Sempre pensei o mesmo, no foi, Odell?
- Sim, querida.
- No sou capaz de imaginar o que ter levado aquele simptico capito Marshall a casar-se com uma 
mulher destas, e ainda por cima com aquela filha to simptica ainda a crescer, altura em que  to 
importante que as raparigas tenham as influncias certas. Mrs. Marshall no era de forma alguma a pessoa 
adequada, pois no tinha educao nenhuma, e at talvez possusse uma natureza animal. Se o capito 
Marshall fosse pessoa de bon senso ter-se-ia casado com Miss Darriley, que  uma mulher encantadora e 
muito distinta. Tenho de confessar que admiro a coragem com que lutou e construiu uma empresa de 
primeira classe.  preciso ser-se inteligente para se conseguir isso, e basta olharmos para Rosamund 
Darriley para vermos que inteligncia no lhe falta. Seria capaz de planear e executar tudo o que quisesse. 
Tenho uma enorme admirao por aquela mulher. E no outro dia disse

100

a Mr. Gardener que qualquer pessoa pode ver que ela est apaixonada pelo capito Marshall; louca por ele, 
foi o que eu disse, no foi, Odell?
- Sim, querida.
- Parece que se conheceram na infncia, e agora, quem sabe, talvez tudo acabe por sair certo, pois aquela 
mulher j no lhes atrapalha o caminho. No sou uma mulher de vistas curtas, coronel Weston, e no  
que desaprove o ambiente teatral (na verdade, algumas das minhas melhores amigas so actrizes), mas 
sempre disse a Mr. Gardener que aquela mulher possua qualquer coisa de Perverso. E, como vem, tinha 
razo.
Fez uma pausa triunfal.
Os lbios de Hercule Poirot tremeram num ligeiro sorriso. Por alguns instantes, os seus olhos fixaram-se 
nos astutos olhos cinzentos de Mr. Gardener.
- Bem, Mrs. Gardener, muito obrigado - disse o coronel Weston, quase em desespero. - Suponho que 
nenhum de vs ter reparado em qualquer coisa que possa ter a ver com este caso?
- Pois no, creio que no. - M r. Gardener falava num tom de voz lento e arrastado. - Mrs. Marshall andava 
quase sempre na companhia do jovem Redfern... mas qualquer pessoa poder dizer-lhe isso.
- E quanto ao marido dela? Acha que ele se importava?
- o capito Marshall  um homem muito reservado - respondeu Mr. Gardener com prudncia.
Mrs. Gardener confirmou isto, dizendo: - Sim, sim, ele  um autntico sbdito de Sua Majestade!
Na fisionomia ligeiramente apoplctica do major Harry, vrias emoes pareciam estar em disputa. Tentava 
parecer adequadamente escandalizado, Mas no conseguia disfarar uma espcie de satisfao 
envergonhada.
Com a sua voz rouca e ligeiramente ofegante, dizia: - Tenho muito gosto em vos auxiliar no que puder. 
Claro, no sei nada a respeito daquilo, absolutamente nada. Nem sequer conheo as pessoas. Mas j vivi 
alguma coisa, sabem. Estive bastante tempo no Oriente, sabem, e posso afirmar que,

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depois de ter estado num posto fronteirio indiano, o que no conheo a respeito da natureza humana nem 
vale a pena conhecer.
Fez uma pausa, respirou fundo e recomeou.
- Na verdade, este caso recorda-me um outro ocorrido em Simla. um sujeito chamado Robinson, ou seria 
Falconer? Seja como for, pertencia ao regimento dos East Wilts, ou seria ao dos North Surreys? No me 
recordo bem, e de qualquer forma no interessa. Um tipo sossegado, sabem, gostava de ler, dir-se-ia que 
no fazia mal a uma mosca. Aproximou-se da mulher certa noite, no bungalw onde residiam, e apertou-lhe 
o gasganete. Ela tinha andado metida com um outro tipo, e o marido soube do caso. Quase a despachava 
desta para melhor! Esteve quase a finar-se. Surpreendeu-nos a todos! Ningum achava que ele fosse capaz 
de uma coisa daquelas.
- E encontra a alguma analogia com a morte de Mrs. Marshall? murmurou Hercule Poirot.
- Bem, o que eu queria dizer... estrangulada, sabe. A mesma ideia. o tipo de repente perde a cabea!
- Pensa que foi isso o que aconteceu ao capito Marshall? - perguntou Poirot.
- Oua l, eu nunca disse isso! - o rosto do major Barry encarniou-se ainda mais. - Nunca disse nada a 
respeito do Marshall.  um sujeito perfeitamente correcto. Nunca diria nada contra ele.
- Ah, pardon, mas afinal referiu-se s reaces naturais de um marido - murmurou Poirot.
- Bem, o que eu queria dizer - afirmou o major Barry -, era que a mulher era das vivaas. H? Tinha o jovem 
Redfern preso por uma trela. E, certamente teria havido outros antes dele. Mas o que  engraado, sabem, 
 que os maridos so bem estpidos. Assombroso. Nunca deixa de me surpreender. Vem um tipo que 
est embeiado pela mulher mas no reparam que ela esttambm embeiada pelo tipo! Lembro-me de um 
caso desses m Poona. Uma mulher bem jeitosa...
o coronel mexeu-se na cadeira, um pouco impaciente.
- Pois, pois, major Barry - disse -, mas por agora pretendemos apenas estabelecer factos. Saber 
pessoalmente de algum facto que possa auxiliar-nos neste caso?
- Bem, Weston, para falar com franqueza no posso dizer que sei. Vi

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ao jovem Redfern uma tarde na Enseada da Gaivota - neste ponto piscou um olho e soltou um riso abafado 
- e era um lindo espectculo. Mas no  isso o que pretendem ouvir. Ah, ah!
- Viu Mrs. Marshall esta manh?
- No vi ningum esta manh. Fui at St. Loo. Que sorte a minha. Isto aqui  um stio onde no acontece 
nada durante meses, e, quando acontece, no estou c!
A voz do major traa um lamento mrbido.
- Disse que foi a St. Loo? - insistiu o coronel Weston.
- Sim. Precisava de telefonar. Aqui no existe telefone e nos correios da Baa de Leathercombe no se 
pode falar  vontade.
- Os seus telefonemas eram de natureza privada?
o major voltou a piscar um olho alegremente. - Bem, eram, e no eram. Queria entrar em contacto com um 
amigo meu para apostar uns dinheiritos num cavalo. Pena foi no ter conseguido apanh-lo.
- Donde telefonou?
- De uma cabina nos correios de St. Loo. Depois, no regresso, perdi-me por causa daquelas malditas 
estradas secundrias, muito tortuosas. Devo ter perdido ali mais de uma hora. S cheguei h cerca de 
meia hora.
- Falou com algum, ou encontrou algum em St. Loo? - perguntou o coronel Weston.
o major Barry soltou uma risada: - Quer que eu prove o meu libi? No me recordo de nada que possa ser 
til. Vi umas cinquenta mil pessoas em St. Loo, mas isso no quer dizer que alguma delas se lembre de 
mim.
- Temos de perguntar estas coisas, como sabe - comentou o chefe da polcia.
- Tem toda a razo. Chame-me sempre que quiser. Tenho muito gosto em vos ajudar. Era uma mulher 
muito atraente, a falecida. Gostava de poder ajud-lo a apanhar o sujeito que fez aquilo. o Crime da Praia 
Solitria. Aposto que  o que os jornais vo chamar a isto. Faz-me recordar daquela vez...
Foi o inspector Colgate quem cortou pela raiz esta nova reminiscncia, conduzindo at  porta o loquaz 
major.
Ao regressar  mesa, comentou: - Ser difcil confirmar qualquer coisa em St. Loo. Estamos em plena 
poca de veraneio.
- Pois, podemos risc-lo da lista - disse o chefe da polcia. - No creio

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sequer que esteja implicado. So s dzias os chatos como ele que andam por a. Lembro-me de um ou 
dois dos meus tempos da tropa. Mesmo assim...  uma possibilidade. Deixo isso ao seu critrio, Colgate. 
Confirme a hora a que ele foi buscar o carro  garagem, a gasolina que gastou, tudo isso. Seria possvel ter 
estacionado o carro em qualquer stio isolado, regressando a p para se dirigir  enseada. Mas no me 
parece provvel. Correria um forte risco de ser visto.
Colgate anuiu. - De facto hoje h aqui muitos autocarros - disse. - o dia est ptimo. Comearam a chegar 
perto das onze e meia. A mar-alta foi s sete. A mar baixa deve ter sido perto da uma da tarde. Deveria 
haver muita gente espalhada pelo areal e pelo ponto.
- Sim - disse Weston -, mas ele teria de vir do ponto passando pelo hotel.
- Mas no exactamente pela frente do hotel. Podia ter-se desviado para o carreiro que passa pelo cimo da 
ilha.
- No estou a afirmar que ele no poderia faz-lo sem ser visto - continuou Weston. - Praticamente todos 
os hspedes do hotel estavam na praia, excepto Mrs. Redfern e a mida Marshall, que estavam na 
Enseada da Gaivota; a parte inicial desse carreiro s poderia ser observada de alguns quartos do hotel, e 
h poucas probabilidades de algum estar  janela precisamente naquele momento. Na realidade  at 
possvel chegar ao hotel, atravessar o trio e voltar a sair sem que ningum d por isso. Mas o que 
pretendo dizer  que ele no poderia contar que ningum o visse.
- Poderia ter dado avolta  ilha por barco at  enseada - disse Colgate.
Weston anuiu. - Seria mais lgico - disse. - Se ele tivesse um bote  espera numa das enseadas prximas, 
podia deixar o carro, meter-se no bote e remar ou velejar at  Enseada do Duende, cometer o assassnio, 
regressar no bote,voltar ao carro e apresentar-se com esta histria da ida a St. Loo e de se ter perdido no 
caminho... uma histria que ele sabia ser muito difcil de refutar.
- Tem razo, sir.
- Bem, deixo isso ao seu critrio - disse o chefe da polcia. - Investigue as redondezas. Sabe o que h-de 
fazer.  melhor conversarmos agora con Miss Brewster.

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Emily Brewster no foi capaz de acrescentar nada de interesse ao que j se sabia.
Depois de ter repetido a sua histria, Weston perguntou-lhe: - E no tem conhecimento de mais nada que 
possa de alguma forma ajudar-nos?
Emily Brewster replicou prontamente: - Receio que no. Foi um caso lamentvel. Espero contudo que o 
resolvam depressa.
- Tambm  essa a minha esperana - disse Weston.
Emily Brewster ripostou secamente. - No deve ser muito difcil.
- Que pretende dizer com isso, Miss Brewster?
- Desculpem. No estava a tentar ensinar-vos o vosso trabalho. S queria dizer que, com uma mulher 
daquele calibre, no dever ser muito difcil.
-  essa a sua opinio? - murmurou Hercule Poirot.
Emily Brewster respondeu com secura: - Evidentemente. De mortuis nil nisi bonum e tudo isso, mas no 
podemos esquecer-nos dos factos. Esta mulher era m rs da ponta dos ps  ponta dos cabelos. S 
tero de investigar um pouco o seu passado repugnante.
- No gostava dela? - perguntou Hercule Poirot delicadamente.
- Sei demasiadas coisas a seu respeito. - Em resposta aos olhares curiosos, prosseguiu: - o meu primo 
casou-se com uma das Erskines. Provavelmente j ouviram dizer que aquela mulher convenceu o velho Sir 
Robert, quando este j estava senil, a deixar-lhe a maior parte da sua fortuna, em detrimento da famlia.
o coronel Weston perguntou: - E a famlia... hum... no gostou? - disse o coronel Weston.
- Naturalmente. A associao entre ambos tinha sido escandalosa, e ainda por cima deixar a Arlena uma 
fortuna de mais de cinquenta mil libras demonstra bem o gnero de mulher que ela era. Posso parecer 
dura, mas na Minha opinio as Arlena Stuarts deste mundo no merecem muita simpatia. Tenho 
conhecimento de um outro caso: um homem ainda novo que perdeu completamente a cabea por ela; 
sempre tinha sido um pouco desvairado, e a sua associao com ela levou-o a extremos. Fez qualquer 
coisa pouco

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recomendvel com umas aces (apenas para arranjar dinheiro para sustentar os caprichos dela) e quase 
ia sendo preso. Aquela mulher contaminava toda a gente com quem se envolvia. Vejam como ela estava a 
arruinar o jovem Redfern. No, no posso lastimar a morte dela, se bem que tivesse sido melhor se ela se 
tivesse afogado, ou cado de um penhasco. A morte por estrangulamento  muito desagradvel.
- E acha que o assassino ter sido algum relacionado com o passado dela?
- Acho, sim.
- Algum vindo do continente sem que ningum tivesse notado?
- Por que haveria algum de notar? Estvamos todos na praia. Creio que a filha de Marshall e Christine 
Redfern estavam longe, na Enseada da Gaivota. o capito Marshall encontrava-se no quarto. Assim, quem 
poderia ter notado a vinda de algum, com excepo de Miss Darriley?
- Onde se encontrava Miss Darriley?
- Sentada num daqueles recantos escavados no topo da falsia, a que chamam Terrao do Sol. Vimo-la l, 
Mr. Redfern e eu, quando amos a remar  volta da ilha.
-  capaz de ter razo, Miss Brewster - disse o coronel Weston.
- Claro que tenho - replicou Emily Brewster com convico. - Quando uma mulher tem uma vida de tal forma 
confusa, ela prpria poder oferecer a pista mais vlida. No concorda comigo, M. Poirot?
Hercule Poirot levantou os olhos e cruzou-se com o olhar confiante de Miss Brewster.
- Oh, sim - disse. - Concordo com aquilo que agora mesmo disse. Arlena Marshall  sem dvida a melhor, 
a nica pista para o seu prprio homicdio.
- Esto a ver? - disse Miss Brewster.
Ficou imvel, uma figura robusta e muito erecta, enquanto o olhar frio se deslocava confiante de um para 
outro dos presentes.
- Pode estar certa, Miss Brewster - disse o coronel Weston -, de que no deixaremos nenhuma pista que 
possa existir no passado de Mrs. Marshall por considerar.
Emily Brewster saiu.

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o inspector mudou de posio na mesa. -  uma mulher determinada, aquela - disse em tom pensativo. - E 
tem a faca bem enterrada na falecida, por assim dizer.
Calou-se por um instante. -  pena que tenha um libi inatacvel para toda a manh - continuou 
ponderadamente. - Reparou nas mos dela, sir? Grandes como as de um homem. E  uma mulher robusta, 
to forte como qualquer homem...
Calou-se de novo. o olhar que lanou a Poirot era quase suplicante. - E o senhor diz que ela nunca saiu da 
praia esta manh, M. Poirot?
Lentamente, Poirot abanou a cabea.
- Meu caro inspector - disse -, ela desceu  praia antes de Mrs. Marshall poder ter chegado  Enseada do 
Duende, e ficou debaixo do meu olhar at partir com Mr Redfern no bote a remos.
- Nesse caso, ela fica de fora - disse o inspector Colgate sombriamente. Parecia transtornado.
Como sempre, Hercule Poirot sentiu muito prazer ao ver Rosamund Darriley. At a um simples inqurito 
policial aos desagradveis factos do homicdio ela conseguia trazer uma distino muito sua.
Sentou-se em frente do coronel Weston e olhou para ele com um rosto srio e inteligente.
- Quer o meu nome e endereo? - perguntou. - Rosamnnd Anne Darriley. Sou costureira e possuo um 
atelier com o nome Bose Mond W., sediado em 622 Brook Street.
- Obrigado, Miss Darriley. Poder agora dizer-nos alguma coisa que possa ajudar-nos?
- No creio.
- Os seus prprios movimentos...
- Tomei o pequeno-almoo perto das nove e meia. Depois voltei ao

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quarto e peguei em alguns livros e no meu chapu-de-sol, e dirigi-me para o Terrao do Sol. Deviam ser 
ento dez e vinte e cinco. Voltei ao hotel faltariam uns dez minutos para o meio-dia, fui buscar a minha 
raquete de tnis e dirigi-me aos courts, onde estive a jogar at  hora do almoo.
- Esteve entre as dez e meia e as doze menos dez no terrao escavado na falsia, a que o hotel d o nome 
de Terrao do Sol?
- Estive.
- Chegou a ver Mrs. Marshall durante a manh?
- No.
- Viu-a da falsia, quando ela seguia na gaivota dirigindo-se  Enseada do Duende?
- No, ela deve ter passado antes da minha chegada.
- Deu pela passagem de algum, quer numa gaivota quer num bote,ao longo da manh?
- No me recordo de ter visto ningum. Sabe, estive a ler. Claro que de vez em quando levantava os olhos 
do livro, mas, sempre que olhei, no vi ningum.
- Nem reparou sequer na passagem de Mr. Redfern e Miss Brewster, quando circundavam a ilha?
- No.
- A senhora conhece Mr. Marshall j h algum tempo, segundo me consta.
- o capito Marshall  umvelho amigo. As nossas famlias eram vizinhas. Contudo, h vrios anos que no o 
encontrava... talvez h uns doze.
- E Mrs. Marshall?
- Nunca cheguei a trocar meia dzia de palavras com ela at a encontrar aqui.
- Acha que as relaes entre o capito e Mrs. Marshall eram amistosas?
- Eram perfeitamente normais, na minha opinio.
- E o capito Marshall era muito dedicado  esposa?
-  capaz de ter sido - disse Rosamund. - No posso realmente dizer-lhe nada a esse respeito. o capito 
Marshall  um tanto antiquado... no tem o hbito moderno de gritar os seus problemas matrimoniais aos 
quatro ventos.
- Gostava de Mrs. Marshall, Miss Darriley ?

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- No.
o monosslabo surgiu calmamente e sem emoo. Parecia o que na realidade era: simples declarao de 
facto.
- Porqu?
Um ligeiro sorriso surgiu nos lbios de Rosamund.
- j devem ter certamente descoberto que Arlena Marshall no era popular entre as pessoas do seu prprio 
sexo - disse. - As mulheres enchiam-na de tdio, e ela demonstrava-o. De qualquer modo, gostaria de ter 
sido encarregada de lhe tratar do guarda-roupa. Tinha muito bom gosto no que se refere ao vesturio. 
Escolhia sempre as peas muito criteriosamente, e a sua figura ajudava. Gostaria de a ter tido entre as 
minhas clientes.
- Ela gastava muito dinheiro em roupas?
- Tenho a certeza disso. Mas tinha fortuna prpria, e evidentemente o capito Marshall  uma pessoa 
abastada.
- Miss Darriley, ouviu por acaso dizer, ou ter-lhe- alguma vez ocorrido, que Mrs. Marshall estaria a ser 
vtima de chantagem?
Um ar de intenso espanto surgiu no rosto expressivo de Rosamund Darriley.
- Chantagem? Arlena? - exclamou.
- A ideia parece surpreend-la.
- Sim, e bastante. Parece-me to incongruente...
- Mas acha que  possvel?
- Tudo  possvel, no ? A vida depressa nos ensina isso. S no entendo acerca de qu se poderia 
exercer chantagem sobre Arlena.
- Haveria, talvez, certas coisas que Mrs. Marshall no desejava que chegassem ao conhecimento do 
marido?
- Sim... talvez. - Rosamund logo explicou a dvida patente na sua voz dizendo, com um pequeno sorriso:
- Posso parecer cptica, mas a verdade  que Arlena tinha uma conduta duvidosa. Nunca fez qualquer 
esforo para passar por pessoa respeitvel.
- Pensa, ento, que o marido tinha conhecimento das relaes ntimas que ela mantinha com outras 
pessoas?
Houve uma pausa. Rosamund franziu a testa. Por fim falou numa voz lenta, relevante:
- Sabe, nem sei realmente o que pensar. Sempre presumi, para falar com

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franqueza, que Kenneth Marshall aceitava a mulher tal como ela era. Que no tinha iluses a seu respeito. 
Mas  possvel que no fosse assim.
- Acha que ele confiava absolutamente na mulher?
- Os homens so mesmo tontos! - exclamou Rosamund, quase exasperada. - No seu ntimo o Kenet 
Marshall  um homem muito simples, apesar dos seus modos sofisticados. Pode realmente ter confiado 
cegamente nela. Pode ter pensado que ela era apenas... admirada por todos.
- E no conhece ningum... melhor dizendo, nunca lhe ter constado que algum pudesse guardar rancor a 
Mrs. Marshall?
Rosamund Darriley sorriu.
- S as esposas ressentidas - disse. - Contudo, visto que ela foi estrangulada, presumo que foi algum 
homem que a matou.
- Com efeito.
- No, no sou capaz de pensar em ningum - disse Rosamund, pensativa. - Mas, por outro lado,  natural 
que eu nunca chegasse a saber.Ter de perguntar a algum dos crculos mais prximos de Arlena.
- Obrigado, Miss Darriley.
Rosamund voltou-se ligeiramente na cadeira. - M. Poirot no ter qualquer pergunta a fazer-me? - Lanou-
lhe um sorriso levemente irnico. Hercule Poirot sorriu tambm, e abanou a cabea.
- No consigo lembrar-me de nenhuma pergunta - disse. Rosamund Darriley levantou-se e saiu da sala.

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CAPTULO OITO

Estavam todos de p no quarto que tinha sido ocupado por Arlena Marshall.
Duas amplas janelas de sacada abriam-se para uma varanda virada para a praia e para o mar. o sol entrava 
a jorros no compartimento, fazendo rebrilhar a imponente variedade de frascos e boies no toucador de 
Arlena.
Havia aqui exemplares de todos os tipos de cosmticos e unguentos conhecidos nos sales de beleza. 
Entre esta panplia de aparatos femininos trs homens moviam-se cheios de determinao. o inspector 
Colgate no cessava de abrir e fechar gavetas.
A certa altura soltou um grunhido. Tinha encontrado um mao de cartas dobradas. Ele e Weston 
examinaram-nas conjuntamente.
Hercule Poirot tinha-se dedicado ao guarda-roupa. Abriu a porta do roupeiro do lado dos cabides e 
examinou a multiplicidade de vestidos e fatos ali pendurados. Abriu depois a outra porta. Vaporosa roupa 
interior acumulava-se em pilhas. Numa ampla prateleira viam-se chapus. Dois outros chapus de praia em 
carto pintado, um vermelho e o outro amarelo-plido; um amplo chapu de palha havaiano, um de linho 
azul-escuro e trs ou quatro outros absurdos, sem dvida bastante caros: uma espcie de boina azul-
escura, um tufo - nada mais do que isso - de veludo negro, um turbante cinzento-plido.
Hercule Poirot examinou-os demoradamente com um ligeiro sorriso indulgente nos lbios.
- Les femmes! - murmurou.
o coronel Weston estava a dobrar de novo as cartas.
- Trs delas foram escritas pelo jovem Redfern - anunciou. - Grande imbecil! Daqui a alguns anos saber 
que no deve escrever cartas a mulheres.

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Elas guardam-nas sempre, mas juram que j as queimaram... H ainda uma outra carta de teor 
semelhante.
Entregou-a a Poirot, que comeou a l-la.
Querida Arlena.
Santo Deus, sinto-me deprimido. Ter de ir para a China, talvez sem poder voltar a ver-te durante anos e 
anos. No fazia ideia de que um homem pudesse ficar doido por uma mulher como eu estou por ti. 
Obrigado pelo cheque. Agora j no me levam a tribunal. Esteve por pouco, e tudo apenas porque eu queria 
ganhar muito dinheiro para te oferecer tudo aquilo que mereces. Poders perdoar-me? Queria enfeitar as 
tuas orelhas com diamantes, e enrolar grandes prolas leitosas  volta do teupescoo, s que dizem que 
hoje em dia as prolas j perderam o seu valor. Uma fabulosa esmeralda, ento? Sim,  isso. uma enorme 
esmeraldafria e verde e cheia de fogo escondido. No te esqueas de mim... mas estou certo de que no o 
fars. Tu s minha... para sempre. Adeus... adeus... adeus.
- Talvez valha a pena saber-se se este J.N. foi realmente para a China - disse o inspector Colgate. - Se no 
foi... bem, ento talvez seja a pessoa que procuramos. Louco pela mulher, a idealiz-la, e de repente 
descobre que ela lhe comeu as papas na cabea. Parece-me que este bem pode ser o tipo de que Miss 
Brewster falou. Sim, acho que isto pode ser-nos til.
Hercule Poirot, concordou.
- Sim - disse -, esta carta  importante. Considero-a bastante importante.
Olhou em redor e observou o quarto, os frascos no toucador, o roupeiro aberto e um volumoso Pierrot 
insolentemente recostado na cama. Passaram depois para o quarto de Kenet Marshall.
Era contguo ao da mulher, mas no tinha porta de comunicao, nem abria para a varanda. Tinha frente 
para o mesmo lado e dispunha de duas janelas, mas era bastante mais pequeno. Entre as duas janelas um 
espelho com moldura dourada pendia da parede. No canto a seguir  janela do lado direito estava o 
toucador. Sobre este viam-se duas escovas com cabo de marfim, uma escova de fatos e um frasco de 
loo capilar. No canto oposto,

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a seguir  janela da esquerda, havia uma escrivaninha. Uma mquina de escrever porttil estava aberta 
sobre a mesa, com uma rima de papeis ao lado.
Colgate examinou-os rapidamente.
- Parece-me tudo normal - disse. - Ah, aqui est a carta a que ele se referiu esta manh. Est datada do 
dia 24, que foi ontem, e aqui est o envelope carimbado esta manh nos correios da Baa de 
Leathercombe. Bate tudo certo. Agora poderemos saber se ele ter preparado antecipadamente a resposta.
Sentou-se  escrivaninha e o coronel Weston disse-lhe: - V analisando isso, enquanto ns damos uma 
olhadela pelos restantes quartos. At agora toda a gente tem sido impedida de entrar neste corredor, e 
comeam a ficar um pouco enervados com isso.
Entraram a seguir no quarto de Linda Marshall. Era virado para leste, e da janela podiam observar-se os 
rochedos at ao mar.
Weston lanou um olhar em redor.
- No deve haver muito para se ver aqui - murmurou. - Mas seria lgico o Marshall pretender guardar no 
quarto da filha qualquer coisa que no desejasse que encontrssemos. Pouco provvel, contudo. No 
andamos aprocurar nenhuma arma nem qualquer coisa do gnero. - E saiu outravez.
Hercule Poirot deixou-se ficar, e encontrou na grelha da lareira algo que lhe interessou. Qualquer coisa 
tinha sido ali queimada recentemente. Depositou o seu achado numa folha de papel. Um naco irregular de 
cera de vela, alguns fragmentos de papel ou carto verde, possivelmente uma folha de calendrio, pois 
sobrava um pedao no ardido com o algarismo 5 e algo impresso... nobres aces... Havia ainda um 
alfinete vulgar e um fragmento de matria orgnica que poderia ser cabelo.
Poirot disps os vestgios numa fila ordenada e observou-os.
- Executa nobres aces, no te limites a sonhar com elas - murmurou.
- C'est possible. Mas o que se poder depreender desta estranha coleco? C'est fantastique!
A seguir pegou no alfinete e os olhos esbugalharam-se.
- Pour amour de Dieu! Ser possvel?
Hercule Poirot levantou-se de onde estava ajoelhado junto da lareira.

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Lentamente, olhou em redor da sala, e desta vez havia uma expresso no seu rosto. Era uma expresso 
grave, quase severa.
 esquerda da prateleira da lareira havia uma estante com uma fileira de livros. Hercule Poirot observou 
pensativamente os ttulos.
Uma Bblia, um exemplar muito usado das peas de Shakespeare. o Casamento de William Ashe, de Mrs. 
Humphry Ward. A Jovem Madrasta, de Charlotte Yonge. o Moo de Shropshire. o Crime na Catedral, de 
Eliot. A Santa joana, de Bernard Shaw. E Tudo o Vento Levou, de Margaret Mitchell. o Tribunal em 
Chamas, de Dickson Carr.
Poirot retirou dois livros da estante, A Jovem Madrasta e William Ashe, e olhou de relance para o ex libris 
aposto no frontispcio. Quando estava prestes a arrum-los, reparou num livro que tinha sido enfiado atrs 
dos outros. Era um volume pequeno e grosso, encadernado a carneira castanha.
Pegou nele e abriu-o. Muito lentamente, abanou a cabea.
- Portanto eu tinha razo... - murmurou. - Sim, estava certo. Mas, quanto ao resto... ser possvel, 
tambm? No, no  possvel, a no ser que...
Ficou imvel onde estava, cofiando o bigode enquanto o esprito se atarefava s voltas com o problema.
- A no ser que... - disse de novo num sussurro.
o coronel Weston veio espreitar  porta.
- Ento, Poirot, ainda est a?
- j vou, j vou - disse Poirot. E apressou-se a sair para o corredor. o quarto a seguir ao de Linda era o dos 
Redferns.
Poirot observou-o, notando automaticamente os indcios de duas personalidades diferentes: uma arrumao 
e um asseio que associava a Christine, e uma pitoresca desordem que era caracterstica de Patrick. Com a 
excepo destes reflexos de personalidade, o aposento no lhe despertou qualquer interesse.
A seguir era o quarto de Rosamund Darriley, e nesse Poirot demorou-se algum tempo, envolto no puro 
prazer da personalidade da sua ocupante. Reparou nos poucos livros que descansavam sobre a mesa ao 
lado da

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cama, na sobriedade dos dispendiosos artigos de toilette dispostos no toucador. Chegava-lhe s narinas o 
esquivo aroma do perfume caro que Rosamund usava.
Ao lado do quarto de Rosamund Darriley, no extremo norte do corredor, umajanela ampla deitava para uma 
varanda, da qual uma escadaria exterior conduzia s rochas.
-  por aqui - comentou Weston - que as pessoas descem quando vo ao banho antes do pequeno-
almoo... quer dizer, se mergulham das rochas, como quase todos fazem.
Os olhos de Poirot adquiriram uma expresso de interesse. Saiu para a varanda e olhou para baixo.
Ao fundo da escadaria, um carreiro terminava numa srie de degraus -. que desciam em ziguezague pelas 
rochas at ao mar. Havia tambm um  outro carreiro que contornava o hotel, pela esquerda.
- Seria possvel - disse Poirot - descer estes degraus, virar  esquerda em redor do hotel e chegar ao 
caminho principal vindo do ponto.
Weston confirmou com um aceno, e completou a afirmao de Poirot.
-  possvel atravessar a ilha sem sequer passar atravs do hotel. Mas mesmo assim podia ser-se visto de 
uma das janelas - acrescentou.
- De qual?
- Duas das casas de banho comuns esto voltadas para este lado, para o norte, e tambm a da casa de 
banho do pessoal, e a do bengaleiro no rs-do-cho. E ainda as da sala de bilhar.
Poirot acenou.
- Mas todas elas possuem vidraas foscas - disse -, e ningum joga bilhar numa bela manh.
- Exactamente.
Aps uma pausa, Weston disse: - Se foi ele, foi por ali que seguiu.
- Est a referir-se ao capito Marshall?
- Estou. Chantagem ou no, ainda sinto que tudo aponta para ele. E o Seu comportamento... bem, o seu 
comportamento  no mnimo infeliz.
- Talvez - ripostou Hercule Poirot, secamente, - mas no  o comportamento que faz um criminoso!
- Nesse caso, acha que ele est fora de questo? - perguntou Weston. Poirot abanou a cabea.

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- No, no diria isso.
- Veremos o que Colgate conclui do libi da mquina de escrever - disse Weston. - Entretanto, tenho a 
criada de quarto deste piso  espera de ser interrogada. Muito poder depender do que ela disser.
A criada de quarto era uma mulher de cerca de trinta anos, vivaz, eficiente e inteligente. As suas respostas 
eram prontas.
o capito Marshall subira ao seu quarto pouco depois das dez e trinta. Nessa altura estava ela a acabar de 
arrumar o aposento. Ele pediu-lhe para no se demorar. No o vira regressar, mas tinha escutado o bater 
da mquina de escrever pouco tempo depois. Segundo ela, deveriam faltar cinco para as onze. Estava 
nessa altura a arrumar o quarto do casal Redfrn. Seguidamente passou para o de Miss Darriley, no 
extremo do corredor. Dali no podia escutar a mquina de escrever. Tinha chegado ao quarto de Miss 
Darrilley segundo calculava, pouco depois das onze. Recordava-se de ter ouvido o sino da igreja de 
Leathercombe dar as horas ao entrar no quarto. s onze e quinze descera ao piso de baixo para tomar o 
seu ch das onze e comer qualquer coisa. Depois seguira a tratar dos quartos na outra ala do hotel. 
Respondendo a uma pergunta do chefe da polcia, explicou que tinha arrumado os quartos deste corredor 
pela seguinte ordem: o de Miss Linda Marshall, as duas casas de banho comuns, o quarto e a casa de 
banho privada de Mrs. Marshall. o quarto do capito Marshall, o quarto e a casa de banho privada do casal 
Redfrn, e o quarto e a casa de banho privada de Miss Darriley. Os quartos do capito Marshall e da filha 
no dispunham de casas de banho privadas.
Enquanto se encontrava no aposento de Miss Darriley no dera por ningum passar pela porta ou descer a 
escadaria para as rochas, mas era possvel que no tivesse dado por isso se algum se deslocasse sem 
fazer rudo.
Em seguida, Weston encaminhou as suas perguntas para o tpico de Mrs. Marshall.
No, normalmente Mrs. Marshall no se levantava cedo. Ela, Glady Narracott, surpreendera-se ao encontrar 
a porta aberta e Mrs. Marshall j levantada quando passava um pouco das dez. Era realmente bastante 
invulgar.
- Mrs. Marshall costumava tomar o pequeno-almoo na cama?
- Oh, sim, sir, sempre. E comia muito pouco. S ch e sumo de laranja e uma torrada, Estava de dieta, 
como tantas outras senhoras.

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No, ela no notara nada de especial no comportamento de Mrs. Marshall naquela manh. Apresentava-se 
como normalmente.
- Que pensava a respeito de Mrs. Marshall, mademoiselle? - murmurou Poirot.
Gladys Narracott olhou para ele fixamente.
- Bem, acho que no me compete dizer, pois no, sir?
- Compete, sim, claro que lhe compete. Temos todo o interesse em conhecer a sua opinio.
Gladys lanou um olhar ligeiramente inquieto ao chefe da polcia, que fez o possvel para lhe mostrar um 
rosto amvel e aprovador, se bem que pessoalmente discordasse dos mtodos de abordagem do seu 
colega estrangeiro.
- Sim - disse por fim -, certamente... Diga, diga.
Pela primeira vez a eficcia vivaz de Gladys Narracott parecia t-la abandonado. Os seus dedos apalpavam 
distrados o tecido da bata.
- Bem... - disse. - Mrs. Marshall no era exactamente uma senhora, por assim dizer. o que eu quero dizer  
que ela era mais do gnero de uma actriz.
- Era realmente uma actriz - declarou o coronel Weston.
- Sim sir,  isso o que estou a dizer. Fazia exactamente o que lhe apetecia. No se dava... bem, no se 
dava ao trabalho de ser delicada, se no estivesse para a virada. Num dado momento era capaz de ser 
toda sorrisos, e depois, se por acaso no encontrava qualquer coisa, ou se no se atendia logo  
campainha de chamada, ou se a roupa no tinha ainda voltado da lavandaria, bem, tornava-se logo 
malcriada e antiptica. No se pode dizer que algum de ns gostasse dela. Mas vestia-se muito bem, e, 
claro, era mesmo bonita, e por isso era natural que fosse admirada.
- Custa-me muito ter de lhe perguntar isto - disse o coronel Weston - mas trata-se de um assunto de 
enorme importncia. Pode explicar-me como eram as relaes entre ela e o marido?
Gladys Narracott hesitou por uns instantes.
- No pensam... no foi... no acham que tenha sido ele, pois no?
Hercule Poirot perguntou prontamente:
- A menina acha?
- Oh, no! Nem quero pensar nisso! Ele  um cavalheiro to delicado, o capito Marshall. No seria capaz 
de fazer uma coisa dessas... tenho a certeza disso.

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- Mas no est completamente segura do que est a dizer... posso perceber pela sua voz.
Gladys Narracott acrescentou com relutncia: - Bem... l-se cada coisa nos jornais... Se aconteceram 
realmente coisas esquisitas... e, claro, toda a gente anda a falar disso... entre ela e Mr. Redfern... E Mrs. 
Redfern que  uma senhora to simptica e discreta!  mesmo uma pena! Mr. Redfern  tambm um 
cavalheiro, mas parece que os homens no so capazes de se dominarem quando se trata de uma senhora 
como Mrs. Marshall, habituada a fazer sempre o que deseja. As esposas muito tm que suportar, acho eu! 
- Fez uma pausa e suspirou. - Mas se o capito Marshall tivesse descoberto...
o coronel Weston insistiu, impaciente: - Diga, diga!
Gladys prosseguiu, pausadamente: - s vezes cheguei a pensar que Mrs. Marshall tinha medo de que o 
marido viesse a descobrir.
- Porqu?
- No foi nada de concreto, sir S sentia que... s vezes ela tinha... medo dele. Ele era um senhor muito 
calmo, mas no era... no era nada fcil.
- Mas no tem nada de definido em que possa basear-se? Nada que algum deles tenha dito ao outro?
Lentamente, Gladys Narracott, abanou a cabea.
Weston suspirou e prosseguiu: - Agora falemos das cartas que Mrs. Marshall recebeu esta manh. Sabe 
alguma coisa a respeito disso?
- Eram umas seis ou sete, sir. No tenho bem a certeza.
- Foi voc que lhas levou?
- Sim, sir, fui. Levantei-as na recepo, como de costume, e coloquei-as no tabuleiro do pequeno-almoo.
- Recorda alguma coisa do aspecto delas?
A rapariga abanou a cabea. - Eram s cartas normais. Algumas eram contas ou circulares, acho eu, 
porque ficaram rasgadas no tabuleiro.
- Que foi feito delas?
- Foram deitadas ao lixo, sir. Um dos senhores da polcia j est agora a examin-lo.
Weston fez um aceno. - E o contedo dos cestos de papis, onde foi parar?
- Deve estar tambm no depsito do lixo.

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- Hum... bem - disse Weston -, acho que por agora  tudo. - Olhou interrogativamente para Poirot. Este 
inclinou-se para a frente e perguntou:
- Quando arrumou o quarto de Miss Linda Marshall esta manh, limpou tambm a lareira?
- No havia l nada, sir. A lareira no tinha sido acesa.
- E no havia nada na grelha da lareira?
- No senhor, estava tudo limpo.
- A que horas limpou esse quarto?
- Eram talvez nove e um quarto, enquanto ela descia para tomar o pequeno-almoo.
- Ela voltou ao quarto, depois do pequeno-almoo?
- Sim, sir. Eram perto das dez menos um quarto.
- E ficou no quarto?
- Acho que sim, sir. Vi-a depois sair apressada, um pouco antes das dez e meia.
- Depois disso a Gladys no voltou quele quarto?
- No, sir. j o tinha terminado.
Poirot fez um aceno.
- H uma outra coisa que preciso de saber - disse. - Quantas pessoas foram tomar banho  praia antes do 
pequeno-almoo?
- No sei, no que se refere  outra ala ou ao piso de cima. S deste.
-  s deste que me interessa.
- Bem, sir, o capito Marshall e Mr. Redfern foram os nicos esta manh, acho eu. Eles descem sempre 
para um mergulho matinal.
- Viu-os?
- No, mas os fatos de banho estavam a secar no corrimo da varanda, como de costume.
- Miss Linda Marshall no foi tomar banho esta manh?
- No, sir. Todos os fatos de banho dela estavam secos.
- Ah! - exclamou Poirot. - Era isso que eu queria saber.
Gladys Narracott, achou por bem acrescentar: - Mas ela costuma ir tomar banho todas as manhs, sir.
- E as outras trs, Miss Darriley, Mrs. Redfern e Mrs. Marshall?
- Mrs. Marshall nunca, sir. Miss Darriley uma vez ou outra, acho eu.

119

Mrs. Redfern no costuma ir ao mar antes do pequeno-almoo, a no ser quando est muito calor. Mas 
esta manh no foi.
Novamente Poirot, acenou. Depois perguntou: - Gostaria de saber se teria dado pela falta de um frasco em 
algum dos quartos de que toma conta nesta ala.
- Um frasco, sir? Que gnero de frasco?
- Infelizmente no sei. Mas notou... ou seria capaz de notar se por acaso faltasse algum?
Gladys falou com franqueza: - Se fosse do quarto de Mrs. Marshall, nem pensar, ela tem tantos...
- E dos outros quartos?
- Bem, no tenho bem a certeza quanto ao quarto de Miss Darriley, porque tem muitos cremes e loes. 
Mas dos outros quartos, acho que sim. Quero dizer, se tivesse de procurar com cuidado. Se tivesse de 
reparar por assim dizer.
- Mas no chegou a reparar em nada, pois no?
- No, pois no estava a procurar com cuidado, como j disse.
- Nesse caso, talvez seja melhor ir agora reparar.
- Como queira, sir.
Saiu da sala, com a bata de tecido estampado a fazer ruge-ruge. Weston olhou para Poirot, e perguntou: - 
Qual  o objectivo de tudo isto?
-  o meu esprito metdico, que se inquieta com ninharias! Miss Brewster esteve esta manh, antes do 
pequeno-almoo, a tomar banho perto das rochas, e diz que algum atirou um frasco do alto da falsia que 
quase lhe acertava. Et bien, pretendo saber quem atirou o frasco e porqu!
- Meu caro amigo, qualquer pessoa poderia ter atirado um frasco ao mar!
- De modo algum. Em primeiro lugar, s poderia ter sido arremessado de uma janela na ala leste do hotel, 
ou seja, de uma das janelas dos quartos que acabmos de examinar. Agora, deixe-me perguntar-lhe: se 
tiver um frasco vazio no seu toucador ou na casa de banho, o que faz com ele? Eu digo-lhe: deita-o para o 
cesto de papis. No se d ao incmodo de ir  varanda e atir-lo para o mar! Por um lado, poderia atingir 
algum, e por outro seria um trabalho escusado. No, s o faria se no quisesse que vissem esse frasco!
Weston olhou para ele fixamente.

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- Sei que o inspector-chefe Japp - disse - que conhecia h algum tempo num outro caso, diz sempre que o 
senhor possui uma mente muito tortuosa. No ir certamente dizer-me que Arlena Marshall no foi 
realmente estrangulada mas antes envenenada com uma qualquer droga misteriosa transportada num 
frasco misterioso!
- No, no! No acho que o tal frasco contivesse qualquer veneno.
- Nesse caso, o que conteria?
- No fao a menor ideia.  por isso que estou to interessado.
Gladys Narracott regressou. Vinha um pouco esbaforida.
- Desculpe, sir, mas no dei pela falta de nada.Tenho a certeza de que no falta nada no quarto do capito 
Marshall, no de Miss Linda, nem no do casal Redfern, e tambm sei que nada falta no de Miss Darriley. 
Mas no posso afirmar nada quanto ao de Mrs. Marshal~! Como j disse, h l tantos frascos...
Poirot encolheu os ombros.
- No tem importncia - disse. - Deixemos isso.
- Precisam de mais alguma coisa? - perguntou Gladys Narracott. Olhou para um e depois para o outro.
- Acho que no. Obrigado - agradeceu Weston.
- Nada mais, obrigado - disse Poirot. - Tem a certeza de que no haver mais nada, por mais simples que 
seja, que se tenha esquecido de nos dizer?
- A respeito de Mrs. Marshall ,sir?
- A respeito de qualquer coisa. Qualquer coisa de invulgar, fora do usual, por explicar, ligeiramente 
estranho, algo curioso... Enfim qualquer coisa que a tenha feito dizer a si mesma ou a algum colega: Tem 
graa!.
- Bem, nada do gnero de coisa que possa imaginar, sir - disse Gladys num tom de dvida.
- No se preocupe com o que eu possa imaginar. No pode saber o que estou a imaginar. Ser ento 
verdade que hoje disse a si mesma ou a algum colega: Isto tem graa!?
Pronunciou as trs palavras com irnica indiferena.
- Bem, no foi nada realmente de importante - disse Gladys. - Foi s ter ouvido um banho a correr. E 
realmente comentei com a Elsie, no piso de baixo, que era estranho algum estar a tomar banho perto do 
meio-dia.
- Qual banho? Quem estava a tomar banho?

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- Isso no posso dizer, sir. Ouvimos a gua a escoar-se, mais nada, e foi ento que disse o que disse  
Elsie.
- Tem a certeza de que era um banho? No poderia ser s algum a lavar as mos no lavatrio?
- Oh, tenho a certeza, sir! A gua da banheira faz um barulho especial ao escoar-se.
Poirot no mostrou vontade de continuar o interrogatrio e Gladys saiu.
- No acha que esta questo do banho  importante, pois no, Poirot? - perguntou Weston. - Quero dizer, 
no vejo qual ser o interesse. No havia manchas de sangue ou coisa do gnero que tivesse sido 
necessrio lavar E essa a... - hesitou.
Poirot concluiu. -  essa, por assim dizer, a vantagem do estrangulamento! No h manchas de sangue, 
nem armas para esconder... A nica coisa que  necessria  fora fsica... e a alma de assassino!
A voz dele parecia to inflamada, to cheia de emoo, que Weston recuou ligeiramente.
Hercule Poirot sorriu-lhe, num pedido mudo de desculpas.
- Talvez o banho no tenha qualquer importncia. Qualquer pessoa podia ter tomado banho. Mrs. Redfern 
antes de ir jogar tnis, o capito Marshall, Miss Darriley. Como j disse, qualquer pessoa. Pode no 
significar nada.
Um guarda bateu  porta e espreitou. -  Miss Darriley, sir. Diz que gostava de lhe falar outra vez. H 
qualquer coisa que se esqueceu de mencionar, diz ela.
- Vamos j descer - disse Weston.
A primeira pessoa que encontraram foi Colgate. Vinha com uma expresso sombria. -  s um momento, 
sir.
Weston e Poirot seguiram-no at ao gabinete de Miss Castle.
- Tenho estado a verificar com o Heald esta histria da escrita  mquina - disse Colgate. - No h dvida, 
no podia ser feito em menos de uma hora. Ou mais ainda, se fosse preciso parar para pensar aqui e ali. 
Isso parece-me que esclarece devidamente a questo. E olhem para esta carta. Comeou a l-la.

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Meu caro Marshall - Lamento incomodar-te durante as tuasfrias, mas surgiu uma situao totalmente 
imprevista, em relao aos contratos Burley e Tender...
- Etc., etc. - disse Colgate. - Datada de 24, ou seja, de ontem. o envelope foi carimbado ontem  noite no 
sector E.C. 1, e esta manh nos correios locais. Foi usada a mesma mquina de escrever para o envelope 
e para a carta. E pelo seu teor era obviamente impossvel para Marshall ter preparado uma resposta 
antecipadamente. Os nmeros apresentados esto de acordo com os que vm na carta;  tudo muito 
complexo.
- Hum... - replicou Weston, taciturno. - Isso parece ilibar Marshall. Teremos de procurar noutro lado. - 
Depois acrescentou: - tenho de falar de novo com Miss Darriley. Est agora  espera.
Rosamund entrou apressada. o seu sorriso tinha uma nuance de apologia.
- Lamento muito - disse. - Possivel mente nem tem qualquer importncia. Mas ficam sempre coisas por 
dizer.
- Ora essa, Miss Darriley. - o chefe da polcia indicou-lhe uma cadeira. Rosamund abanou a cabea: - Oh, 
no vale a pena sentar-me.  apenas isto: disse-lhe que tinha passado a manh estendida no Terrao do 
Sol. No  totalmente verdade. Esqueci-me que durante a manh voltei ao hotel e depois tornei a sair.
- A que horas, Miss Darriley ?
- Devia ter sido prximo das onze e quinze.
- Disse que voltou ao hotel?
- Sim, tinha-me esquecido dos culos de sol. Primeiro pensei que no ia fazer qualquer diferena, mas 
depois os meus olhos cansaram-se e decidi vir busc-los.
- Foi directa ao seu quarto e saiu logo depois?
- Sim. Por acaso parei para cumprimentar o Ken... o capito Marshall. Ouvi-o a escrever  mquina e achei 
que era uma estupidez ficar dentro de casa com um dia to agradvel. Pensei dizer-lhe para sair.
- E o que respondeu o capito Marshall?
Rosamund sorriu, embaraada. - Bem, quando abri a porta ele estava a dactilografar vigorosamente, to 
pensativo e concentrado que fui embora sem fazer barulho. Acho que nem sequer me viu entrar.

123

- E que horas seriam ento, Miss Darriley ?
- Cerca das onze e vinte. Olhei para o relgio do trio ao sair.
- Desta forma o capito fica definitivamente ilibado - disse o inspector Colgate. - A criada de quarto ouviu-o 
a escrever  mquina s cinco para as onze, Miss Darriley viu-o vinte minutos depois das onze, e a mulher 
j estava morta ao meio-dia menos um quarto. Ele disse que tinha estado a escrever durante uma hora no 
quarto, e parece provado que esteve mesmo. o capito Marshall fica arrumado.
Calou-se e ficou a olhar para Poirot com curiosidade.
- M. Poirot parece muito srio.
- Estava a tentar imaginar que razo teria Miss Darriley para vir apresentar de repente esta informao 
adicional - respondeu Poirot pensativo. o inspector Colgate levantou a cabea, alerta.
- Pensa que haver alguma coisa de estranho nisso? Que no foi apenas uma questo de se ter 
esquecido? Reflectiu uns momentos, e depois prosseguiu, lentamente: - Oua, sir consideremos o caso 
desta forma: suponhamos que Miss Darriley no esteve esta manh no Terrao do Sol, como tinha dito. Era 
mentira. Agora suponhamos que, depois de nos ter contado a Sua histria, descobre que algum a teria 
visto algures, ou ento que algum fora at ao Terrao sem a encontrar l. Depois inventa num instante 
esta histria e vem cont-la, para justificar a ausncia. H-de reparar que ela teve o cuidado de acentuar 
que o capito Marshall no a tinha visto quando ela o foi espreitar.
- Pois, tambm reparei nisso - murmurou Poirot.
- Estar a sugerir que Miss Darriley est metida nisto? - disse Weston. incrdulo. - Disparate, parece-me 
um absurdo. Por que estaria?
o inspector Colgate tossiu.
- Talvez se recorde - disse - do que aquela senhora americana, Mrs. Gardener, declarou. Sugeriu que Miss 
Darriley estava cada pelo capito Marshall. Ora a estaria um motivo, sir.
- Arlena Marshall no foi morta por uma mulher - replicou Weston.

124

impaciente. - Quem precisamos de encontrar  um homem. Temos de limitar a investigao aos homens.
o inspector Colgate suspirou.
- Sim, tem razo - disse. - Regressamos sempre a esse ponto, no ?
Weston prosseguiu: -  melhor destacar um guarda para medir o tempo de alguns percursos. Do hotel at 
ao topo da escada de ferro do outro lado da ilha. Ele que o faa tanto a correr como a andar normalmente. 
A mesma coisa com relao  descida da escada. E  melhor que algum veja quanto tempo leva uma 
gaivota a percorrer a distncia entre a praia e a enseada.
o inspector Colgate anuiu.
- Eu trato disso - disse, confiante.
- Acho que agora vou at  enseada - informou o chefe da polcia - para ver se o Phillips descobriu alguma 
coisa. Depois h a tal Enseada do Duende de que tanto temos ouvido falar. Convm ir ver se haver indcios 
de algum l ter estado  coca. Eh, Poirot? Que acha?
- Concordo inteiramente.  uma hiptese.
Weston prosseguiu: - Se algum de fora viesse  socapa at  ilha, aquilo seria um bom local para ficar 
escondido... se soubesse da sua existncia.  de supor que as pessoas residentes na regio saibam?
- A gerao mais nova no deve saber - disse Colgate. -  que, desde que o hotel foi construido, as 
enseadas so propriedade privada. No so frequentadas por pescadores nem por excursionistas em 
piquenique. E o pessoal do hotel no  desta regio. Mrs. Castle, por exemplo,  londrina.
- Talvez seja boa ideia levarmos os Redfern connosco - disse Weston. Foi ele quem nos falou do local. Vem 
tambm, M. Poirot?
Hercule Poirot hesitou. Depois, com a sua pronncia estrangeira muito acentuada, disse: - Eu c sou como 
Miss Brewster e Mrs. Redfern. No gosto de descer escadas perpendiculares.
- Pode ir  volta, por barco - disse Weston. Poirot suspirou.
- o meu estmago no se sente feliz no mar.
- Disparate, homem! Est um dia lindo! Calmo como uma lagoa. No nos pode deixar mal, bem sabe!
Hercule Poirot parecia pouco disposto a reagir a este incitamento, mas

125

nesse momento Mrs. Castle surgiu  porta, com o seu rosto de senhoreca e elaborado penteado.
- Espero no estar a intrometer-me - disse ela -, mas Mr. Lane (clrigo, sabem) acaba de regressar. Pensei 
que desejassem saber.
- Ah, sim, Mrs. Castle, obrigado. Vamos j falar com ele.
Mrs. Castle entrou um pouco mais na sala.
- - No sei se vale a pena mencionar - disse -, mas como ouvidizer que nem o menor incidente deve ser 
ignorado...
- Sim, sim? - disse Weston, impaciente.
-  que chegou aqui um casal, por volta da uma hora. Vinham do continente, para almoar. Foram 
informados de que tinha havido aqui um acidente e, dadas as circunstncias, no podamos servir almoos.
- Tem alguma ideia de quem seriam?
- No fao a menor ideia. Naturalmente, no lhes perguntei o nome e mostraram-se decepcionados, e um 
pouco curiosos quanto  natureza do acidente. No lhes disse nada,  claro. Pareceram-me veraneantes de 
grande classe.
- Bem - disse Weston com brusquido -, obrigado por nos ter vindo dizer. Talvez no seja importante, mas 
 sempre bom saber-se.
- Naturalmente - replicou Mrs. Castle -, desejo sempre cumprir o meu dever.
- Com certeza. Pea por favor a Mr. Lane para vir aqui.
Stephen Lane entrou na sala com o seu vigor usual.
Weston apresentou-se: - Sou o chefe da polcia do condado, Mr. Lane. Suponho que j ter sido informado 
do sucedido?
- Sim, com efeito... soube assim que cheguei. Terrvel... terrvel... - A sua fraca figura estremeceu. - Desde 
que aqui cheguei... - disse num sussurro - tenho sentido... muito... a presena das foras do Mal.
Os seus olhos, ardentes e ansiosos, viraram-se para Poirot.
- Recorda-se da nossa conversa de h dias, M. Poirot, acerca da realidade do Mal?

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Weston observava com alguma perplexidade aquela figura alta e macilenta. Achava difcil compreender este 
homem. Os olhos de Lane voltaram a fixar-se nele.
- Estou a ver que isto lhe parece fantstico - disse o clrigo com um ligeiro sorriso. - Nos dias que correm 
j ningum cr no mal. Abolimos o fogo do inferno! Deixmos de acreditar no Diabo! Contudo, Sat e os 
seus emissrios nunca foram to poderosos como hoje!
- Hum... hum... sim, talvez - disse Weston. - Esse domnio, Mr. Lane,  a sua especialidade. o meu  mais 
prosaico: esclarecer um caso de homicdio.
- Palavra terrvel, homicdio! - disse Stephen Lane. - Um dos mais antigos pecados conhecidos na Terra: o 
impiedoso derramamento de sangue de um irmo inocente... - Calou-se, de olhos semicerrados. Depois 
num tom de voz mais normal, perguntou: - De que forma poderei ajudar-vos?
- Antes de mais, Mr. Lane, faa o favor de nos descrever os seus movimentos de hoje.
- De boa vontade. Parti bastante cedo para uma das minhas vagabundagens habituais. Gosto muito de 
caminhar. J percorri uma boa parte de toda esta regio. Hoje fui at St. Petrock-in-the-Combe. Fica a 
cerca de dez quilmetros daqui, um passeio muito agradvel ao longo de carreiros sinuosos, subindo e 
descendo as colinas e os vales de Devon. Levei o almoo e comi-o num pequeno bosque. Visitei a igreja; 
possui alguns fragmentos (apenas fragmentos) de um vitral, e tambm um painel muito interessante.
- Obrigado, Mr. Lane. Encontrou algum durante o seu passeio?
- Nada de importante. Cruzei-me com uma carroa e com uns rapazes de bicicleta, e algumas vacas. 
Contudo - sorriu -, se querem provas do que vos disse, escrevi o meu nome no livro de visitantes da igreja. 
No tero dificuldade em confirmar.
- No encontrou ningum na igreja? Talvez o vigrio, ou o sacristo?
Stephen Lane abanou a cabea.
- No, no havia ningum por perto - disse -, e eu era o nico visitante. St. Petrock fica num local remoto. A 
aldeia propriamente dita situa-se cerca de um quilmetro mais para diante.
Weston desculpou-se: - No pense que... hum... duvidamos do que nos diz. Estamos apenas a recolher 
informaes sobre toda a gente. Rotina, sabe,  s rotina. Em casos deste gnero temos de respeitar a 
rotina.

127

- Oh, sim, compreendo perfeitamente - disse Stephen Lane com delicadeza.
Weston prosseguiu: - Passemos ao ponto seguinte. Saber de alguma coisa que possa facilitar o nosso 
trabalho? Qualquer pormenor a respeito da falecida? Algo que possa dar-nos uma indicao sobre o autor 
do crime? Qualquer coisa que tenha visto ou escutado?
- No ouvi nada - respondeu Stephen Lane. - Posso apenas dizer-lhes o seguinte: assim que a vi, soube 
instintivamente que Arlena Marshall era um foco de maldade. Era o Mal personificado! A Mulher pode ser a 
auxiliar e a musa inspiradora do homem... mas tambm pode provocar a sua queda no abismo. Pode 
arrastar o homem at ao nvel da besta. A falecida era uma dessas mulheres. Apelava a tudo o que h de 
mais baixo na natureza humana! Era como jezebel e Ooliba. Agora foi abatida em toda a sua perversidade!
Hercule Poirot agitou-se.
- Abatida no: estrangulada! - declarou. - Estrangulada, Mr. Lane, por um par de mos humanas.
As mos do clrigo estremeceram. Os dedos retorceram-se e contraram-se.
- Isso  horrvel... horrvel! - exclamou, numa voz abafada. - No poderia expor isso por outros termos?
Hercule Poirot replicou: -  a simples verdade. Tem alguma ideia, mr. Lane, de quem eram tais mos?
o outro abanou a cabea.
- No sei nada... - disse - nada...
Weston levantou-se. Deitou um olhar a Colgate, a que este respondeu com um aceno quase imperceptvel.
- Bem - disse -, temos de seguir para a enseada.
- Foi l que... aquilo aconteceu? - inquiriu Lane. Weston confirmou.
- Posso... posso ir convosco? - perguntou Lane.
Antes que Weston pudesse recusar, Poirot replicou: - Certamente, Nr. Lane. Faa-me companhia no barco. 
Partimos imediatamente.

128

CAPTULO NOVE

Pela segunda vez naquele dia, Patrick Redfern ia a remar um barco a caminho da Enseada do Duende. Os 
outros ocupantes da embarcao eram Hercule Poirot, muito plido e com uma mo sobre o estmago, e 
Stephen Lane. Weston seguira pelo percurso terrestre, e, tendo-se atrasado no caminho, chegou ao local 
ao mesmo tempo que o barco fundeava na praia. Um guarda de uniforme e um sargento  paisana j se 
encontravam no local.... Weston estava a falar com este ltimo quando os trs vindos no barco se lhe 
juntaram.
- Creio que j examinei cada centmetro da praia, sir - disse o sargento Phillips.
Muito bem. E o que encontrou?
- Est tudo reunido ali adiante, se quiser vir observar.
Uma pequena coleco de objectos estava cuidadosamente exposta num pedregulho. Havia uma tesoura, 
um invlucro vazio de cigarros, cinco cpsulas de garrafas, diversos fsforos queimados, trs pedaos de 
cordel, um ou dois bocados de papel de jornal, um fragmento de um cachimbo, quatro botes, o osso de 
uma perna de frango e um frasco vazio de bronzeador.
Weston observou atentamente os objectos.
- Hum - comentou -, muito pouco para uma praia hoje em dia! Muita gente confunde uma praia com uma 
lixeira pblica! o frasco vazio j deve estar aqui h muito tempo, pela forma como o rtulo se apresenta 
manchado... e tambm a maior parte do restante, parece-me. Mas a tesoura  nova. Ainda brilha. No 
apanhou de certeza a chuvada de ontem! Onde a encontrou?
- Ao fundo da escada, sir, bem como este pedao de cachimbo.
- Hum, talvez tenha sido largada por algum que ia a subir ou a descer.
- Nada que diga a quem pertenceriam?

129

- No, sir.  uma tesoura de unhas bastante vulgar. o cachimbo  que parece ser de boa qualidade e caro.
- o capito Marshall, se bem me recordo, disse que tinha perdido um cachimbo - murmurou Poirot 
pensativo.
- Marshall j est fora da cena - replicou Weston. - Seja como for, no  o nico que fuma cachimbo.
Hercule Poirot estava a observar Stephen Lane quando este levou a mo ao bolso, retrando-a em seguida.
- Tambm fuma cachimbo, Mr Lane? - perguntou com amabilidade. o clrigo sobressaltou-se. Olhou para 
Poirot, e depois respondeu: - Sim, sim. o meu cachimbo  um velho amigo e companheiro. - Levando de 
novo a mo ao bolso, extraiu de l um cachimbo, que encheu de tabaco e depois acendeu.
Hercule Poirot deambulou at onde Redfern se encontrava, de olhos inexpressivos.
- Ainda bem... que j a levaram daqui - comentou este em voz baixa.
- Onde foi que a encontraram? - perguntou Stephen Lane.
- Mais ou menos no local onde o senhor se encontra agora - disse o sargento com satisfao.
Lane deu um passo rpido para o lado, olhando para o local que acabara de deixar vago.
o sargento prosseguiu: - o local onde a gaivota fundeou confirma a hora aproximada da chegada, dez e 
quarenta e cinco. Isto considerando a mar.
- Est concludo o trabalho de fotografia? - perguntou Weston.
- Sim, sir.
Weston voltou-Se para Redfern. - Muito bem, meu caro, onde  a entrada para a tal caverna?
Patrick Redfern estava ainda a olhar para o local da praia onde Lane estivera parado. Era como se 
continuasse a ver o corpo estendido que j no se encontrava l.
As palavras de Weston fizeram-no regressar  realidade.
-  ali adiante - disse.
Encaminhou-se para uma enorme massa de pedregulhos cados que se acumulavam contra a falsia, e 
aproximou-se de duas grandes rochas que, lado a lado, formavam uma estreita entrada.

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- o acesso  por aqui - anunciou.
- Aqui? - disse Weston. - No me parece que um homem consiga entrar a.
- o aspecto  enganador. Vai ver que  possvel.
Weston introduziu-se cuidadosamente no apertado espao. No era to estreito como parecia. L dentro o 
recinto alargava-se, permitindo que uma pessoa andasse de um lado para o outro sem precisar de se curvar 
Hercule Poirot e Stephen Lane entraram tambm. Os restantes ficaram no exterior. Penetrava alguma 
claridade pela abertura, mas Weston trouxera consigo uma potente lanterna cujo foco fez incidir nas 
paredes da caverna.
- Um local interessante - comentou. - L de fora ningum diria como isto  espaoso.
A seguir observou cuidadosamente o cho com o auxlio da lanterna. Hercule Poirot estava a aspirar 
delicadamente o ar.
Reparando nisto, Weston disse: - o ar  bastante fresco, sem cheiro a peixe ou a algas, mas isso  natural 
porque a caverna fica bastante afastada da linha da mar cheia.
Contudo, para o sensvel olfacto de Poirot o ar era mais do que fresco. Era delicadamente perfumado. 
Conhecia duas pessoas que usavam este esquivo aroma.
o foco da lanterna de Weston terminou por fim a sua busca.
- No vejo nada que possa interessar-nos - disse o coronel.
Os olhos de Poirot elevaram-se at uma pequena prateleira natural um pouco acima da sua cabea. 
Murmurou: - Talvez no fosse mauver se haver ali alguma coisa - murmurou.
- Se houvesse ali alguma coisa teria sido colocada l deliberadamente - disse Weston. - Mesmo assim,  
melhor darmos uma espreitadela.
Poirot dirigiu-se a Lane: - Creio que o senhor  o mais alto dos trs, monsieur. Sem pretender abusar, 
posso pedir-lhe para verificar se haver alguma coisa naquele rebordo?
Lane esticou-se, mas no conseguia atingir o fundo do rebordo. Depois, vendo uma fenda na parede de 
pedra, introduziu nela um p e elevou-se apoiando-se nos braos.
- Ol! Est aqui uma caixa - exclamou.

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Momentos depois estavam todos ao sol examinando o achado do clrigo.
- Cuidado - recomendou -, no convm mexer mais do que for necessrio. Talvez existam impresses 
digitais.
Era uma caixa de folha verde-escuro com a palavra Sanduches no topo.
- Talvez tenha sido deixada aqui depois de um piquenique - disse o sargento Phillips.
Abriu a caixa com um leno. No interior havia pequenas latas destinadas, a sal, pimenta e mostarda, e 
duas maiores, de formato quadrado, que deveriam ser usadas para as sanduches.
o sargento levantou a tampa do saleiro. Estava cheio at  borda. Retirou a tampa do outro recipiente.
-  curioso - comentou -, o pimenteiro tambm est cheio de sal. A mostardeira tambm continha sal.
Subitamente alerta, o sargento abriu em seguida uma das latas quadradas maiores. Tambm esta continha 
o mesmo p branco cristalino.
Com muito cuidado, Phillips tocou no p com a ponta de um dedo e levou-o  lngua.
A expresso do seu rosto modificou-se:
- Isto no  sal, meus senhores! - disse excitado. - Nem pensar! amargo! Parece-me ser alguma espcie de 
droga!
- A terceira hiptese - disse o coronel Weston com um lamento. Estavam de regresso ao hotel.
o chefe da polcia prosseguiu: - Se por acaso houver algum grupo de traficantes metido nisto, abrem-se-nos 
novas possibilidades. Primeiro que tudo, a Arlena  capaz de ter pertencido ao grupo. Acham que ser 
provvel? Hercule Poirot respondeu cautelosamente: -  possvel.
- Seria viciada?
Poirot abanou a cabea.
- Duvido muito - disse. - Tinha nervos firmes, uma sade radiosa.

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no exibia marcas de agulhas nos braos (se bem que isto nada prove, pois h quem aspire o p). No, 
no me parece que ela consumisse drogas.
- Nesse caso - disse Weston -, talvez tivesse esbarrado no caso por acidente, tendo sido deliberadamente 
silenciada pelos traficantes. Em breve saberemos de que droga se trata. j a enviei a Neasden. Se se tratar 
de uma rede de trfico, no so pessoas que estejam com meias medidas...
Calou-se quando a porta se abriu e Mr. Horace Blatt entrou de rompante. Vinha esbaforido, limpando o suor 
da testa. A sua voz possante e calorosa encheu a pequena sala.
- Cheguei agora mesmo e deram-me a notcia!  voc o chefe da polcia? Disseram-me que estava aqui. 
Chamo-me Blatt, Horace Blatt. H alguma coisa que possa fazer para ajudar? No me parece. Tenho 
andado no meu barco desde manh cedo. Perdi o espectculo todo. No nico dia em que acontece 
qualquer coisa neste fim do mundo, no estou c.  a vida, no ? Ol, Poirot, no o tinha visto. Ento 
tambm est metido nisto? Oh, j era de esperar... Sherlock Holmes versus polcia local, no ? Ah, ah! 
L'estrade... toda essa gente. Vou gostar de o ver na sua actividade detectivesca.
Mr. Blatt ancorou numa cadeira, tirou do bolso uma cigarreira e apresentou-a ao coronel Weston, que 
abanou a cabea.
- No troco o meu cachimbo por nada - disse com um ligeiro sorriso.
-  como eu. Tambm fumo cigarros, mas nada se compara ao cachimbo.
- Ento acenda o seu cachimbo, homem! - disse o coronel Weston, com inesperada jovialidade.
Blatt abanou a cabea.
- No o trago comigo. Mas contem-me tudo. At agora s sei que Mrs. Marshall foi encontrada morta numa 
das praias.
- Na Enseada do Duende - disse o coronel Weston, a observ-lo.
Mas Mr. Blatt apenas perguntou, excitadamente: - E foi estrangulada?
- Sim, Mr. Blatt.
- Srio, muito srio. Mas olhe, ela andava mesmo a pedi-las. Muito picante... trs moustarde, h, ,M. 
Poirot? j sabem quem foi o culpado, ou no devo perguntar?
Com um ligeiro sorriso o coronel Weston respondeu: - Bem, como sabe, ns  que devemos fazer as 
perguntas.

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Mr Blatt agitou o cigarro no ar. - Desculpem o abuso. Faam o favor.
- Esta manh saiu para velejar. A que horas?
- Sa daqui s dez menos um quarto.
- Ia algum consigo?
- Ningum. Ia sozinho.
- E onde foi?
- Segui a linha da costa na direco de Plymouth. Levei o almoo comigo. Como no est muito vento, no 
consegui ir longe.
Depois de mais duas ou trs perguntas, Weston inquiriu: - E a respeito dos Marshalls? Saber alguma 
coisa que possa ajudar-nos?
- Bem, j vos dei a minha opinio. Crimepassionnel! A nica coisa que posso dizer  que no fui eu! A bela 
Arlena no me ligava nenhuma. Nada a fazer sob esse aspecto. j tinha o seu rapazinho de olhos azuis. E 
se querem saber a minha opinio, Marshall comeava a dar pelo que se passava.
- Tem maneira de provar isso?
- Vi-o deitar ao jovem Redfern um olhar de dio por algumas vezes.  uma incgnita, aquele Marshall. 
Parece muito manso e tranquilo como se andasse a dormir... mas no  essa a sua fama nos meios 
financeiros. Tenho sabido umas coisas a seu respeito. Quase esteve para ser preso por agresso. Note-se 
que o sujeito em questo tinha-o vigarizado, traindo a confiana que Marshall depositava nele. o capito foi 
atrs do homem e quase o matou. o sujeito no apresentou queixa, pois receava o que poderia resultar da. 
Pelo menos foi o que me constou.
- Acha portanto possvel - perguntou Poirot - que o capito Marshall tenha estrangulado a mulher?
- Nem por sombras. No disse nada disso. S pretendo que saibam que ele seria bem capaz de perder a 
cabea, se o levassem a isso.
- Mr. Blatt - disse Poirot -, h motivos para crer que Mrs. Marshall foi esta manh  Enseada do Duende ao 
encontro de algum. Tem alguma ideia de quem poderia ter sido?
Mr. Blatt piscou o olho.
- No  uma suposio,  uma certeza: Redfern!
- No foi Mr. Redfern.
Mr Blatt pareceu surpreendido. - Nesse caso - disse hesitante -, no fao ideia... no, no posso 
imaginar...

134

Prosseguiu, recuperando um pouco da sua descontraco.
- Conforme j disse, no fui eu! No tive essa sorte. Deixem-me pensar, no podia ter sido Gardener, pois a 
mulher tem-no bem debaixo de olho. Aquele velho imbecil do Barry? Nem pensar! E o clrigo tambm no 
deve ser, ainda que por vrias vezes tenha visto Sua Reverncia a observ-la. Todo Santa desaprovao, 
mas talvez com olho para os contornos. H? Cambada de hipcritas, estes sacerdotecos! No leram sobre 
aquele caso o ms passado? o vigrio e a filha do curador! Faz-nos abrir os olhos...
Mr. Blatt deu uma risada.
- Ento no sabe de nada que possa ajudar-nos? - replicou o coronel Weston secamente.
o outro sacudiu a cabea.
- No, no me lembro de nada. - Depois acrescentou: - Isto vai provocar um bocado de rebulio, est-me a 
parecer. A imprensa vai cair em cima disto como moscas no mel. o hotel  que vai acabar por se ressentir, 
e  bem feito.
- No se tem sentido bem aqui? - murmurou Hercule Poirot. o rosto avermelhado de Mr. Blatt avermelhou-se 
um pouco mais.
- No - disse -, por acaso at no tenho. o mar  agradvel, e a paisagem e o servio e a comida, mas no 
h camaradagem nenhuma, se me fao entender! o meu dinheiro  to bom como o de qualquer outro. 
Estamos todos aqui para nos divertirmos. Nesse caso por que  que no nosjuntamos? Todos estes 
conluios e as pessoas sozinhas a darem uns bons-dias e boas-noites glaciais... e que sim, que o tempo 
est muito agradvel. No h alegria nenhuma. So todos uma cambada de emproados!
Mr. Blatt fez uma pausa, e agora apresentava-se mesmo vermelho. Limpou novamente a testa e disse a 
desculpar-se:
- No liguem. s vezes fico muito irritado.

- E que pensam de Mr Blatt? - Perguntou Hercule Poirot.
o coronel Weston sorriu e disse: - E voc, o que pensa? Conhece-o melhor do que eu.

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- H muitas expresses vossas que o descrevem - disse Poirot com suavidade. - o diamante em bruto! o 
autodidacta! o novo-rico! Pode ser considerado, dependendo do ponto de vista, pattico, grotesco, banal!  
uma questo de opinio. Contudo, parece-me que ele  ainda uma outra coisa.
- E o que ser essa coisa?
Hercule Poirot, de olhos no tecto, murmurou: - Acho que ele ...
nervoso!
- j tenho o problema dos tempos resolvido - informou o inspector Colgate. - Do hotel  escada que desce 
at  Enseada do Duende, trs minutos, isso caminhando normalmente at ficar fora do alcance visual do 
hotel, e correndo como um doido o resto do trajecto.
Weston levantou as sobrancelhas.
-  mais rpido do que pensava - disse.
- A descida da escada at  praia, um minuto e trs quartos. A subida leva dois minutos. Isso em relao 
ao guarda Flint, que  um atleta. caminhando e descendo a escada normalmente, o trajecto completo leva 
quase um quarto de hora.
Weston acenou.
- H um outro pormenor em que temos de pensar - disse -, a questo do cachimbo.
- Blatt usa cachimbo - interveio Colgate -, tal como Marshall e o clrigo. Redfern fuma cigarros, o americano 
prefere os charutos. o major Barry no fuma. H um cachimbo no quarto de Marshall ,dois no de Blatt, e 
um no do clrigo. A criada de quarto diz que Marshall tem dois cachimbos. A outra criada no  muito 
esperta, no sabe quantos cachimbos tm os outros dois, Diz vagamente que reparou em dois ou trs nos 
quartos deles. Weston anuiu.
- Mais alguma coisa?
- Estive a informar-me sobre o pessoal. Parece-me tudo correcto. Henry, do bar, confirma a declarao de 
Marshall quanto a t-lo visto s onze menos dez, William, o que toma conta da praia, esteve a reparar a 
escada

136

sobre as rochas junto do hotel durante quase toda a manh. George esteve a marcar os courts de tnis e 
depois foi cuidar das plantas da sala de jantar. Nenhum deles poderia ter visto quem atravessasse o ponto 
para se dirigir  ilha.
- A que horas ficou descoberto o ponto?
- Perto das nove e trinta, sir.
Weston afagou o bigode.
-  possvel que algum tivesse vindo por a. Temos uma nova hiptese a considerar, Colgate.
Relatou-lhe a descoberta da lata de sanduches na caverna.
Algum bateu  porta.
- Entre - disse Weston. Era o capito Marshal].
- Pode dizer-me que disposies poderei tomar quanto ao funeral?
- Penso que poderemos marcar o inqurito judicial para depois de amanh, capito Marshall.
- Obrigado.
o inspector Colgate interrompeu: - Desculpe. Permita-me que lhe devolva isto.
Entregou-lhe as trs cartas.
Kenet Marshall sorriu de um modo um tanto sarcstico.
- A polcia j concluiu o ensaio da minha velocidade a escrever  mquina? - perguntou. - Espero ter ficado 
ilibado.
- Sim, capito Marshall ,parece que podemos passar-lhe um boletim de sanidade - disse o coronel Weston 
em tom afvel. - Estas folhas levam bem uma hora a dactilografar. Por outro lado, ouviram-no a escrever  
mquina at s onze menos cinco, e uma outra testemunha viu-o vinte minutos depois.
- A srio? Ento tudo parece esclarecido - murmurou o capito Marshall.

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- Com efeito. Miss Darriley foi ao seu quarto s onze e vinte. o senhor estava to ocupado no seu trabalho 
que nem deu por ela.
o rosto de Kenet Marshall assumiu uma expresso impassvel.
- Miss Darriley disse isso? - comentou. - Pois bem, enganou-se. Na realidade vi-a, ainda que ela possa no 
ter dado por isso. Vi-a atravs do espelho.
- Mas no interrompeu o seu trabalho? - perguntou Poirot.
- No - explicou Marshall -, porque queria conclu-lo. - Calou-se um momento; ento, abruptamente, 
perguntou: - No precisam mais de mim?
- No, obrigado, capito Marshall. Kenneth Marshall acenou e saiu.
- Ali vai o nosso suspeito mais vivel - disse Weston com um suspiro completamente ilibado! Olhem, a vem 
Neasden.
o mdico entrou com um ar excitado.
- Rico pacotinho mortfero, aquele que me enviaram...
- o que ?
- o que ? Cloridrato de diamorfina, mais usualmente conhecido por herona!
o inspector Colgate soltou um assobio.
- Agora estamos a fazer progressos! Podem ter a certeza, isto da droga est na origem desta histria toda.

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CAPTULO DEZ

o pequeno grupo de pessoas saiu lentamente do Red BuIl. o curto inqurito terminara, ou melhor, ficara 
suspenso por duas semanas.
Rosamund Darriley aproximou-se de Kenneth Marshall.
- No foi muito difcil, pois no, Ken? - disse em voz baixa.
Ele no respondeu imediatamente. Talvez estivesse ciente dos olhares dos habitantes locais, dos dedos 
que pareciam apontar para ele, embora no chegassem realmente a faz-lo.
 aquele o tal, querida! Ests a ver, aquele era o marido dela! Escuta, aquele deve ser o marido...  
Olha, l vai ele!...
Os murmrios no eram suficientemente fortes para lhe chegarem aos ouvidos, mas mesmo assim sentia-
os. Isto era o pelourinho dos tempos modernos. j tinha sido obrigado a enfrentar a imprensa: jovens 
persuasivos e cheios de confiana em si prprios, prontos a derrubar a barreira do nada tenho a dizer que 
ele conseguira levantar. At os curtos monosslabos que pronunciara, convencido de que ao menos esses 
no iriam provocar falsas interpretaes, tinham reaparecido nos matutinos em contextos totalmente 
diferentes. Quando inquirido sobre se considerava que o mistrio da morte da esposa poderia ser explicado 
pela chegada  ilha de algum manaco homicida, o capito Marshall declarou... e assim por diante.
As mquinas fotogrficas no paravam de disparar. Ento, naquele momento, um clique bem seu 
conhecido chamou-lhe a ateno. Voltou-se, e um jovem sorridente agradeceu-lhe com um aceno, tendo 
batido a chapa que pretendia.
- o capito Marshall saindo do Red Bull aps o inqurito, acompanhado por uma pessoa amiga.. - 
murmurou Rosamund.
Marshall fez uma careta.
- No vale a pena, Ken! - acrescentou ela. - Tens de enfrentar a

139

situao. No me refiro s  morte da Arlena; refiro-me a toda a sordidez que ela suscita. Os olhares 
esbugalhados e as lnguas mexeriqueiras, as entrevistas idiotas na imprensa sensacionalista... e a melhor 
maneira de fazer frente a isto  achar graa! Diz-lhes todos os clichs imbecis que eles querem escutar e 
faz-lhes beicinho!
-  assim que os despachas? - perguntou Marshall.
- . - Rosamund fez uma pausa. - Bem sei que o teu estilo no  este, Preferes passar despercebido, ficar 
inflexivelmente em segundo plano e esperar que o problema se desvanea! Mas no caso presente isso no 
vai resultar, no existe nenhum segundo plano em que possas dissipar-te! Ests  vista de toda a gente, 
como um tigre de riscas contra um pano de fundo branco. o marido da mulher assassinada.
- Pelo amor de Deus, Rosamund...
Ela ripostou com suavidade: - Querido, estou a tentar ajudar-te! Deram alguns passos em silncio.
- Bem sei... desculpa - disse Marshall num outro tom. - No  que no te esteja grato, Rosamund.
Tinham j ultrapassado os limites da povoao, Alguns olhos continuavam a segui-los, mas j no havia 
ningum muito perto. A voz de Rosamund Darriley baixou ao repetir uma variante da sua anterior 
observao.
- No correu nada mal, pois no? Ele seguiu calado por uns instantes.
- No sei - disse ento.
- Qual  a opinio da polcia?
- Esses no querem comprometer-se.
- Aquele homenzinho - disse Rosamund um momento depois -, o tal Poirot, estar mesmo a interessar-se 
pelo assunto?
- No outro dia esteve sempre sentado mesmo ao lado do chefe da polcia.
- Bem sei... mas estar realmente a fazer alguma coisa?
- Como raio queres que eu saiba, Rosamund?
-  bastante velho - disse pensativa. - Provavelmente mais ou menos gag.
- Talvez.
Chegaram ao ponto.  frente deles, sob a tranquila luz do sol, erguia-se a ilha.
- Por vezes - disse Rosamund de repente - as coisas parecem irreais.

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Neste momento no me sinto capaz de acreditar que aquilo aconteceu realmente...
- Penso que sei ao que te referes - disse Marshall lentamente. - A natureza  to insensvel! uma formiga a 
menos: no passa disto, no que diz respeito  natureza!
- Tens razo... - disse Rosamund -, e  assim mesmo que devamos encarar o caso, realmente.
Ele lanou-lhe um olhar de relance.
- No te preocupes, minha amiga - disse em voz baixa. - Est tudo bem. Est tudo bem.
Linda veio at ao ponto, ao encontro deles. Movia-se com os saces espasmdicos de um potro nervoso. 
o seu rosto jovem estava desfigurado por profundas olheiras. Os lbios pareciam secos e rugosos.
- Como decorreu tudo? - perguntou esbaforida. - Que... o que disseram eles?
o pai respondeu-lhe, abrupto: - o inqurito foi suspenso por duas semanas.
- Quer dizer que... que ainda no decidiram?
- Sim. Precisam de mais provas.
- Mas... mas o que ser que eles pensam?
Marshall sorriu um pouco, ainda que contrariado.
- Oh, minha querida filha... quem sabe? E a quem te referes por eles? o magistrado local, os jurados, a 
polcia, os jornalistas, os pescadores da Baa de Leathercombe?
- Acho que me refiro...  polcia - disse Linda lentamente.
Marshall replicou com secura: - A polcia no revela a ningum aquilo que pensa. - Ao concluir a frase 
comprimiu os lbios. Depois entrou no hotel. Quando Rosamund Darriley estava prestes a segui-lo, Linda 
chamou: Rosamund!
Esta virou-se. A muda splica no rosto infeliz da rapariga comoveu-a. Enfiou o brao no de Linda e, juntas, 
afastaram-se do hotel, caminhando pelo carreiro que conduzia ao extremo da ilha.

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- Tenta no te preocupares tanto, Linda - disse Rosamund con suavidade. - Sei que o que se passa  
terrvel e chocante e tudo isso, mas... no vale a pena remoer nestas coisas. E  possvel que seja s... a 
maneira brutal como aquilo aconteceu que est a preocupar-te dessa forma. TU mo gostavas nada da 
Arlena, bem sabes.
Sentiu o tremor que invadia o corpo da rapariga enquanto respondia: No, no gostava nada dela...
Rosamund prosseguiu: - Sentir-se pena pela morte de uma pessoa  bem diferente; no podemos lanar 
isso para trs das costas. Mas pode ultrapassar-se o choque e o horror se no deixarmos a nossa mente 
repisar constantemente o sucedido.
- No est a compreender - replicou Linda com rispidez.
- Acho que estou, minha querida.
Linda abanou a cabea.
- No est, no. No est a compreender nada... e Christine tambm no compreende! Ambas tm sido 
muito simpticas comigo, mas no conseguem compreender o que estou a sentir. Pensam que  apenas 
morbidez, que estou sempre a pensar no que aconteceu sem que haja razo.
Calou-se.
- Mas no se trata de nada disso. Se soubessem o que eu sei...
Rosamund estacou. o seu corpo no tremeu; pelo contrrio, enrijeceu.
Ficou sem se mover por um momento, e a seguir libertou o brao de Linda.
- o que  que sabes, Linda? - perguntou.
A rapariga olhou-a fixamente. A seguir sacudiu a cabea.
- Nada - sussurrou.
Rosamund agarrou-a por um brao. Apertou-o com fora e Linda retraiu-se um pouco.
- Tem cuidado, Linda.Tem muito cuidado - recomendou Rosamund.
Linda tinha empalidecido.
- Sou sempre cuidadosa - disse. - Sempre.
Rosamund prosseguiu, insistente: - Escuta, Linda, o que te disse h uns minutos continua a aplicar-se, s 
que agora com muito mais razo. Esquece por completo o que se passou. Nunca mais penses nisso. 
Esquece... esquece... Vais ver que podes, se te esforares! Arlena est morta e nada poder traz-la de 
volta... Esquece tudo e pensa no futuro. E, acima de tudo, toma cuidado com o que dizes.

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Linda encolheu-se ligeiramente.
- A senhora... parece que j sabe tudo - disse.
- No sei nada! - replicou Rosamund com energia. - Na minha opinio, um manaco qualquer veio  ilha e 
matou a Arlena.  essa a soluo mais provvel. Estou quase certa de que a polcia ter de acabar por 
aceitar essa explicao.  o que deve ter acontecido!  o que aconteceu realmente!
- Se o meu pai... - comeou Linda.
Rosamund interrompeu-a. - No fales mais no assunto.
- Mas tenho de dizer uma coisa - insistiu a jovem. - A minha me...
- o que tem?
- Ela... ela foi julgada por homicdio, no foi?
- Sim.
- E depois o meu pai casou-se com ela - disse Linda, pausadamente. Isso  capaz de dar a ideia de que o 
meu pai no acha realmente que o homicdio seja uma coisa muito importante... em todos os casos, pelo 
menos.
Rosamund respondeu com modos rspidos: - Nunca digas uma coisa dessas... nem mesmo a mim! A 
polcia no tem nada contra o teu pai. Ele possui um libi... um libi que no pode ser destrudo. Est 
completamente ilibado.
- Mas ao princpio eles pensavam que o meu pai... ? - sussurrou Linda.
Rosamund gritou: - Sei l o que eles pensavam! Mas agora sabem que ele no poderia ter feito aquilo. 
Ests a entender? NoPoderia ter feito aquilo!
Falava com autoridade, e os seus olhos exigiam a concordncia de Linda. A rapariga soltou um suspiro 
longo e alvoroado.
- Vais poder ir-te embora daqui dentro em breve - prosseguiu Rosamund. - Acabars por esquecer tudo... 
tudo!
Linda explodiu com inesperada violncia: - Nunca hei-de esquecer! Deu meia-volta e regressou a correr ao 
hotel. Rosamund ficou a olhar para ela.

- H uma coisa que quero saber, madame.
Christine Redfern olhou para Poirot com uma expresso ligeiramente abstracta.

143

- Sim? - disse.
Hercule Poirot mal reparou na distraco dela. Tinha estado a observar o modo como os seus olhos 
seguiam o marido enquanto este andava de um lado para o outro no terrao em frente ao bar, mas de 
momento no estava interessado em problemas puramente conjugais. Queria informaes.
- Sim, madame - prosseguiu. - Foi uma frase... uma frase sua fortuita que no outro dia despertou a minha 
ateno.
- Sim? - disse Christine, ainda de olhos postos em Patrick - o que foi que eu disse?
- Era em resposta a uma pergunta formulada pelo chefe da polcia. A senhora esteve a descrever a sua ida 
ao quarto de Miss Linda Marshall na manh do crime e como deu pela sua ausncia, tendo ela regressado 
pouco depois; foi ento que o chefe da polcia lhe perguntou onde  que ela tinha estado.
- E eu respondi que ela tinha ido  praia tomar banho - concluiu Christine com impacincia. - Foi isso?
- Ah, mas no foi bem isso que disse... No disse que ela tinha ido banhar-se. As suas Palavras foram: 
Ela disse que tinha ido  praia tomar banho.
-  o mesmo - comentou Christine.
- No, no  nada o mesmo! A forma da resposta sugere uma certa atitude mental da sua parte. A Linda 
Marshall entrou no quarto; vinha envolta num roupo de banho, e mesmo assim, por qualquer razo, a 
senhora no presumiu imediatamente que ela tivesse estado a tomar banho.  o que se depreende das 
suas palavras: ela disse que tinha ido  praia tomar banho. Que haveria na aparncia dela (talvez o seu 
aspecto, ou algo no que ela vestia, ou qualquer coisa que tivesse dito) que a levou a ficar surpreendida 
quando ela lhe disse que tinha ido tomar banho?
A ateno de Christine largou Patrick para se fixar inteiramente em Poirot. Sentia-se interessada.
- A est uma deduo interessante... - disse. -  verdade, agora me recordo... Fiquei realmente um pouco 
surpreendida quando a Linda disse que tinha ido tomar banho.
- Mas porqu, madame, porqu?
- Sim, porqu...  disso que estou a tentar lembrar-me. Ah, sim, creio que foi por causa do embrulho que 
ela trazia na mo.

144

- Ela trazia um embrulho?
- Trazia, sim.
- Mas no sabe o que vinha nele?
- Por acaso sei, porque o cordel rebentou. Era um embrulho mal-amanhado, como eles costumam fazer na 
loja da aldeia. Continha velas... Ficaram todas espalhadas no soalho. Eu prpria ajudei-a a apanh-las.
- Ah! - disse Poirot. - Velas.
Christine olhou-o admirada.
- Parece agitado, M. Poirot - disse.
- Ela explicou-lhe por que tinha ido comprar velas? - perguntou-lhe ele. Christine pensou um pouco.
- No, acho que no. Talvez fosse para ler durante a noite... possivelmente por a luz elctrica no ser 
apropriada.
- Pelo contrrio, madame, havia um candeeiro em perfeito estado sobre a mesa-de-cabeceira.
- Nesse caso no sei para que as queria - afirmou Christine.
- Qual foi a reaco dela, quando o cordel rebentou e as velas se espalharam pelo cho? - perguntou Poirot.
- Ficou... transtornada... embaraada - disse Christine lentamente. Poirot fez um aceno.
- Reparou se haveria um calendrio no quarto de Linda? - perguntou a seguir.
- Um calendrio? Que gnero de calendrio?
- Possivelmente verde - explicou Poirot -, daqueles com folhas de arrancar.
Christine semicerrou os olhos, tentando avivar a memria.
- Um calendrio verde... sim, de um verde brilhante. Lembro-me de ter visto de facto um calendrio desse 
gnero. mas no consigo lembrar-me onde. Talvez no quarto de Linda, mas no estou certa.
- Mas tem a certeza de o ter visto?
- Tenho.
Uma vez mais, Poirot acenou com a cabea.
- o que estar a querer sugerir, M. Poirot? - Perguntou Christine, de forma um tanto incisiva. - Que significa 
tudo isto?
Como resposta, Poirot mostrou-lhe um pequeno volume encadernado em carneira castanha desbotada.

145

- j tinha visto este livro?
- Ora essa... acho que... no tenho a certeza... sim, a Linda estava a folhe-lo no outro dia na biblioteca da 
aldeia. Mas fechou-o e arrumou-o depressa, quando me aproximei. At me fez pensar no que seria...
Sem uma palavra, Poirot mostrou-lhe o ttulo: Tratado de Feitiaria, Bruxaria e Mistura de Venenos 
Indetectveis.
- No compreendo - exclamou Christine. - Que querer tudo isto significar?
- Poder significar muito, madame - disse Poirot gravemente.
Ela olhou-o com curiosidade, mas Poirot no adiantou mais. Em vez disso, prosseguiu: - S mais uma 
pergunta, madame. Por acaso tomou banho naquela manh, antes de ir jogar tnis?
Christine voltou a olh-lo fixamente.
- Banho? No. No teria tempo, e alm disso no queria tomar banho antes de jogar tnis. Depois de jogar, 
talvez.
- Serviu-se de casa de banho quando entrou?
- Lavei a cara e as mos, nada mais.
- Portanto, no utilizou a banheira?
- No, estou certa disso.
Poirot acenou outra vez.
- No tem importncia.
Hercule Poirot parou junto da mesa onde Mrs. Gardener travava combate com um puzzle. Ela levantou os 
olhos e deu um salto.
- Ora essa, M. Poirot, veio muito sorrateiro! No o ouvi! Acaba de regressar do inqurito? Sabe, s de 
pensar nisso fico cheia de nervos. No sei o que fazer. Foi por isso que me dediquei a este jogo. No 
estava com disposio para me sentar na praia, como habitualmente. Como Mr. Gardener sabe, quando 
fico cheia de nervos no h nada como um destes puzzles para me acalmar. Ora bem, onde ser que 
posso encaixar esta pea branca? Deve fazer parte do tapete, mas no estou a ver como...
Delicadamente, a mo de Poirot retirou-lhe a pea.
- Encaixa aqui, madame - disse ele. - Faz parte do gato.

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- No pode ser. o gato  preto.
- o gato  preto, sim, mas pode ver aqui a ponta da cauda do gato preto, que por acaso  branca.
- Ah! Pois ... o senhor  muito esperto! Mas acho que as pessoas que fabricam estes jogos so muito 
maldosas. Fazem todos os possveis para nos enganarem.
Encaixou mais uma pea, e depois prosseguiu:
- Sabe, M. Poirot, ultimamente tenho andado a observ-lo. S queria v-lo no seu trabalho de detective, se 
 que me entende, ainda que possa parecer uma crueldade estar a falar assim, como se tudo se tratasse 
dum jogo... quando uma pobre criatura faleceu. Deus meu, sempre que penso naquilo d-me um arrepio! 
Disse esta manh a Mr. Gardener que tenho mesmo de me ir embora daqui e, agora que o inqurito 
terminou, ele pensa que poderemos partir amanh, o que  uma bno. Mas voltando ao seu trabalho de 
detective: muito gostaria de conhecer os seus mtodos... Sabe, seria para mim um grande privilgio se 
pudesse explicar-mos.
-  um pouco como o seu jogo de pacincia, madame - disse Poirot.
- Vamos juntando as peas. Como num mosaico: muitas cores e padres... e cada uma das pequenas 
peas tem de ser encaixada precisamente no seu lugar.
- Isso  muito interessante. o senhor explica-se muito bem.
Poirot prosseguiu: - E por vezes acontece como com aquela pea do seu puzzle. Organizam-se as peas 
todas com todo o cuidado, separam-se as cores, e depois pode suceder que a pea de uma dada cor, que 
deveria aplicar-se, por exemplo, no tapete branco, afinal se encaixe na cauda de um gato preto.
- Ah, como isso parece fascinante! E so muitas as peas, M. Poirot?
- Sim, madame. Quase todas as pessoas que se encontram neste hotel forneceram-me uma pea para o 
meu puzzle. A senhora  uma delas.
- Eu? - A voz de Mrs. Gardener parecia emocionada.
- Com efeito. Uma observao sua, madame, foi-me extremamente til. Posso at afirmar que foi 
esclarecedora.
- Ora, ora, que maravilha! No poder dizer-me mais alguma coisa, M. Poirot?
- Ah, estou a reservar as explicaes para o ltimo captulo, madame.
- Mas que pena! - murmurou Mrs. Gardener.

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Hercule Poirot bateu suavemente na porta do quarto do capito Marshall. Do interior vinha o som de uma 
mquina de escrever. Escutou um brusco Entre!, e abriu a porta.
o capito Marshall estava de costas voltadas para ele. Escrevia  mquina, sentado  mesa situada entre 
as duas janelas. No voltou a cabea, mas os seus olhos encontraram-se com os de Poirot atravs do 
espelho pendurado na parede mesmo  sua frente.
- Bem, M. Poirot, que se passa? - disse com irritao.
Poirot respondeu prontamente: - Mil desculpas pela interrupo. Est muito ocupado?
- Um bocado - replicou Marshall com secura.
-  s uma pergunta que gostaria de lhe fazer - disse Poirot.
- Santo Deus, estou farto de responder a perguntas - ripostou Marshall. - Respondi a todas as perguntas 
que a polcia me fez. No me sinto obrigado a responder s suas.
- Mas a minha pergunta  muito simples - disse Poirot. -  apenas isto: na manh da morte da sua esposa, 
teria o senhor tomado banho depois de acabar o seu trabalho e antes de descer para jogar tnis?
- Se tomei banho? Claro que no, tinha tomado banho uma hora antes!
- Muito obrigado - disse Hercule Poirot. -  tudo.
- Mas oua l. Oh... - Marshall parou, hesitante. Poirot retirou-se, fechando a porta atrs de si.
- o sujeito  doido! - comentou Kenet Marshall.
 sada do bar, Poirot encontrou Mr. Gardener. Transportava dois cocktails e ia claramente a dirigir-se para 
o local onde Mrs. Gardener se instalara com o seu PUZZLE.
- Quer fazer-nos companhia, Poirot? - disse, sorridente. Poirot abanou a cabea.
- Que pensa do inqurito, Mr. Gardener? - perguntou. Este baixou o tom de voz.

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- Pareceu-me inconclusivo - disse. - A vossa polcia, segundo depreendo, deve ter algum trunfo na manga.
-  possvel - replicou Hercule Poirot.
Mr. Gardener baixou a voz ainda mais. - S fico satisfeito quando conseguir levar Mrs. Gardener para fora 
daqui. Ela  muito, muito sensvel, e este assunto tem-lhe complicado com os nervos.  muito emotiva.
- Mr. Gardener, permite-me que lhe faa uma pergunta? - disse Poirot.
- Ora, certamente, M. Poirot. Tenho muito gosto em lhe ser til de alguma forma.
- o senhor  um homem muito vivido - declarou Poirot -, um homem, creio, de considervel perspiccia. 
Diga-me com franqueza: qual era a sua opinio a respeito da falecida Mrs. Marshall?
As sobrancelhas de Mr. Gardener levantaram-se com a surpresa. Olhou cautelosamente em redor e 
sussurrou: - Bem, M. Poirot, tenho escutado umas coisas que se dizem por a, se me fao entender, 
especialmente entre as mulheres. - Poirot fez um aceno. - Mas, j que me pergunta, a minha sincera 
opinio  que aquela mulher era uma perfeita imbecil!
- Ora a est uma opinio interessante - comentou Poirot, pensativo.

- Ento  agora a minha vez, no ? - perguntou Rosamund Darriley.
- Perdo?
Ela riu-se.
- No outro dia o chefe da polcia fez o seu interrogatrio. o senhor limitou-se a assistir Hoje, parece-me, 
anda a fazer o seu prprio interrogatrio no-oficial. Tenho andado a observ-lo. Primeiro Mrs. Redfern, 
depois vi-o atravs da janela da sala de estar, onde Mrs. Gardener anda s voltas com o seu odioso puzzle. 
Agora  a minha vez.
Hercule Poirot sentou-se ao lado dela. Encontravam-se no Terrao do Sol. Abaixo deles, o mar estendia-se 
num tom intenso de verde. Mais para longe, transformava-se num encandeante azul-plido.
- Mademoiselle  muito inteligente - comentou Poirot. - Foi sempre essa a minha opinio, desde que 
cheguei aqui. Seria um prazer discutir este assunto consigo.

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- Quer saber o que penso de tudo isto? - perguntou Rosamund suavemente.
- Seria muito interessante.
- Acho que  realmente simples - afirmou Rosamund. - A chave est no passado da mulher.
- No passado? No no presente?
- Oh, no necessariamente no passado longnquo.  assim que encaro o assunto: Arlena Marshall era 
atraente, fatalmente atraente, para os homens.  possvel, parece-me, que tambm se fartasse depressa 
deles. Entre os seus... admiradores, digamos... houve um que no gostou de ser tratado dessa forma. Oh, 
no me interprete mal, no ser algum que salte  vista. Provavelmente algum homenzinho 
desinteressante, vaidoso e susceptvel, o gnero de homem cismtico. Penso que a seguiu at aqui, 
aguardou a sua oportunidade, e matou-a.
- Quer dizer que ter sido um estranho, vindo de fora?
- Sim.  capaz de se ter escondido naquela caverna at surgir a ocasio favorvel.
Hercule Poirot abanou a cabea.
- Acha que ela iria encontrar-se com um homem como o que descreveu? - disse. - No, limitar-se-ia a rir-se 
e a ignor-lo.
Rosamund insistiu: - Talvez no soubesse que iria encontr-lo. o homem poderia ter-lhe mandado um 
recado em nome de outra pessoa.
- Isso  possvel - murmurou Poirot. - Depois disse: - Mas est a esquecer-se de uma coisa, mademoiselle. 
Um homem decidido a cometer um homicdio no se arriscaria a atravessar o ponto em pleno dia e passar 
junto do hotel. Algum poderia v-lo.
-  provvel que algum pudesse v-lo, mas no me parece que isso seja garantido. Penso que  bastante 
possvel que ele tivesse chegado sem ningum reparar.
- Seria possvel, sim, nesse ponto tem razo. Mas o facto  que ele no poderia contar com essa 
possibilidade.
- No estar a esquecer-se de alguma coisa? - disse Rosamund. - o tempo que fez.
- o tempo que fez?
- Sim! o dia do crime foi um dia lindo, mas no dia anterior, lembre-se, choveu e estava uma neblina 
espessa. Qualquer pessoa poderia ento ter

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chegado  ilha sem ser visto. Bastava-lhe descer a praia e passar a noite na caverna. Aquela neblina, M. 
Poirot,  importante.
Por uns momentos, Poirot olhou Pensativamente para ela.
- Sabe, o que acaba de referir tem muito que se lhe diga.
Rosamund corou.
- Ao menos  essa a minha teoria - disse. - Agora conte-me a sua.
- Ah! - fez Poirot, e ps-se a olhar para o mar. - Eh bien, mademoiselle. Sou uma pessoa muito simples. 
Estou sempre inclinado a crer que quem comete um crime  a pessoa que mais condies rene para o 
fazer. Logo desde o princpio pareceu-me haver uma pessoa para quem os indcios mais apontavam.
A voz de Rosamund endureceu um pouco.
- Continue... - disse.
Hercule Poirot continuou: - Mas surgiu um obstculo no caminho! Parecia ser impossvel aquela pessoa ter 
cometido o crime.
Escutou o ritmo acelerado da respirao dela.
- E depois? - perguntou Rosamund, quase ofegante. Hercule Poirot encolheu os ombros.
- Bem, que poderemos fazer?  esse o meu problema. - Fez uma pausa e prosseguiu: - Posso perguntar-
lhe uma coisa?
- Certamente.
Rosamund ficou a olhar para ele, atenta e vigilante. Mas a pergunta que surgiu foi inesperada.
- Quando voltou ao hotel naquela manh, para vestir a roupa de tnis, tomou banho?
Rosamund olhou-o espantada.
- Se tomei banho? o que quer dizer com isso?
- Isso, precisamente. Se tomou banho. H aquele receptculo de porcelana, abre-se a torneira at encher, 
entra-se na gua, sai-se, e glu, glu, glu, a gua escorre para o esgoto!
- M. Poirot, estar por acaso doido?
- No, estou extremamente so.
- Bem, seja como for. No, no tomei banho nenhum.
- Ah! - exclamou Poirot. - Portanto ningum tomou banho. Isto  extremamente interessante.
- Mas por que  que algum devia ter tomado banho?

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- Porqu, realmente? - disse Hercule Poirot.
- Presumo que isso deve ser o toque  Sherlock Holmes - disse Rosamund, um pouco exasperada.
Poirot sorriu; depois aspirou delicadamente o ar.
- Permite-me que seja impertinente, mademoiselle?
- Estou certa de que no saber ser impertinente, M. Poirot.
-  muito amvel. Nesse caso, atrevo-me a dizer que o perfume que usa  delicioso... tem uma nuance... 
um suave e elusivo encanto. - Agitou as mos no ar, e depois acrescentou, numa voz normal: - Gabrielle 
N?8, talvez?
-  muito arguto. Tem razo,  o que uso sempre.
- Tal como a falecida Mrs. Marshall. chique, no ? E muito caro?
Rosamund encolheu os ombros com um ligeiro sorriso.
- Na manh do crime, mademoiselle esteve sentada aqui, onde agora nos encontramos - comentou Poirot. - 
Miss Brewster e Mr. Redfern viram-na, ou pelo menos viram o seu chapu-de-sol, ao passarem l em baixo 
no barco a remos. Tem a certeza, mademoiselle, de que na mesma manh no foi  Enseada do Duende, 
entrando na caverna l existente, a famosa caverna do Duende?
Rosamund virou a cabea e fixou-o intensamente.
- Est a perguntar-me se matei Arlena Marshall? - disse em voz baixa.
- No, estou a perguntar-lhe se foi  caverna da Enseada do Duende.
- Nem sequer sei onde isso . Para que haveria de ir l? Por que razo?
- No dia do crime, mademoiselle, esteve l algum que usava Gabrielle, N? 8.
- o senhor mesmo afirmou ainda agora, M. Poirot, que Arlena Marshall usava Gabrielle N? 8. Nesse dia ela 
esteve l na praia. Possivelmente foi ela quem entrou na caverna.
- Para que iria ela entrar na caverna? - perguntou Poirot. -  escura e estreita, e muito desconfortvel.
- No me pea razes - retorquiu Rosamund, impaciente. - Se ela estava na praia,  de longe quem mais 
probabilidades tinha de entrar na caverna. J lhe disse que nunca sa deste local durante toda aquela 
manh.
- Excepto quando voltou ao hotel, dirigindo-se ao quarto do capito Marshall - recordou Poirot.
- Sim., tem razo. j me tinha esquecido.

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- E estava enganada, mademoiselle - prosseguiu Poirot -, ao pensar que o capito no a tinha visto.
- o Kenneth viu-me? - disse Rosamund, incrdula. - Foi... foi ele quem lho disse?
Poirot confirmou com um aceno. - Pois viu, mademoiselle, atravs do espelho pendurado em frente da 
mesa.
Rosamund suspendeu a respirao.
- Oh, j percebo!
Poirot j no estava a olhar para o mar; olhava para as mos de Rosamund Darriley, descansando 
entrelaadas no regao. Eram mos bem consttudas, extraordinariamente bem moldadas e com dedos 
muito compridos.
Ao olh-lo de relance, Rosamund reparou que ele estava a observar-lhe as mos.
- Para que est a olhar-me para as mos? - disse, incisiva. - Estar a imaginar... estar a imaginar...
- Estarei a imaginar... o qu, mademoiselle?
- Nada - respondeu Rosamund Darriley.
Foi talvez uma hora mais tarde que Hercule Poirot alcanou o topo do carreiro que ia dar  Enseada da 
Gaivota. Estava algum sentado na praia. Uma figura franzina, de camisola vermelha e cales azuis-
escuros.
Poirot desceu o carreiro, com passos cautelosos nos seus sapatos elegantes e muito justos.
Linda Marshall rodou subitamente a cabea. Pareceu a Poirot que ela se encolhera um pouco.
Os seus olhos, enquanto ele se aproximava para se sentar com todo o cuidado nos seixos ao lado dela, 
no o largaram por um instante, com a expresso de suspeita e vigilncia de um animal encurralado. Poirot 
notou, com angstia, como ela parecia imatura e vulnervel.
- o que ? o que pretende? - perguntou Linda. Hercule Poirot no respondeu por uns momentos.
- No outro dia, a menina disse ao chefe da polcia que simpatizava com a sua madrasta, e que esta a 
tratava bem.
- E da?
- Isso no era verdade, pois no, mademoiselle?

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- Era, pois!
- Talvez no fosse activamente perversa, isso posso aceitar - comentou Poirot. - Mas voc no simpatizava 
com ela, oh, no, acho at que a detestava. Toda a gente podia ver isso.
- Talvez no gostasse muito dela - admitiu Linda. - Mas no devemos falar mal de uma pessoa que j 
morreu. No seria correcto.
Poirot suspirou.
- Ensinaram-lhe isso na escola? - disse.
- Mais ou menos, acho eu.
- Mas quando essa pessoa foi assassinada, torna-se mais importante ser-se verdadeiro do que ser-se 
correcto.
- Acho que era de esperar que dissesse isso - disse Linda.
- Era de esperar que dissesse e digo mesmo. A minha obrigao, como sabe,  descobrir quem 
assassinou Arlena Marshall.
Linda resmungou: - Quero esquecer tudo aquilo!  to horrvel.
- Mas no consegue esquecer pois no? - disse Poirot com suavidade.
- Ela deve ter sido assassinada por algum louco...
- No, no me parece ter sido nada disso - murmurou Hercule Poirot. Linda susteve a respirao.
- Fala como se... soubesse... - disse.
- Talvez saiba - disse Poirot. - Fez uma pausa e depois prosseguiu: Confiar em mim, minha filha, para 
fazer tudo o que puder por si neste problema to difcil?
Linda levantou-se de um salto. - No tenho problema nenhum. No h nada que possa fazer por mim. Nem 
sei ao que est a referir-se!
Poirot observou-a cuidadosamente.
- Estou a referir-me a velas... - disse.
Viu o terror estampado nos olhos da rapariga.
- No quero ouvir o que est a dizer - gritou ela. - mo quero ouvir mais!
Atravessou a praia a correr, veloz como uma jovem gazela, e comeou a subir o carreiro em ziguezague.
Poirot abanou a cabea. Tinha um ar solene e perturbado.

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CAPTULO ONZE

o inspector Colgate estava a apresentar o seu relatrio ao chefe da polcia.
- Descobri uma coisa, sir, e  sensacional. Diz respeito ao dinheiro de Mrs. Marshall. Estive a falar com os 
advogados dela. Acho que deve ter sido um choque para eles. Tenho provas da histria da chantagem. 
Lembra-se de ela ter herdado cinquenta mil libras do velho Erskine? Pois bem, tudo o que resta no passa 
de umas quinze mil.
o chefe da polcia soltou um assobio.
- o que ter acontecido ao restante?
- Essa  que  a parte interessante. De tempos a tempos ela vendia coisas e exigia sempre o pagamento 
em dinheiro ou em ttulos e valores negociveis, o que significa que entregava o dinheiro a algum que ela 
no queria que fosse localizado. Chantagem, est-se mesmo a ver.
o chefe da polcia concordou com um aceno.
- Assim parece, pelo menos. E o chantagista encontra-se aqui no hotel. Isso significa que tem de ser um 
destes trs homens. Descobriu alguma coisa de novo a respeito deles?
- No posso afirmar que seja uma coisa concreta, sir. o major Barry  reformado do Exrcito, conforme 
declarou. Vive num pequeno apartamento, tem a sua penso de reforma e ainda um pequeno rendimento de 
alguns investimentos. Contudo, durante o ltimo ano depositou na sua conta algumas verbas bastante 
considerveis.
- Isso parece interessante. Que explicao apresentou?
- Diz que so ganhos do jogo.  um facto que vai a todas as corridas de cavalos mais importantes. Alm 
disso, faz sempre as apostas em dinheiro, no tem conta-corrente.
o chefe da polcia acenou.

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- Isso pode no significar nada - disse -, mas tem o seu interesse. Colgate prosseguiu: - A seguir, o 
reverendo Stephen Lane. Ele  mesmo bonafide, foi vigrio em St. Helens, Whiteridge, Surrey; reformou-se 
h pouco mais de um ano com problemas de sade. Esses problemas levaram-no a ser internado numa 
casa de repouso para doentes mentais, onde passou quase um ano.
- Interessante - disse Weston.
- Sim, sir. Tentei extrair tudo o que foi possvel do mdico encarregado do caso, mas sabe como estes 
sujeitos so:  difcil arrancar-lhes qualquer coisa a que possamos agarrar-nos. Mas, segundo depreendi, o 
problema de sua reverncia era uma obsesso a respeito do diabo, especialmente do diabo disfarado de 
mulher... a Mulher Escarlate... a prostituta da Babilnia...
- Hum... - disse Weston. - Tm havido precedentes para o homicdio nesse campo.
- Sim, sir. Parece-me que Stephen Lane  no mnimo uma possibilidade. A falecida Mrs. Marshall era um 
excelente exemplo daquilo a que um clrigo poderia chamar a Mulher Escarlate: o cabelo, e as actividades, 
e tudo o mais. Parece-me no ser de todo impossvel que ele tivesse achado ser seu dever despach-la 
para o outro mundo. Isto se ele  mesmo doido.
- No h nada que se ajuste  teoria da chantagem?
- No, nada, e acho que podemos p-lo de parte no que diz respeito a isso. Tem alguns rendimentos 
prprios, mas no muitos, e no se registaram sbitas receitas nos ltimos tempos.
- E quanto ao que ele afirmou terem sido os seus movimentos no dia do crime?
- No consegui obter qualquer confirmao. Ningum se lembra de ter encontrado um eclesistico nas 
veredas. Quanto ao livro de visitantes da igreja, o ltimo registo tinha sido feito trs dias antes e ningum se 
lembrava de o ter consultado durante a ltima quinzena. Ele poderia facilmente ter ido l no dia anterior, ou 
mesmo dois dias antes, e marcado a sua visita com a data de 25.
Weston fez um aceno.
- E no que diz respeito ao terceiro homem? - perguntou.
- Horace Blatt? Na minha opinio, sir, h ali qualquer coisa que cheira a

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esturro. Paga imposto de rendimento em relao a uma verba que excede em muito o que ganha com o 
seu negcio de ferramentas. E, note bem,  um sujeito manhoso. Era bem capaz de alinhavar uma 
contabilidade aparentemente impecvel, joga um bocado na Bolsa, e sabe-se que participou em alguns 
negcios escuros.  possvel que tenha uma explicao plausvel, mas a verdade  que desde h alguns 
anos tem recebido verbas importantes de fontes no esclarecidas.
- Pensa ento que Mr Horace Blatt pode ser um chantagista de carreira? - disse Weston.
- Ou isso, ou negoceia em droga. Falei com o inspector-chefe Ridgeway, que  quem coordena os 
Narcticos, e ele ficou entusiasmado. Parece que ultimamente tm chegado muitos carregamentos de 
herona. Os distribuidores mais pequenos so conhecidos, e sabe-se mais ou menos de onde a droga vem, 
mas o que no sabem  como ela entra no pas.
- Se a morte da Marshall - disse Weston -  resultante de ela se ter envolvido, inocentemente ou no, com 
os traficantes, ento ser melhor passarmos isto tudo para a Scotland Yard. o problema  deles. o que 
acha, h?
o inspector Colgate anuiu, com uma expresso de pesar. -  capaz de ter razo, sir Tratando-se de droga, 
o caso  da alada da Yard.
Depois de pensar durante alguns momentos, Weston disse: - Essa parece-me ser realmente a explicao 
mais plausvel.
Colgate confirmou, taciturno: - Assim , com efeito. Marshall est de fora... apesar de eu ter obtido uma 
informao que talvez fosse til se o libi dele no fosse to bom. Parece que a empresa dele est prestes 
a falir. No  por culpa dele ou do scio, apenas consequncia da crise do ano passado e do estado geral 
do comrcio e da finana. Ele julgava que ia receber cinquenta mil libras do legado da mulher. E cinquenta 
mil libras poderiam ser-lhe bastante teis.
Suspirou.
-  uma pena que, quando um homem tem dois excelentes motivos para ser o culpado de um crime, 
consiga provar que nada teve a ver com o sucedido!
Weston sorriu.
- Alegre-se, Colgate. Ainda h uma hiptese de nos distinguirmos. Temos o caso da chantagem e temos o 
clrigo xex, mas na minha opinio a

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hiptese da droga  a mais vivel. E se quem a matou foi um dos elementos da quadrilha de traficantes, 
ningum poder negar que colabormos com a Scotland Yard para a soluo do caso. Na realidade, 
qualquer que seja o ponto de vista, no nos comportmos nada mal.
Um sorriso pouco convincente surgiu no rosto de Colgate.
- Bem, sir, e  tudo - disse. - J agora, fui informar-me a respeito do autor da carta que encontrmos no 
quarto dela, aquele que assinou J.N. Nada feito. Foi mesmo para a China.  o mesmo sujeito de quem 
Miss Brewster nos falou.  um malandrete. Investiguei tambm as outras amizades de Mrs. Marshall, e no 
encontrei nada digno de nota.Tudo o que havia para saber, j sabemos.
- Portanto, agora depende de ns - disse Weston. Fez uma pausa e depois acrescentou: - Tem visto o 
nosso colega belga? Ele j est a par daquilo que me contou?
-  um tipo esquisito, no acha? - disse com um risinho. - Sabe o que ele me pediu anteontem? Queria 
detalhes de quaisquer casos de estrangulamento ocorridos nos ltimos trs anos.
o coronel Weston endireitou-se na cadeira.
- Ah sim? Para que seria?... - Calou-se por um instante. - Quando foi que disse que o reverendo Stephen 
Lane tinha sido internado?
- Fez um ano na Pscoa, sir.
o coronel Weston ficou imerso nos seus pensamentos.
- Houve um caso... - disse - o corpo de uma jovem descoberto algures nas proximidades de Bagshot. Ia 
encontrar-se com o marido no sei onde e nunca apareceu. E houve tambm aquilo a que os jornais 
chamaram o Caso do Bosque Isolado. Ambos no Surrey, se bem me recordo. - Os olhos de Weston 
fixaram-se nos do seu inspector.
- Cos diabos! - exclamou Colgate. - No Surrey Parece que se ajusta, no ? Ser que...

Hercule Poirot estava sentado no cho relvado no ponto mais alto da ilha. Um pouco  esquerda situava-se 
o incio da escada de ferro que

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conduzia  Enseada do Duende. Prximo da escada havia diversos pedregulhos irregulares, notou ele, que 
assegurariam um esconderijo fcil para quem pretendesse descer at  praia. Dali do topo mal se via a 
praia, devido  salincia da falsia.
Hercule Poirot acenou com gravidade.
As vrias peas do seu puzzle iam-se ajustando nos seus lugares. Reviu mentalmente essas peas, 
considerando-as uma a uma.
A manh passada na praia, alguns dias antes da morte de Arlena Marshall.
Um, dois, trs, quatro, cinco comentrios escutados nessa mesma manh.
o sero do jogo de bridge.  mesa tinham estado ele, Patrick Redfern e Rosamund Darriley. Christine 
afastara-se momentaneamente da mesa ao calhar-lhe o lugar do morto, tendo escutado uma certa 
conversa. Quem mais estivera na sala de estar naquela ocasio? Quem estivera ausente?
A noite antes do crime. A conversa que tivera com Christine na falsia e a cena que testemunhara no 
regresso ao hotel.
Gabrielle N? 8.
Uma tesoura.
o pedao partido de um cachimbo. o frasco atirado duma janela.
Um calendrio verde. Um embrulho de velas.
Um espelho e uma mquina de escrever. Uma meada de l vermelha.
Um relgio de pulso de rapariga.
gua da banheira escorrendo pelo ralo.
Cada um destes factos, no relacionados entre si, deveria ser aplicado no respectivo lugar. No poderia 
haver pontas soltas.
E ento, com cada facto concreto arrumado no seu lugar, avanaria para o passo seguinte: a sua prpria 
convico da presena do mal na ilha.
o Mal...
Olhou para os papis dactilografados que tinha nas mos.
Nellie Parsons - encontrada estrangulada num bosque solitrio prximo de Chobliam. Nunca tinha sido 
descoberto o assassino.

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Nellie Parsons? Alice Corrigan.
Leu muito cuidadosamente os detalhes da morte de Alice Corrigan.

o inspector Colgate aproximou-se de Hercule Poirot, sentado no terrao, sobre o mar.
Poirot simpatizava com o inspector Colgate. Gostava do seu rosto austero, dos olhos inteligentes, e dos 
seus modos calmos e sem pressas.
o inspector Colgate sentou-se.
- j fez alguma coisa com esses casos, sir? - disse, olhando para as folhas dactilografadas nas mos de 
Poirot.
- j os estudei, sim.
Colgate levantou-se e foi espreitar o nicho seguinte.
- No custa nada ser-se cuidadoso - disse ao regressar. - No quero que algum esteja a ouvir-nos.
- Tem toda a razo - disse Poirot.
Colgate prosseguiu: - No me importo de lhe confessar, M. Poirot, que eu prprio tenho estado muito 
interessado nesses casos, se bem que talvez no me tivesse lembrado deles se no me tivesse 
perguntado. - Fez uma pausa. - Interesso-me sobretudo por um em particular.
- o de Alice Corrigan?
- o de Alice Corrigan. - Ficou calado por alguns instantes. - Fui informar-me sobre esse caso junto da 
polcia do Surrey; estava interessado em conhecer todos os seus pormenores.
- Conte-me, meu amigo. Tambm estou interessado, muito interessado.
- j calculava. Alice Corrigan foi encontrada morta por estrangulamento na mata de Caesar, na charneca de 
Blackridge, a menos de quinze quilmetros do bosque de Marley, onde Nelhe Parsons fora encontrada, e 
estes dois locais esto a menos de vinte quilmetros de Whiteridge, onde Mr Lane era o vigrio.
- Fale-me mais a respeito da morte de Alice Corrigan - disse Poirot. Colgate prosseguiu: - Ao princpio, a 
polcia do Surrey no relacionou a

160

morte dela com a de Nellie Parsons, e isso porque estavam inclinados a considerar culpado o marido dela. 
No sei bem porqu, excepto que o homem era aquilo a que a imprensa gosta de apelidar de homem-
mistrio. pouco se sabia dele, quem era ou de onde viera. Alice tinha-se casado contra a vontade da 
famlia, tinha um dinheirito seu e tinha feito um seguro de vida com o marido como beneficirio. Tudo isso 
contribua para criar suspeitas, como deve concordar.
Poirot concordou com um aceno.
- Mas quando chegou a hora da verdade, o marido foi imediatamente ilibado. o corpo tinha sido encontrado 
por uma dessas mulheres que gostam muito de fazer passeios a p, jovens robustas de cales. Foi uma 
testemunha absolutamente competente e fivel; era professora de Educao Fsica numa escola de 
Lancashire. Tinha anotado a hora a que tinha encontrado o corpo (eram exactamente quatro e quinze), e 
declarou que, na sua opinio, a mulher teria morrido pouco tempo antes, uns dez minutos no mximo. Isso 
foi confirmado pelo mdico legista quando examinou o cadver s seis menos um quarto. A mulher deixou 
tudo como estava e dirigiu-se apressada atravs dos campos at  esquadra de Bagshot, onde participou o 
sucedido. Acontece que entre as trs e as quatro e dez Edward Corrigan vinha no combio proveniente de 
Londres, onde fora tratar de negcios. Quatro outras pessoas vinham na carruagem com ele. Apeou-se em 
Pine Ridge, em cujo caf tinha combinado encontrar-se com a esposa para o ch. Eram ento quatro e 
vinte e cinco. Encomendou ch para os dois, mas pediu para no o trazerem antes dela chegar. Depois 
ficou  espera no exterior do caf, andando de um lado para o outro. Quando, pelas cinco horas, a mulher 
ainda no tinha chegado, comeou a ficar alarmado, pensando que talvez ela tivesse torcido um tornozelo. 
Tinha ficado combinado que ela viria a p pela charneca at Pine Ridge, e que depois regressariam no 
autocarro. A mata de Caeser no  longe do caf, e presume-se que ela, vindo adiantada, resolvera sentar-
se um pouco para admirar a paisagem, tendo sido apanhada de surpresa por algum vagabundo ou algum 
louco. Quando o marido provou no ter sido o culpado, naturalmente relacionaram a morte dela com a de 
Nellie Parsons, uma criada de servir muito estouvada que tinha sido encontrada morta por estrangulamento 
no bosque de Marley. Decidiram que o mesmo homem era responsvel

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pelas duas mortes, mas nunca o apanharam... mais do que isso, no estiveram sequer perto de o apanhar! 
No deixou rasto.
Fez uma pausa; a seguir disse, lentamente: - E agora... temos uma terceira mulher estrangulada... e um 
certo cavalheiro (cujo nome no diremos) no mesmo local.
Calou-se. Os seus olhos pequenos e argutos fixaram-se em Poirot. Aguardou, esperanoso.
Os lbios de Poirot moveram-se. o inspector Colgate inclinou-se para a frente.
-.... difcil saber-se quais as peas que pertencem ao tapete e quais  cauda do gato... - murmurava.
- Como disse? - perguntou o inspector Colgate, intrigado.
Poirot respondeu prontamente: - Peo desculpa. Estava a falar comigo mesmo.
o que era aquilo a respeito do tapete e do gato?
Nada... absolutamente nada. - Calou-se. - Diga-me, inspector Colgate, se desconfiasse que algum dizia 
muitas mentiras, mas no dispusesse de provas, o que faria?
o inspector considerou a pergunta.
-  difcil, l isso . Mas, na minha opinio, se algum conta muitas mentiras acaba por tropear nelas.
Poirot fez um aceno.
- Sim, o que diz  muito verdadeiro. Sabe,  s no meu pensamento que certas afirmaes so falsidades. 
Penso que so mentiras, mas no sei realmente se o sero. Talvez fosse possvel fazer um teste... um 
teste a uma pequena mentira que salte pouco  vista. E se se verificasse que era mesmo mentira, nesse 
caso ficaramos a saber que as outras tambm o eram!
o inspector Colgate olhou-o com curiosidade.
- A sua cabea trabalha de um modo curioso, no ? Mas estou certo de que tudo resulta no final. Se me 
desculpa a curiosidade, o que  que o levou a fazer perguntas sobre outros casos de morte por 
estrangulamento?
- Vocs tm uma expresso: manha - disse Poirot lentamente. - Este homicdio pareceu-me ser bastante 
manhoso! Levou-me a pensar que talvez no se tratasse de uma primeira tentativa.

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- Estou a perceber - disse o inspector. Poirot prosseguiu:
- Disse para comigo: examinemos outros crimes do mesmo gnero ,e se houver algum que seja 
semelhante a este... eh bien, teremos a um indcio de grande importncia.
- Refere-se a ter sido utilizado o mesmo mtodo de matar?
- No, no! Muito mais do que isso. A morte de Nellie Parsons, por exemplo, nada me diz. Mas a morte de 
Alice Corrigan... Diga-me, inspector Colgate, no nota uma impressionante semelhana com este crime?
o inspector Colgate reflectiu por uns momentos.
- No - disse por fim -, no estou a ver o que possa ser. Excepto que em ambos os casos o marido 
apresentou um slido libi.
- Ah, ento sempre reparou nisso... - disse Poirot.

- Ah, Poirot. Prazer em v-lo. Entre. Precisava mesmo de falar consigo. Hercule Poirot aceitou o convite.
o chefe da polcia puxou para si uma caixa de cigarros, extraiu um e acendeu-o.
- j decidi, mais ou menos, o caminho a seguir - disse entre fumaas.
- Mas gostaria de conhecer a sua opinio antes de agir.
- Conte-me, meu amigo - pediu Poirot. Weston prosseguiu:
- Decidi entregar o caso  Scotland Yard. Na minha opinio, ainda que existam motivos para se suspeitar 
de uma ou duas pessoas, todo o caso se articula no contrabando de droga. Parece-me certo que aquele 
local, a caverna da Enseada do Duende constitua uma espcie de local de recepo para o produto.
Poirot acenou.
- Concordo - disse.
- Ainda bem. E estou quase convencido de que o nosso contrabandista de droga  Horace Blatt.
Poirot concordou de novo.

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- Tambm assim parece.
- Vejo que a sua cabea e a minha trabalham do mesmo modo. Blat velejava muito no seu barco. Por vezes 
convidava pessoas para lhe fazerem companhia, mas geralmente ia sozinho. Tinha umas velas vermelhas 
muito berrantes noveleiro, mas descobrimos que tambm possua um jogo de velas brancas a bordo. 
Presumo que se fizesse ao mar at chegar a algum local previamente combinado, onde uma outra 
embarcao ( vela ou a motor, no interessa) viria ao seu encontro, e procedia-se  transferncia do 
material. Depois Blatt fazia-se  praia na Enseada do Duende a uma hora apropriada...
Hercule Poirot sorriu.
- Sim, sim, por volta da uma e meia, a hora habitual do almoo ingls, quando toda a gente se acha 
certamente na sala de jantar. A ilha  propriedade privada, no  um stio onde os excursionistas possam 
vir fazer piqueniques. Quando h sol, s vezes as pessoas levam os seus lanches do hotel para a Enseada 
do Duende, ou, se querem fazer um piquenique, tm de ir para algum stio longe, a vrios quilmetros de 
distncia.
o chefe da polcia concordou.
- Isso mesmo - disse. - Portanto, Blatt vai a terra e esconde o material na tal prateleira da caverna. Alguem 
vir oportunamente busc-lo.
- Houve um casal, recorda-se? - murmurou Poirot -, que veio  ilha para almoar no dia do crime. Parece-
me ser um modo de se proceder ao levantamento do produto. Uns veraneantes de um hotel nas Moor ou 
em St. Loo vm  ilha dos Contrabandistas. Anunciam que pretendem almoar. Do um passeio pela ilha. 
Ser-lhes- fcil ir at  praia, pegar na caixa das sanduches, escond-la no saco em que Madame guarda 
o fato-de-banho, e regressar para o almoo no hotel, talvez um pouco atrasados, por volta das duas menos 
dez, tendo apreciado o seu passeio enquanto toda a gente estava na sala de jantar.
- Sim - disse Weston -, tudo isso me parece vivel. Como sabe, estas organizaes de traficantes no 
olham a meios. Se calhasse algum meter-se-lhes no caminho, eles no hesitariam em o silenciar. Parece-
me ser esta a melhor explicao para a morte de Arlena Marshall.  possvel que naquela manh Blatt 
estivesse mesmo na enseada a guardar o material. Os seus cmplices viriam levant-lo no mesmo dia. 
Arlena chega na gaivota e v-o a

164

entrar na caverna com a caixa. Interroga-o a respeito disso, ele despacha-a e zarpa dali a toda a pressa.
- Pensa ento que Blatt  definitivamente o assassino? - perguntou Poirot.
- Parece-me ser a soluo mais provvel. Claro,  possvel que Arlena tivesse sabido do caso 
anteriormente, dissesse qualquer coisa a Blatt, e algum outro membro da quadrilha tivesse combinado um 
falso encontro com ela para lhe tratar da sade. Como j disse, acho que a melhor soluo  entregar o 
caso  Scotland Yard. Tm mais possibilidades do que ns de provar a ligao de Blatt com a quadrilha de 
traficantes.
Hercule Poirot acenou, pensativo.
- No acha que  o mais sensato? - perguntou Weston. Poirot continuava a pensar.
- Talvez seja - disse por fim.
- Bolas, Poirot! Tem ou no tem algum trunfo na manga?
- Se tiver, no tenho a certeza de poder prov-lo - respondeu Poirot com gravidade.
- Claro, sei bem que o senhor e o inspector Colgate tm outras ideias disse Weston. - Parecem-me um 
pouco fantasiosas, mas tenho de admitir que podem ter uma certa razo. Mas, mesmo se tiverem razo, 
continuo a pensar que  um caso para a Scotland Yard. Fornecemos-lhes os factos e eles que trabalhem 
em conjunto com a polcia do Surrey. Creio realmente que no  um caso para ns. No est 
suficientemente localizado.
Fez uma pausa.
- o que acha, Poirot? o que pensa que se deva fazer?
Poirot parecia perdido nos seus pensamentos.
- Sei bem o que eu gostaria de fazer - disse por fim.
- Diga, homem!
- Gostaria de ir fazer um piquenique - murmurou. o coronel Weston ficou a olhar para ele.

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CAPTULO DOZE

- Um piquenique, M. Poirot?
Emily Brewster olhou para ele como se estivesse doido.
- Acha possivelmente que  uma ideia absurda, no  verdade? - disse Poirot de modo cativante. - Mas na 
realidade penso que  uma ideia admirvel. Precisamos de uma actividade normal, natural, para que a vida 
comece a regressar  normalidade. Estou muito interessado em conhecer um pouco de Dartmoor, e o 
tempo est ptimo. Talvez seja capaz de... como direi?... de nos animar a todos! Por isso, ajude-me nesta 
tarefa. Tente convencer toda a gente.
A ideia teve um sucesso inesperado. No incio todos se mostraram hesitantes, mas acabaram por admitir 
que afinal talvez no fosse m ideia.
No se sugeriu que o capito Marshall fosse convidado. Ele prprio dissera que tinha de ir a Plymouth 
naquele dia. Mr. Blatt concordou logo de forma entusistica, resolvido como estava a animar a funo. Alm 
dele havia Emily Brewster, os Redferns, Stephen Lane, os Gardeners (que foram convencidos a adiar por 
um dia a sua partida), Rosamund Darriley, e Linda.
Poirot usara toda a sua eloquncia para convencer Rosamund, referindo-lhe como seria vantajoso para 
Linda participar numa actividade capaz de a fazer esquecer um pouco as suas preocupaes. Rosamund 
concordara.
- Tem toda a razo - disse. - o choque que sofreu foi muito forte para uma criana daquela idade. Deixou-a 
terrivelmente enervada.
- Isso  perfeitamente natural, mademoiselle. Mas, qualquer que seja a idade, uma pessoa acaba por 
esquecer. Convena-a a vir. Sei que  capaz.
o major Barry recusara firmemente, afirmando no gostar de piqueniques. Muitos cestos para transportar, 
dissera. E ainda por cima bastante desconfortvel. Prefiro comer as minhas refeies  mesa.
O grupo reuniu-se s dez horas. Tinham-se alugado trs carros. Mr. Blatt estava alegre e barulhento, 
imitando um guia turstico.

166

- Por aqui, senhoras e senhores! Por aqui para Dartmoor! Urze e arandos, natas de Devonshire e 
presidirios. Tragam as vossas esposas, cavalheiros, ou ento as... amiguinhas! So todos bem-vindos! 
Paisagens maravilhosas. Venham, venham todos!
 ltima hora Rosamund Darriley desceu com um ar de consternao.
- A Linda no vem. Diz que est com uma dor de cabea terrvel.
- Mas s lhe faria bem vir! - protestou Poirot. - Convena-a, mademoiselle.
- No serve de nada - disse Rosamund com firmeza. - Ela est resolvida a no vir. Dei-lhe uma aspirina, e 
ela deitou-se.
Hesitou por um instante; depois acrescentou: - Parece-me que tambm no vou.
- No poderemos permitir, cara senhora, no poderemos permitir isso - clamou Mr. Blatt, segurando-a por 
um brao, prazenteiro. - La Haute Mode tem de adornar a ocasio. Nada de recusas! Vou lev-la presa, ah, 
ah! Condenada a priso em Dartmoor.
Conduziu-a com firmeza para o primeiro carro. Rosamund deitou um olhar furibundo a Hercule Poirot.
- Eu fico com a Linda - anunciou Christine Redfern. - No me importo nada.
- Oh, Christine - disse o marido.
E Poirot disse: - No, no, tem de vir, madame. Quando se tem uma dor de cabea fica-se melhor sozinho. 
V, vamos andando.
Os trs carros partiram. Dirigiram-se primeiro  verdadeira Caverna do Duende em Sheepstor, e divertiram-
se muito  procura da entrada, tendo-a finalmente descoberto com recurso a um postal ilustrado.
Era um trajecto arriscado, saltitar de rocha em rocha, e Hercule Poirot no experimentou. Ficou a observar, 
indulgente, enquanto Christine Redfern saltava graciosamente de pedra em pedra, e notou que o marido 
nunca a deixava afastar-se muito. Rosamund Darriley e Emily Brewster participaram na busca, ainda que 
esta ltima tivesse escorregado uma vez, torcendo ligeiramente um tornozelo. Stephen Lane parecia 
incansvel, contorcendo a sua alta e esguia figura por entre os pedregulhos. Mr. Blatt limitou-se a 
acompanh-los apenas por uma parte do percurso, soltando gritos de encorajamento e tirando fotografias 
aos aventureiros.
Os Gardeners e Poirot ficaram calmamente sentados  beira do caminho,

167

enquanto a voz de Mrs. Gardener se elevava num agradvel e calmo monlogo, pontuado aqui e ali pelos 
obedientes Sim, querida do marido.
-...sempre considerei, M. Poirot, e Mr. Gardener concorda comigo, que os instantneos podem ser muito 
aborrecidos. A no ser, claro, que sejam tirados entre amigos. Aquele Mr. Blatt, no tem sensibilidade 
nenhuma. Chega ao p de qualquer pessoa e tira-lhe um retrato sem dizer gua vai, e, como j disse a Mr. 
Gardener, isso  realmente m educao. Foi o que eu disse, no foi, Odell?
- Foi, sim, querida.
- Aquela fotografia de grupo que ele nos tirou sentados na praia. Bem, aquilo est tudo muito bem, mas 
acho que devia ter-nos perguntado primeiro. o que aconteceu foi que Miss Brewster estava a levantar-se 
naquele momento, e ficou numa posio muito estranha.
- Tambm acho - comentou Mr. Gardener com um sorriso.
- E depois Mr. Blatt ps-se a distribuir a fotografia a toda a gente, sem pedir autorizao. Reparei que 
tambm lhe deu uma, M. Poirot.
Poirot confirmou.
- Aprecio muito aquela foto de grupo - disse.
Mrs. Gardener prosseguiu: - E olhem para o comportamento dele hoje... to barulhento e vulgar. At chega 
a enervar-me. Devia ter deixado o homem no hotel, M. Poirot.
- Infelizmente, madame, isso seria difcil - murmurou Hercule Poirot.
- Tambm me parece. Aquele homem intromete-se em todo o lado. No tem sensibilidade nenhuma.
Nesse momento a descoberta da entrada para a Caverna do Duende foi acolhida com uma ruidosa 
saudao.
Depois o grupo prosseguiu o seu caminho, sob a orientao de Hercule Poirot, at a um ponto em que um 
curto passeio por uma colina coberta de urze conduzia a uma pequena clareira junto a um riacho. Uma 
ponte de madeira lanava-se sobre o riu e Poirot. e o marido de Mrs. Gardener persuadiram-na a atravess-
la at a uma clareira que, liberta de tojo, parecia ser o local ideal para um piquenique.
Falando voluvelmente sobre as sensaes que experimentara ao atravessar uma pequena ponte de tbuas, 
Mrs. Gardener acabou por se sentar. Subitamente ouviu-se um ligeiro clamor.
j todos tinham atravessado a ponte sem problemas, mas Emily Brewster

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estava imobilizada a meio das tbuas, de olhos cerrados, oscilando para um lado e para o outro.
Poirot e Patrick Redfern correram em seu auxlio. Emily agradeceu-lhes, envergonhada.
- Obrigada, obrigada. Desculpem. Nunca me senti bem a atravessar guas em movimento. Fico tonta. uma 
parvoce, bem sei.
Colocou-se o almoo sobre as toalhas, e o piquenique comeou.
Todos os Presentes ficaram secretamente surpreendidos por constatarem que estavam a apreciar este 
interldio. Talvez fosse por lhes oferecer uma hiptese de fugirem, por umas horas, a uma atmosfera de 
suspeita e receio. Aqui, escutando o borbulhar da gua, aspirando o agradvel aroma da turfa, e apreciando 
o colorido panorama da urze e dos fetos, aquele mundo de crime e de inquritos policiais e suspeitas 
parecia-lhes ter-se desvanecido, como se nunca houvesse existido. At Mr. Blatt se esqueceu de ser a 
alma da festa. Terminada a refeio foi dormir a sesta, ligeiramente afastado dos outros, e os roncos que 
emitia testemunhavam a sua abenoada entrada no reino dos sonhos.
Algum tempo depois, um grato grupo de pessoas comeou a arrumar os seus cestos de piquenique, dando 
os parabns a Hercule Poirot pela agradvel ideia que tivera.
o sol comeava a pr-se quando iniciaram a viagem de regresso pelas sinuosas estradas secundrias. Do 
topo da colina, acima da Baa de Leathercombe, captaram uma rpida vista da ilha com o seu hotel pintado 
de branco.
Parecia em paz e inocente, ao pr do Sol.
Mrs. Gardener, por uma vez pouco loquaz, suspirou e disse: - Estou-lhe mesmo muito grata, M. Poirot. 
Sinto-me to calma... Foi um dia maravilhoso.
o major Barry veio receb-los  chegada.
- Ol! Ento passaram bem o dia?
- Se passmos! - disse Mrs. Gardener. - As charnecas estavam lindas! To inglesas, to velho mundo... E 
o ar estava delicioso e tonificante.

169

o senhor devia ter vergonha de ser to preguioso, ao ponto de no ter desejado vir connosco.
o major soltou uma risada. - Estou demasiado velho para essas coisas... sentado no cho a comer uma 
sanduche.
Uma criada de quarto tinha sado do hotel e vinha a correr, esbaforida. Hesitou por um momento, e em 
seguida dirigiu-se rapidamente a Christine Redfern.
Hercule Poirot viu que se tratava de Gladys Narracott.
- Desculpe, minha senhora - disse ela numa voz acelerada e desigual mas estou preocupada com a 
menina. Com Miss Marshall. Fui agora mesmo levar-lhe um ch e no consegui que acordasse, e tem um 
ar to... to esquisito!
Christine olhou desesperada  sua volta. Poirot aproximou-se imediatamente. Segurando-a por um cotovelo, 
disse-lhe calmamente: - Vamos j subir, para ver.
Subiram apressadamente a escada e percorreram o corredor at ao quarto de Linda.
Bastou um olhar para ambos constatarem que alguma coisa estava mal. o rosto da rapariga tinha uma cor 
estranha, e a sua respirao era quase imperceptvel.
Poirot tomou-lhe o pulso. Ao mesmo tempo reparou num envelope encostado ao candeeiro da mesa-de-
cabeceira. Estava dirigido a si prprio. o capito Marshall entrou rapidamente no quarto.
- o que se passa com a Linda? - perguntou. - o que  que ela tem?
Christine Redfern soltou um ligeiro soluo assustado.
Hercule Poirot afastou-se da cama.
- Mande j chamar um mdico - disse a Marshall -, o mais depressa que for possvel. Mas receio... receio 
mesmo... que seja demasiado tarde. Pegou na carta que lhe era endereada e rasgou o envelope. No 
interior havia algumas linhas manuscritas por Linda, com a sua cuidada caligrafia de colegial.
Acho que esta  a melhor sada. Pea ao Pai para tentar perdoar-me. Fui eu quem matou Arlena. Pensei 
que ia ficar contente... mas no fiquei Lamento muito tudo o que aconteceu.

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Estavam reunidos na sala de estar do hotel: Marshall ,os Redferns, Rosamund Darriley e Hercule Poirot. 
Permaneciam em silncio,  espera... A porta abriu-se e o Dr. Neasden entrou.
- Fiz tudo o que estava ao meu alcance - disse bruscamente. -  possvel que ela se salve... mas tenho a 
obrigao de dizer que a esperana no  muita.
Calou-se. Marshall ,de rosto tenso e olhos de um azul glido, perguntou:
- Como teria ela obtido o produto?
Neasden abriu de novo a porta e fez um sinal. A criada de quarto entrou na sala. Tinha estado a chorar.
- Conte-nos outra vez aquilo que viu - disse Neasden.
- Nunca pensei... - disse a rapariga a fungar - nunca pensei, nem por um instante, que houvesse qualquer 
coisa de errado... ainda que a menina me parecesse um tanto estranha. - Um ligeiro gesto de impacincia 
do mdico f-la prosseguir: - Ela estava no quarto da outra senhora. De Mrs. Redfern. No seu quarto. 
Estava ao p do lavatrio, e tinha um frasquinho na mo. Deu uma espcie de salto quando eu entrei, e 
pensei que era esquisito ela tirar coisas do quarto da senhora, mas tambm podia ser qualquer coisa que 
lhe tivesse emprestado. Ela s disse: Ah, era disto que eu andava  procura... , e saiu.
- Os meus comprimidos para dormir - disse Christine quase num sussurro.
- Como sabia ela da existncia dos comprimidos? - perguntou o mdico com rudeza.
- Tinha-lhe dado um - disse Christine. - Na noite depois daquilo ter acontecido. Ela disse-me que no 
conseguia dormir. Ela... lembro-me de ela dizer: Acha que chega um?, e eu disse-lhe que sim, que eram 
muito fortes, e que me tinham recomendado que nunca tomasse mais do que um, dois no mximo.
Neasden acenou.
- Ela quis ter a certeza - comentou. - Tomou seis.
Christine soltou outro soluo.

171

- Oh, meu Deus, sinto que a culpa  minha. Devia t-los guardado num local seguro.
o mdico encolheu os ombros.
Talvez tivesse sido melhor, Mrs. Redfern.
- Ela est a morrer... e a culpa  minha... - disse Christine, desesperada.
Kenneth Marshall mexeu-se na cadeira.
- No, no se culpe pelo sucedido - disse. - Ela sabia o que estava a fazer. Talvez... talvez tenha sido 
melhor assim.
Olhou para o papel amarrotado que tinha na mo, a nota que Poirot lhe entregara em silncio.
- No acredito. No creio que a Linda a tenha assassinado - exclamou Rosamund Darriley. -  impossvel, 
de certeza, dado os factos conhecidos!
Christine interveio, ansiosa: - Sim, nunca poderia ter sido ela! Deve ter ficado exausta e imaginou tudo!
A porta abriu-se, e o coronel Weston entrou. Que se passa? - perguntou.
o Dr. Neasden tirou a nota manuscrita das mos de Marshall e entregou-a ao chefe da polcia. Ele leu-a.
- o qu? - exclamou, incrdulo. - Mas isto  um disparate... um autntico disparate! Impossvel! No acha, 
Poirot?
Hercule Poirot moveu-se pela primeira vez.
- No - disse -, receio que no seja impossvel.
- Mas eu estava com ela, M. Poirot - disse Christine Redfern. - Estive com ela at ao meio-dia menos um 
quarto. Disse-o  polcia.
- As suas declaraes deram-lhe um libi - disse ele. - Mas em que se baseavam as suas declaraes? 
Baseavam-se no relgio da prpria Linda Marshall. A senhora no sabe realmente se faltava um quarto para 
o meio-dia quando a deixou; sabe-o apenas porque ela lho disse! A senhora mesma comentou que lhe 
parecera que o tempo tinha passado muito depressa.
Ela ficou a olhar para Poirot, paralisada.
Poirot prosseguiu: - Pense, madame: quando deixou a praia, regressou ao hotel depressa ou devagar?
Eu? Bem... devagar, acho eu.
Recorda-se de algum pormenor a respeito do percurso de regresso?
- Nem por isso, acho eu. Vinha... vinha a pensar.

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Poirot insistiu: - Lamento ter de lhe pedir isto, mas quer dizer-nos em que vinha a pensar durante o 
percurso?
Christine ruborizou-se. - Bem, se for mesmo preciso... Estava a pensar na hiptese de me ir embora. Partir, 
apenas, sem dizer nada ao meu marido. Sabe, sentia-me... sentia-me muito infeliz.
- Oh, Christine - exclamou Patrick Redfern -, tens razo... eu sei...
A voz precisa de Poirot interrompeu-o.
- Exactamente. Estava preocupada com a tomada de uma deciso de tanta importncia. Estava, por assim 
dizer, cega e surda em relao ao que a cercava. Provavelmente caminhou lentamente, parando uma vez 
por outra para melhor esclarecer algum ponto do seu pensamento.
Christine confirmou. - o senhor  muito arguto. Foi mesmo assim. Acordei de uma espcie de sonho ao 
chegar ao hotel e apressei-me a entrar, convencida de j vir atrasada, mas quando olhei para o relgio do 
trio constatei que ainda tinha muito tempo.
Poirot disse de novo: - Exactamente. - Depois voltou-se para Marshall.
- Agora tenho de lhe descrever certas coisas que encontrei no quarto da sua filha a seguir ao homicdio. Na 
grade da lareira havia um pedao de cera derretida, cabelo queimado, fragmentos de carto e papel, e um 
alfinete vulgar. o papel e o carto poderiam ser irrelevantes, mas as outras trs coisas eram sugestivas, 
especialmente depois de ter encontrado, escondido na estante, um livro levantado da biblioteca local, um 
tratado sobre bruxedos e magia. o volume abria-se com muita facilidade numa determinada pgina. Nessa 
pgina descreviam-se variados mtodos de provocar a morte de algum moldando-se em cera uma figura 
que representaria a vtima. A figura seria ento aquecida lentamente at se derreter, ou ento poder-se-ia 
perfur-la com um alfinete no local do corao. Seguir-se-ia a morte da vtima. Mais tarde tomei 
conhecimento, atravs de Mrs. Redfern ,de que a Linda Marshall tinha sado naquela manh bem cedo para 
comprar um pacote de velas, parecendo embaraada ao revelar o que tinha adquirido. No tive qualquer 
dvida sobre o que acontecera a seguir. A Linda teria feito uma figura com a cera das velas, possivelmente 
adornando-a com alguns cabelos de Arlena para lhe conferir poderes mgicos, perfurando a seguir o local 
do corao com o alfinete, derretendo finalmente a figura pegando fogo a pedaos de carto amontoados 
por baixo.

173

Era uma actividade primitiva, infantil, supersticiosa, mas revelava uma coisa: o desejo de matar. Seria 
possvel que houvesse ali algo mais do que um desejo? Poderia a Linda Marshall ter realmente assassinado 
a madrasta?
 primeira vista parecia que ela tinha um libi perfeito... mas na realidade, conforme demonstrei, o indcio 
relativo s horas tinha sido fornecido pela prpria Linda. Poderia facilmente ter dito a Christine que faltava 
um quarto para o meio-dia quando eram apenas onze e meia.
Era bem possvel que, logo depois de Mrs. Redfern deixar a praia, ela a tivesse seguido, esgueirando-se 
at  escada de ferro, descendo-a rapidamente ao encontro da madrasta, estrangulando-a e regressando ao 
cimo da escada antes que o barco com Miss Brewster e Patrick Redfern surgisse  vista. Poderia ento 
regressar  Enseada da Gaivota, tomar o seu banho e voltar calmamente ao hotel.
Contudo, isso dependeria de dois factores. Ela precisava de saber com toda a certeza que Arlena Marshall 
estaria na Enseada do Duende, e teria de ser fisicamente capaz de cometer o acto.
Pois bem, o primeiro destes factores era vivel: bastaria que a prpria Linda tivesse escrito a mensagem 
para Arlena em nome de outra pessoa. Quanto ao segundo, a Linda possui mos grandes e fortes, do 
tamanho das de um homem. No que se refere  fora, Linda encontra-se naquela idade em que h mais 
predisposio para um desequilbrio mental, fenmeno este que  frequentemente acompanhado por uma 
fora invulgar. H ainda um outro pequeno pormenor: a me da Linda Marshall tinha sido em tempos julgada 
por homicdio.
Kenneth Marshall levantou a cabea.
- Mas foi ilibada! - disse em tom feroz.
- Sim, foi ilibada - concordou Poirot.
- E digo-lhe mais uma coisa, M. Poirot - prosseguiu Marshall -, a Rut,h... a minha mulher... estava inocente. 
Isso sei eu com toda a certeza. Na intimidade da nossa vida no me poderia enganar. Era uma inocente 
vtima das circunstncias. - Fez uma pausa. - E tambm no acredito que Linda tenha assassinado Arlena. 
 ridculo... absurdo!
- Considera ento - perguntou Poirot -, que essa carta  uma falsiFicao?

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Marshall estendeu a mo, e Weston entregou-lha. Marshall analisou-a cuidadosamente. Depois abanou a 
cabea.
- No - declarou, contrafeito. - Acredito que foi escrita pela Linda.
Poirot prosseguiu: - Nesse caso, se foi a Linda quem a escreveu, h apenas duas explicaes. Ou a 
escreveu de boa-f, sabendo ter sido ela prpria a autora do crime, ou... ou, digo eu, escreveu-a 
deliberadamente paraproteger outrapessoa, algum que ela receava que estivesse a despertar suspeitas.
- Refere-se a mim? - perguntou Kenet Marshall.
-  possvel, no lhe parece?
Marshall meditou por alguns momentos; depois respondeu, calmamente: - No, acho que a ideia  absurda. 
Ao princpio a Linda pode ter pensado que eu era suspeito, mas agora sabia que isso estava ultrapassado, 
que a polcia tinha aceite o meu libi, desviando a sua ateno para outro lado.
- Mas suponha que no era uma questo de pensar que o senhor era suspeito - disse Poirot -, mas sim que 
ela sabia que era o culpado?
Marshall ficou a olhar para ele e deu uma risada curta. - Isso  um absurdo.
- Olhe que no sei - replicou Poirot. - Existem, como sabe, diversas possibilidades a respeito da morte de 
Mrs. Marshall. H a teoria de que estava a ser vtima de chantagem, tendo ido naquela manh ao encontro 
do chantagista e sendo assassinada por este. H a teoria de que a Enseada e a caverna do Duende 
estavam a ser usadas para o trfico de droga, e de que ela foi morta por ter sabido acidentalmente do caso. 
H uma terceira possibilidade: a de ter sido despachada por algum manaco religioso. Mas h ainda uma 
quarta possibilidade: o senhor tinha muito a ganhar com a morte da sua esposa, no  verdade, capito 
Marshall?
Acabei de lhe dizer...
Sim, sim, concordo que  impossvel que o senhor tivesse podido assassinar a sua esposa... se estivesse 
a agir sozinho. Mas suponhamos que algum o ajudava?
- Que raio est a insinuar com isso?
o homem tranquilo estava finalmente fora de si. Soergueu-se do assento. A sua voz era ameaadora. Havia 
um reluzir de clera no olhar. Poirot prosseguiu: - Estou a afirmar que este no  um crime que tenha sido 
cometido apenas por uma pessoa. Duas pessoas estiveram envolvidas

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nele.  bem verdade que o senhor no poderia estar a dactilografar aquela carta ao mesmo tempo que se 
dirigia  enseada, mas teria tido tempo para estenografar a carta, confiando a outra pessoa o encargo de a 
dactilografar enquanto o senhor se encontrava ausente na sua criminosa misso.
Hercule Poirot olhou na direco de Rosamund Darriley.
- Miss Darriley declarou que deixou o Terrao do Sol dez minutos depois das onze, tendo-o observado a 
escrever  mquina no seu quarto. Contudo, aproximadamente a essa hora Mr. Gardener regressou ao 
hotel para ir buscar uma meada de l para a esposa. No se cruzou com Miss Darriley nem a viu. Isso  
digno de nota. Parece que ou Miss Darriley nunca deixou o Terrao do Sol, ou que o teria deixado bastante 
mais cedo, encontrando-se ento no seu quarto muito atarefada a escrever  mquina. Outro pormenor: o 
senhor declarou que, quando Miss Darriley espreitou para dentro do seu quarto s onze e um quarto, viu-a 
atravs do espelho. Contudo, no dia do crime a sua mquina de escrever e os papis estavam espalhados 
na escrivaninha ao canto da sala, enquanto que o espelho se encontra entre as duas janelas. Portanto, 
essa declarao era uma mentira deliberada. Mais tarde, transferiu a mquina de escrever para a mesa 
situada por baixo do espelho para justificar a sua histria, mas j era demasiado tarde. Eu j percebera que 
o senhor e Miss Darriley tinham mentido.
Rosamund Darriley falou.
- o senhor  diabolicamente engenhoso! - disse numa voz baixa e lmpida.
- Mas no to diablico e engenhoso como o homem que matou Arlena Marshall! - disse Poirot elevando a 
voz. - Pense por um momento: com quem pensei eu... com quem pensou toda a gente... que Arlena 
Marshall teria ido encontrar-se naquela manh? Todos chegmos  mesma concluso: Patrick Redfern! Ela 
no ia encontrar-se com um chantagista. o rosto dela devia ter-me dito isso. Oh no! Ela ia ao encontro de 
um amante... ou pelo menos era o que pensava!
Sim, eu j estava convencido disso. Arlena Marshall ia encontrar-se com Patrick Redfern. Mas, um minuto 
depois, Patrick Redfern surge na praia, obviamente  procura dela. Como seria, ento?
- Algum malandro usou o meu nome! - disse Patrick Redfern com uma raiva mal controlada.

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- o senhor estava obviamente transtornado e surpreendido pela ausncia dela - disse Poirot. - Talvez de 
uma forma demasiado bvia. A minha teoria, Mr. Redfern,  que ela foi  Enseada do Duende para se 
encontrar consigo, e que se encontrou de fcto consigo, e que o senhor a matou, conforme planeara j.
Patrick Redfern ficou a olhar para ele.
- Est a entrar comigo? - disse depois com a sua bem humorada voz irlandesa. - Estive consigo na praia 
at sair nobarco com Miss Brewster, dando com ela j morta.
Poirot replicou: - o senhor matou-a depois de Miss Brewster ter regressado no barco para chamar a polcia. 
Arlena Marshall no estava morta quando o senhor chegou  praia. Estava  espera, escondida na caverna, 
at que no houvesse mais ningum nas proximidades.
- E o corpo? Miss Brewster viu o corpo, tal como eu!
- um corpo, sim. Mas no um cadver. o corpo vivo da mulher que o auxiliou, com os braos e as pernas 
bronzeados com a ajuda do bronzeador e o rosto escondido debaixo do chapu de carto verde. Christine, 
a sua esposa (ou talvez no a sua esposa, mas certamente a sua scia), auxiliando-o a cometer este 
homicdio tal como o auxiliara a cometer aquele outro assassnio em que descobriu o corpo de Alice 
Corrigan pelo menos vinte minutos antes de ela ter morrido, assassinada pelo marido, Edward Corrigan... o 
senhor!
Christine falou. A sua voz era incisiva, sem emoo.
- Cuidado, Patrick no percas a calma! - disse.
Poirot prosseguiu: - Talvez tenham curiosidade em saber que tanto o senhor como a sua esposa Christine 
foram facilmente reconhecidos e identificados pela polcia do Surrey, de entre um grupo de pessoas 
fotografadas aqui. Identificaram-nos prontamente como sendo Edward Corrigan e Christine Deverill, a jovem 
caminhante que encontrara o corpo de Alice Corrigan.
Patrick Redfern tinha-se posto em p. o seu rosto agradvel estava transformado, avermelhado de sangue, 
cego de raiva. Era o rosto de um assassino... de um tigre.
- Maldito parasita metedio! - gritou.
Atirou-se para a frente, dedos esticados como garras, vomitando maldies, apertando a garganta de 
Hercule Poirot...

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CAPTULO TREZE

- Foi numa dada manh em que estvamos sentados l fora - disse ponderadamente Poirot -, comparando 
os corpos bronzeados pelo sol com a carne exposta na montra de um talho, que constatei como era 
pequena a diferena entre um corpo e qualquer outro. Se se observasse de perto e com ateno, sim... 
mas num olhar de relance? Uma jovem de formas mais ou menos aceitveis  igual a qualquer outra: duas 
pernas tisnadas, dois braos tisnados, um pedacinho de fato-de-banho entre os dois extremos... apenas 
um corpo jazendo ao sol. Quando uma mulher caminha, quando fala, quando se ri ou move a cabea ou as 
mos... ento sim, exibe a sua personalidade, a sua individualidade. Mas, quando se entrega ao ritual do 
bronze... no.
Foi nesse dia que falmos da maldade... da maldade debaixo do sol, como disse Mr. Lane. Mr. Lane  
uma pessoa muito sensvel... sente-se pessoalmente afectado pelo Mal... sente a sua presena... Mas no 
percebia bem onde ele se encontrava. Para ele, o mal encontrava-se personificado em Arlena Marshall ,e 
quase todos concordavam com ele.
Contudo, no meu entender, ainda que o mal estivesse presente, no estava de modo algum centralizado 
em Arlena Marshall. Estava relacionado com ela, sim... mas de um modo radicalmente diferente. 
Considerei-a sempre como uma vtima, eterna e predestinada. Porque era bela, porque era atraente, porque 
os homens rodavam a cabea para a olhar, todos pensavam que pertencia ao tipo de mulher que destroa 
vidas e destri as almas. Mas eu via-a de um modo muito diferente. No era ela que atraa fatalmente os 
homens; eram os homens que a atraam fatalmente. Ela pertencia quele tipo de mulher que agrada 
facilmente aos homens e de que estes tambm facilmente se fartam. Tudo o que descobri ou que escutei 
acerca dela vinha em reforo desta minha convico. A primeira coisa que ouvi a respeito dela foi que o 
homem de cujo divrcio ela fora a causa se tinha recusado a casar com

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ela. Foi ento que o capito Marshall, um daqueles homens incuravelmente cavalheirescos, entrou em cena 
pedindo-a em casamento. Para um homem tranquilo e reservado do tipo do capito Marshall ,uma provao 
pblica de qualquer tipo seria o pior dos suplcios: da o amor e a piedade pela sua primeira esposa, 
publicamente acusada e julgada por um crime que no cometera. Casara-se com ela e vira amplamente 
justificada a avaliao que fizera do seu carcter. Aps a morte da esposa surgia-lhe outra mulher bela, 
talvez do mesmo tipo fsico (visto que a Linda tem cabelo ruivo, provavelmente herdado), que se expunha  
ignomnia pblica. Mais uma vez Marshall vem em socorro de quem dele necessita. Contudo, desta vez 
pouco encontra em apoio da sua paixo. Arlena  estpida, indigna da sua simpatia ou da sua proteco, 
estouvada. De qualquer modo, creio que ele sempre teve uma viso realista dela. Muito depois de ter 
desistido de a amar, continuava a ter pena dela, apesar de se sentir irritado pela sua presena. Para ele, 
Arlena era como uma criana incapaz de progredir para alm de uma dada pgina do livro da vida.
Em Arlena, com a sua paixo pelos homens, deparei com uma presa  espera de um determinado tipo de 
homem sem escrpulos. Reconheci imediatamente esse tipo em Patrick Redfern, com a sua boa 
aparncia, a sua autoconfiana, o seu inegvel encanto do ponto de vista feminino. o aventureiro que, de um 
modo ou de outro, vive  custa das mulheres. Observando-os na praia, estava certo de que Arlena era a 
vtima de Patrick, e no o contrrio, e associei o tal foco de maldade a Patrick Redfern, no a Arlena 
Marshall.
Arlena recebera havia pouco tempo uma boa soma de dinheiro, que lhe fora legada por um admirador idoso 
que no tivera tempo de se fartar dela. Pertencia quele gnero de mulher que  sempre defraudada por um 
ou outro homem. Miss Brewster referiu-se a um jovem que tinha sido arruinado por ela, mas uma carta 
deste, encontrada no quarto de Arlena, apesar de exprimir o desejo (que nada lhe custava) de a cobrir com 
jias, vinha agradecer-lhe uma contribuio generosa mediante a qual o correspondente confessava ter 
conseguido escapar a um procedimento judicial. Um exemplo claro de um oportunista a sugar-lhe a fortuna. 
No tenho qualquer dvida de que Patrick Redfern constatou ser fcil lev-la a entregar-lhe periodicamente 
grandes somas de dinheiro para investimento.Talvez a tenha deslumbrado com histrias de grandes 
oportunidades que lhes trariam mundos e fundos. As mulheres indefesas, vivendo ss, so presa fcil 
daquele tipo de homem,

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que usualmente se escapa sem dificuldade com o produto da pilhagem. Se, contudo, existe um marido, ou 
um irmo, ou um pai, as coisas podem tornar-se desagradveis para o vigarista. Logo que o capito 
Marshall viesse a constatar o que estava a acontecer  fortuna da esposa, Patrick Redfern no ficaria sem 
castigo muito tempo.
Isso, contudo, no o preocupava, porque estava j a considerar ver-se livre dela assim que achasse 
necessrio, animado pelo xito que j tivera com outro homicdio, o da jovem com quem se casara sob o 
nome de Corrigan, e a quem tinha convencido a fazer um avultado seguro de vida em seu benefcio.
Para a consecuo dos seus planos contou com a colaborao e o apoio da mulher que aqui apresentara 
como sua esposa, e a quem era genuinamente devotado. Uma jovem muito diferente do tipo de vtima que 
ele parecia preferir: calma, composta, impassvel, mas plenamente dedicada e uma actriz de grande 
talento. Desde a chegada do casal, Christine Redfern interpretara um papel, o de pobre esposa 
dedicada... frgil, indefesa, mais intelectual do que atltica. Pensem nos pormenores que ela introduziu na 
sua personagem: a tendncia para criar bolhas ao expor-se ao sol em consequncia da alvura da sua pele, 
o receio das alturas (com a histria de ter ficado retida na catedral de Milo), etc. Realava constantemente 
a sua constituio delicada e frgil; quase toda a gente se lhe referia com compaixo. Na realidade era to 
alta como Arlena Marshal], mas com mos e ps de pequenas dimenses. Dizia ter sido professora 
primria, reforando assim a impresso de gostar de ler e de no possuir aptides atlticas. Na realidade 
tinha trabalhado numa escola, mas como professora de Educao Fsica, e era uma jovem muito activa que 
podia escalar montanhas como um gato e correr como uma atleta.
O homicdio propriamente dito foi perfeitamente planeado, de acordo com um horrio rigoroso. Foi, como 
tive oportunidade de dizer anteriormente, um crime cheio de manha. A cronometragem da operao foi um 
trabalho de gnio!
Primeiro, houve que preparar certas cenas preliminares, uma delas representada no Terrao do Sol, onde 
eles sabiam que eu estava no recanto ao lado: um dilogo convencional entre uma esposa ciumenta e o 
marido. Mais tarde ela interpretou o mesmo papel numa cena comigo. Lembro-me de que na altura tive uma 
vaga sensao de j ter lido tudo aquilo num livro.

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No me parecia real. Evidentemente, porque no era real. Depois, veio o dia do homicdio. Estava um dia 
bom, e isso era essencial. A primeira aco de Redfern foi esquivar-se muito cedo pela janela da varanda 
que ele abrira do interior (se fosse encontrada aberta, pensariam que algum tinha ido tomar banho bem 
cedo). Debaixo do roupo de praia escondera um chapu chins verde, igual ao que Arlena costumava usar. 
Atravessou a ilha, desceu pela escada de ferro e escondeu-o num stio previamente combinado, atrs de 
umas pedras. Primeira parte.
Na noite anterior tinha combinado um encontro com Arlena. Estavam a ter bastante cuidado, pois Arlena 
andava um tanto receosa do marido. Concordaram em se encontrarem na Enseada do Duende na manh 
seguinte. Ningum ia l de manh. Redfern iria ter com ela logo que pudesse escapar-se sem ningum dar 
por isso. Se ela ouvisse algum a descer a escada ou se surgisse algum barco, deveria esconder-se na 
caverna, cujo segredo ele lhe contara, e esperar a at a costa estar livre. Segunda parte.
Entretanto, Christine dirigiu-se ao quarto da Linda numa ocasio em que pensava que ela deveria estar a 
tomar o seu banho de mar matinal. Ia alterar o relgio da rapariga, adiantando-o vinte minutos. Havia, claro, 
o risco de a Linda reparar que o relgio no estava certo, mas isso no teria muita importncia. o verdadeiro 
libi de Christine era o tamanho das suas mos, que no lhe permitiria executar o crime. 
Todavia,necessitava de um libi adicional. No quarto da Linda, deparou com o livro de feitiaria e bruxedos 
aberto, numa certa pgina. Leu-o, e quando Linda regressou e deixou cair o embrulho com as velas, 
percebeu o que esta andava a arquitectar. Isto deu-lhe algumas ideias. A inteno original do par culposo 
era atirar as suspeitas para cima de Kenet Marshall ,da o desaparecimento do cachimbo, um fragmento do 
qual seria plantado na enseada, por baixo da escada de ferro.
Quando Linda voltou, Christine no teve dificuldade em combinar com ela uma ida  Enseada da Gaivota. 
Regressou em seguida ao seu prprio quarto, retirou de uma mala fechada um frasco de bronzeador 
aplicou-o cuidadosamente e atirou o frasco vazio pela janela na direco do mar, quase atingindo Emily 
Brewster, que estava a tomar banho. A segunda parte estava concluda com xito.
Christine vestiu ento um fato-de-banho branco, e sobre este umas calas compridas e um casaco de 
praia com mangas compridas, encobrindo perfeitamente os braos e as pernas que acabara de bronzear.

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s dez e quinze Arlena partiu para o seu encontro, e um ou dois minutos depois Patrick Redfern desceu e 
mostrou-se surpreendido, aborrecido, etc. A tarefa de Christine foi bastante fcil. Conservando o seu prprio 
relgio escondido, perguntou a Linda s onze e vinte e cinco que horas eram. A Linda consulta o seu 
relgio e diz que faltava um quarto para o meio-dia, e a seguir encaminha-se para o mar, enquanto Christine 
arruma o seu material de desenho. Assim que Linda volta as costas, Christine pega no relgio da rapariga, 
que ela retirara antes de entrar na gua, e acerta-o. Depois sobe a correr o carreiro da falsia, atravessa 
apressada o topo da ilha at alcanar o princpio da escada de ferro, despe a roupa de praia que esconde 
com o material de desenho atrs de uma rocha, e desce rapidamente a escada.
Arlena encontra-se l em baixo na praia, admirada com o atraso de Patrick. Escuta algum a descer a 
escada, procura saber quem ser, e para sua desagradvel surpresa constata ser aquela inconveniente, a 
esposa! Atravessa a praia, apressada, e esconde-se na caverna.
Christine retira o chapu chins do local onde este fora escondido, com uma falsa madeixa ruiva fixa ao 
rebordo da aba traseira, e estende-se de bruos na praia com a cabea e o pescoo tapados pelo chapu. 
A operao foi cronometrada ao segundo. Um ou dois minutos depois o barco transportando Patrick e 
Emily Brewster dobra o extremo da praia. Lembrem-se de que  Patrick quem se baixa para examinar o 
corpo,  Patrick quem se mostra atordoado, chocado, despedaado pela morte da sua amada! A sua 
testemunha foi cuidadosamente escolhida. Miss Brewster no suporta alturas, no ir tentar subir a escada 
de ferro. Ir sair da enseada no barco, sendo Patrick, naturalmente, quem fica com o corpo para o caso de 
o assassino ainda se encontrar nas proximidades. Miss Brewster afasta-se, remando apressada, para ir 
buscar a polcia. Assim que o barco deixa de ser visto, Christine corta o chapu em pedaos com a tesoura 
que Patrick trouxe consigo, guarda os pedaos dentro do fato-de-banho e sobe rapidamente a escada, 
veste a roupa de praia e regressa correndo ao hotel, mesmo a tempo de tomar um banho rpido para 
remover o bronzeador, e veste o seu traje de tnis. Faz ainda uma outra coisa: queima os pedaos de 
carto verde e a madeixa de cabelo na lareira da Linda, juntando uma folha de calendrio para que este 
fique associado ao carto. o que acabou de queimar no foi um chapu, mas sim um calendrio. Como 
previa, a Linda tem andado a fazer experincias de feitiaria; a cera derretida e o alfinete assim o 
demonstram.

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Em seguida desce ao court de tnis, sendo a ltima a chegar, mas sem demonstrar agitao nem 
pressas.
E entretanto Patrick dirigiu-se  caverna. Arlena nada viu, e pouco escutou: a chegada de um barco, 
algumas vozes. Ficara prudentemente escondida na caverna. Mas agora ouve Patrick cham-la.
J passou o perigo, querida. Ela sai, e as mos dele cercam-lhe o pescoo... e assim chega ao final da 
sua vida a pobre, tonta e bela Arlena Marshall...
Poirot calou-se.
Durante uns instantes todos ficaram em silncio, e por fim Rosamund Darriley disse, com um 
estremecimento: - Sim, desta forma podemos imaginar como tudo sucedeu. Mas essa  a histria vista do 
outro lado. Ainda no nos explicou como foi que conseguiu chegar  verdade.
Hercule Poirot respondeu:
-j disse uma vez que a minha mente funciona de modo muito simples. Sempre, desde o princpio, me 
pareceu que quem matara Arlena Marshall seria quem mais condies reunia para o ter feito. E essa 
pessoa era Patrick Redfern. Era o tipo par excellence, o tipo de homem que explora mulheres como ela, e 
o tipo de assassino, o gnero de homem que rouba as economias de uma mulher e inclui no negcio 
cortar-lhe a garganta. Com quem iria Arlena encontrar-se naquela manh? Tudo no seu rosto, no sorriso, no 
comportamento, nas palavras, apontava para Patrick Redfern.Consequentemente, o assassino tinha de ser 
Patrick.
Mas imediatamente enfrentei, como vos disse, uma impossibilidade. Patrick Redfern no podia t-la 
matado porque se encontrava na praia e depois na companhia de Miss Brewster, quando o corpo foi 
descoberto. Por isso procurei outras solues, e existiam diversas. Poderia ter sido morta pelo marido, 
com a conivncia de Miss Darriley (ambos tinham mentido com relao a um pormenor que parecia 
suspeito). Poderia tambm ter sido assassinada por haver tropeado acidentalmente nas actividades 
secretas dos traficantes de droga. Poderia ter sido morta, como j disse, por um manaco religioso, e podia 
ainda ter sido morta pela enteada. Esta ltima pareceu-me a dada altura ser a verdadeira soluo. o 
comportamento da Linda na sua primeira entrevista com a polcia foi significativo. Uma conversa que tive 
mais tarde com ela convenceu-me de um ponto: ela considerava-se culpada.

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- Quer dizer que ela imaginava realmente que tinha provocado a morte de Arlena? - perguntou Rosamund, 
num tom de incredulidade.
Hercule Poirot confirmou com um aceno.
- Sim. Lembre-se: ela pouco mais  do que uma criana. Leu o livro sobre bruxaria e quase acreditou nele. 
Detestava Arlena. Fabricou a boneca de cera, fez o feitio, perfurou-lhe o corao, derreteu a figura... e 
nesse mesmo dia Arlena morre! Pessoas mais velhas e mais sbias do que a Linda crem na magia negra. 
Naturalmente, ela acreditou que era tudo verdade: que atravs da feitiaria tinha matado a madrasta.
- Oh! Pobre criana! - exclamou Rosamund. - E eu pensei... imaginei... uma coisa muito diferente... que ela 
sabia alguma coisa que poderia... Rosamund calou-se.
- Sei o que pensou - disse Poirot. - Na realidade a sua reaco assustou a Linda ainda mais. Estava 
convencida de que o seu acto tinha realmente provocado a morte de Arlena, e de que a senhora o sabia. 
Christine Redfern tambm a manobrou, dando-lhe a ideia dos comprimidos para dormir, indicando-lhe o 
caminho para uma rpida e indolor expiao do seu crime. Sabe,  que logo que o capito Marshall 
apresentou um libi, era vital encontrar um novo suspeito. Nem ela nem o marido sabiam do trfico de 
droga. Viram na Linda o bode expiatrio ideal.
-  uma mulher diablica! - disse Rosamund.
Poirot concordou: - Sim, tem razo. Uma mulher cruel e calculista. Quanto a mim, sentia-me em grandes 
dificuldades. Seria a Linda culpada apenas da infantil tentativa de crime atravs da bruxaria, ou teria o seu 
dio chegado ainda mais longe, at ao acto verdadeiro? Tentei lev-la a confessar-se-me, mas no serviu de 
nada. Naquele momento eu no tinha certezas. o chefe da polcia estava tentado a aceitar a explicao dos 
traficantes de droga, mas eu no me sentia satisfeito. Voltei a analisar muito cuidadosamente os factos. 
Era como se tivesse uma coleco de peas de um puzzle, acontecimentos isolados, simples factos. Tudo 
teria de se ajustar num padro completo e harmonioso. Havia a tesoura encontrada na praia, um frasco 
atirado de umajanela, um banho que ningum admitia ter tomado, tudo ocorrncias perfeitamente banais 
mas que adquiriam um novo significado por ningum as admitir. Portanto, tinham de representar alguma 
coisa. Nenhuma dessas ocorrncias se ajustava s teorias que indicavam como culpados o capito 
Marshall, a filha ou os traficantes de droga. E contudo, tinham de querer

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dizer alguma coisa. Regressei de novo  minha primeira soluo, a de que o crime fora cometido por 
Patrick Redfern. Haveria alguma coisa a apoiar essa teoria? Sim, o facto de uma importante quantia em 
dinheiro ter desaparecido da conta de Arlena. Quem teria ficado com esse dinheiro? Patrick Redfern, 
evidentemente. Ela era o tipo de mulher facilmente burlada por um jovem simptico... mas no era o gnero 
de mulher susceptvel de ser vtima de chantagem. Era demasiado transparente, incapaz de guardar um 
segredo. A histria do chantagista sempre me soou a falsa. Todavia, algum escutara aquela conversa... 
mas quem? A mulher de Patrick Redfern! Era a sua histria, no confirmada por mais ningum. Por que a 
teria inventado? A resposta atingiu-me como um relmpago: para justificar a sada do dinheiro da conta de 
Arlena!
Patrick e Christine Redfern estavam combinados. Christine no tinha a fora fsica ou a predisposio 
mental necessrias para estrangular Arlena. No, era Patrick quem deveria t-lo feito... mas isso parecia 
impossvel! Cada minuto do seu tempo naquela manh encontrava-se justificado at ao momento da 
descoberta do corpo.
Do corpo... As palavras agitaram qualquer coisa na minha mente... corpos deitados na praia, todos iguais. 
Patrick Redfern e Emily Brewster tinham chegado  praia, deparando com um corpo ali deitado. Um 
corpo... E se o corpo no fosse o de Arlena, mas o de outra pessoa? o rosto estava escondido pelo amplo 
chapu chins.
Mas havia apenas um corpo morto, o de Arlena. Ento seria possvel... um corpo vivo? Algum 
pretendendo passar por morto? Seria a prpria Arlena, convencida por Patrick a participar em alguma 
espcie de jogo? Abanei a cabea: demasiado arriscado. Um corpo vivo, mas quem? Haveria alguma 
mulher disposta a ajudar Redfern? Claro: a mulher dele. Mas esta era uma criatura delicada, de pele alva. 
Ah, sim, mas o bronzeador vem em frascos... frascos... mais uma das minhas peas que encaixava no 
puzzle! Sim, claro, e depois teria de tomar banho, para remover o bronzeador denunciador antes de ir jogar 
tnis. E a tesoura? Claro, para cortar o segundo chapu de carto que teria de fazer desaparecer de algum 
modo. Com a pressa, a tesoura tinha ficado cada na praia, a nica coisa esquecida pelo par de 
assassinos.
Mas onde estaria Arlena entretanto? Isso tambm se tornou bastante claro Para mim. Rosamund Darriley 
ou Arlena Marshall: uma delas tinha estado dentro da caverna, sabia-o pelo perfume que apenas elas 
usavam.

185

Certamente que no teria sido Rosamund Darriley ,por isso era Arlena, ali escondida at a praia estar livre 
de intrusos.
Depois de Emily Brewster partir no barco, Patrick ficou com a praia toda por sua conta, com plena 
oportunidade para cometer o crime. Arlena Marshall foi morta j depois das onze e quarenta e cinco, mas o 
testemunho do mdico apenas referia a partir de que hora o crime podia ter sido cometido. Que Arlena j 
estava morta s onze e quarenta e cinco foi o que disseram ao mdico, e no o que ele disse  polcia.
Dois outros pontos precisavam de ser resolvidos. o depoimento da Linda Marshall dava um libi a Christine 
Redfern. Sim, mas esse libi dependia do relgio da Linda Marshall. Tudo o que era preciso provar era que 
Christine tinha tido duas oportunidades para mexer no relgio. Encontrei-as facilmente. Ela tinha estado 
sozinha no quarto da Linda naquela manh, e havia ainda uma prova indirecta, pois a Linda tinha dito que 
receava j estar atrasada, mas quando desceu passavam apenas vinte e cinco minutos das dez, pelo 
relgio da sala de estar. A segunda oportunidade foi fcil: pde mexer novamente no relgio logo que a 
Linda voltou as costas para ir tomar banho.
Depois havia a questo da escada. Christine sempre dissera que tinha medo das alturas. Outra mentira 
cuidadosamente preparada.
J tinha assim o meu mosaico concludo, com todas as peas devidamente encaixadas. Mas, 
infelizmente, no possua provas concretas. Estava tudo orquestrado na minha mente.
Foi ento que me surgiu uma ideia. o crime tinha sido cometido com muita segurana, muita percia. No 
tinha dvidas de que no futuro Patrick Redfern repetiria a proeza. E quanto ao passado? Era possvel que 
este no tivesse sido o seu primeiro homicdio. o mtodo utilizado, o estrangulamento, estava de acordo 
com a sua natureza, a de um assassino que matava no s por dinheiro mas tambm por prazer. Se j 
tivesse assassinado antes, tinha a certeza de que teria usado o mesmo meio. Pedi ao inspector Colgate 
uma relao de mulheres que tivessem sido vtimas de estrangulamento. o resultado encheu-me de alegria. 
A morte de Nellie Parson, encontrada estrangulada num bosque solitrio, poderia ter sido ou no obra de 
Patrick Redfern, mas na morte de Alice Corrigan encontrei exactamente o que procurava. Tinha sido usado 
essencialmente o mesmo mtodo. Houvera a mesma manipulao do tempo, pois o crime no fora 
cometido, como  usual, antes do que tudo levava a crer, mas sim depois. Um corpo supostamente 
descoberto

186

s quatro e um quarto, e um marido com um libi vlido at s quatro e vinte e cinco.
O que teria realmente acontecido? Dizia-se que Edward Corrigan chegara ao caf de Pine Ridge e, no 
tendo encontrado ali a mulher, tinha ido aguard-la no exterior do caf, andando de um lado para o outro. 
Na realidade, contudo, dirigiu-se a correr para o ponto onde combinara encontrar-se com ela, na mata de 
Caeser (que, conforme podem recordar-se, era bastante perto), matou-a e voltou ao caf. A caminhante que 
tinha encontrado o corpo era uma jovem muito respeitada, professora de Educao Fsica numa conhecida 
escola feminina. Aparentemente no tinha qualquer relacionamento com Edward Corrigan. Tivera de 
percorrer uma considervel distncia para relatar o sucedido na esquadra da polcia. o mdico legista s 
examinou o cadver s cinco e quarenta e cinco. Como sucedeu no presente caso, a hora da morte foi 
aceite sem discusso.
Resolvi efectuar uma experincia final. Tinha de saber sem sombra de dvida se Mrs. Redfern era 
mentirosa. Organizei a nossa pequena excurso a Dartmoor. Se uma pessoa no suporta alturas, nunca se 
sente confortvel ao atravessar uma ponte estreita sobre guas em movimento. Miss Brewster, que sofre 
realmente disso, teve uma vertigem, mas Christine Redfern passou pelas tbuas sem a menor hesitao. 
Era um ponto sem importncia, mas era tambm uma prova concreta. Se ela tinha dito uma mentira 
desnecessria, qualquer outra mentira seria possvel. Entretanto, Colgate tinha mostrado a fotografia de 
grupo  polcia do Surrey, que logo identificou o casal. Depois joguei o meu trunfo da nica forma com 
possibilidades de ter xito. Tendo primeiramente transmitido a Patrick Redfern uma sensao de 
segurana, atirei-me depois a ele fazendo o possvel para o obrigar a perder o domnio sobre si mesmo. Ao 
saber que tinha sido positivamente relacionado com o caso Corrigan, perdeu as estribeiras.
Hercule Poirot esfregou a garganta, recordando o sucedido.
- Aquilo que fiz - declarou, com um ar importante - foi extremamente perigoso, mas no estou arrependido. 
Tive xito! No sofri em vo. Seguiu-se um momento de silncio. Depois Mrs. Gardener soltou um profundo 
suspiro.
- Bem, M. Poirot - afirmou ela -, foi uma experincia maravilhosa ouvi-lo relatar exactamente como 
conseguiu os seus resultados. Foi to fascinante como uma lio de criminologia; na realidade foi mesmo 
uma

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lio de criminologia. E pensar que a minha meada de l magenta e aquela conversa enquanto 
apanhvamos sol tiveram alguma coisa a ver com tudo isto! Fico to emocionada que me faltam as 
palavras, e estou certa de que Mr. Gardener pensa do mesmo modo, no pensas, Odell?
- Sim, querida - disse Mr. Gardener.
- Mr. Gardener tambm me prestou um valioso auxlio - disse Hercule Poirot. - Queria conhecer a opinio de 
um homem sensato a respeito de Mrs. Marshall ,e perguntei a Mr. Gardener o que pensava dela.
- Ah sim? - ripostou Mrs. Gardener. - E o que disseste a respeito dela, Odell?
Mr. Gardener tossiu.
- Bem, querida - disse -, nunca pensei muito nela, como sabes.
-  esse o gnero de coisa que os homens sempre dizem s mulheres declarou Mrs. Gardener. - E, se 
quer que lhe diga, at mesmo M. Poirot me parece um pouco indulgente em relao a ela, chamando-lhe 
uma vtima natural e tudo isso. Claro,  verdade que ela no era uma mulher culta, e, como o capito 
Marshall no se encontra aqui, no me importo de dizer que ela sempre me pareceu um bocado bronca. Foi 
o que eu disse a Mr. Gardener, no foi, Odell?
- Sim, querida - disse Mr. Gardener.
Linda Marshall estava sentada com Hercule Poirot na Enseada da Gaivota.
- Claro que estou contente por no ter morrido - disse Linda. - Mas sabe, M. Poirot,  como se a tivesse 
mesmo assassinado, no acha? Era essa a minha vontade.
Hercule Poirot ripostou com energia:
- So duas coisas completamente diferentes! o desejo de matar e a aco de matar so duas coisas 
totalmente distintas! Se, no seu quarto, em vez da figura de cera tivesse tido a sua madrasta deitada no 
cho, de braos e pernas atados e incapaz de se defender, e se na sua mo tivesse um punhal em vez de 
um alfinete, nunca teria sido capaz de lho enterrar no corao! Qualquer coisa dentro de si ter-lhe-ia dito 
no!. Acontece o mesmo comigo.

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Se algum imbecil me faz enraivecer, digo para comigo: Tenho vontade de lhe dar um pontap!. Em vez 
disso, dou um pontap na mesa. Digo: Esta mesa representa o imbecil, e dou-lhe assim um pontap. E 
depois, se no magoei muito os dedos do p, sinto-me bastante melhor e normalmente a mesa no fica 
muito estragada. Mas se o prprio imbecil estivesse ali, no lhe teria dado um pontap. Fazer um boneco 
de cera e espet-lo com alfinetes  uma parvoce, sim,  uma criancice, mas tem a sua utilidade. Extraiu o 
dio que tinha dentro de si e transferiu-o para a pequena figura. Depois, com o alfinete e o fogo destruiu, 
no a sua madrasta, mas o dio que lhe tinha. A seguir, antes de ter sabido da morte dela, sentiu-se 
purificada, no foi? Sentiu-se mais leve, mais feliz?
Linda confirmou com um aceno.
- Como soube? - perguntou. - Foi assim mesmo que me senti...
- Ento no volte a repetir essas parvoces - disse Poirot. - Resolva-se apenas a no odiar a sua prxima 
madrasta.
- Acha que irei ter outra? - inquiriu Linda, alarmada. - Ah, estou a ver, refere-se a Rosamund. Dessa gosto 
eu... - Hesitou por um instante. Essa  sensata.
No era bem o adjectivo que Poirot escolheria para aplicar a Rosamund Darriley, mas percebia que, para 
Linda, representava o melhor dos elogios.

- Rosamund - disse Keneth Marshall -, chegaste a convencer-te de que eu tinha assassinado Arlena.
Rosamund parecia embaraada.
- Pois - confessou -, fui uma idiota.
- E foste mesmo.
- Tens razo, Ken, mas tu fechas-te sobre ti mesmo como uma ostra. Nunca soube o que sentias 
realmente por Arlena. No sabia se a aceitavas tal como ela era, ou se... bem, se apenas acreditavas 
cegamente nela. E pensei que, se fosse assim e descobrisses de repente que ela andava a enganar-te, 
poderias ter ficado louco de raiva. Tenho ouvido histrias a teu respeito. s sempre muito calmo mas por 
vezes podes tornar-te assustador.
- E ento pensaste que a tinha agarrado pelo pescoo, dando cabo dela.

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- Bem... sim... foi isso mesmo o que pensei. E o teu libi parecia-me um tanto fraco. Foi ento que decidi 
de repente dar-te uma ajuda, inventando aquela histria idiota a respeito de te ter visto a escrever  mquina 
no teu quarto. E quando ouvi dizer que me tinhas visto pelo espelho... bem, nessa altura fiquei mesmo 
convencida de que tinhas sido tu. Isso, e os modos estranhos da Linda.
- No percebeste que eu tinha dito que te vira pelo espelho para confirmar a tua histria? - comentou 
Keneth Marshall com um suspiro. Pensei que a tua declarao precisava de ser confirmada.
Rosamund ficou a olhar para ele.
- No me digas que pensaste que eu tinha assassinado a tua mulher!
Kenneth Marshall mudou de posio, constrangido.
- Raios, Rosamund - murmurou -, no te lembras de quase teres dado cabo daquele rapaz por causa do 
co? Agarraste-o pela garganta e no o largavas.
- Mas isso foi h anos...
- Pois, est bem...
- Que motivo poderia eu ter para matar Arlena?
Marshall no sabia o que responder. Resmungou de novo qualquer coisa.
- Ken, s muito convencido! - gritou Rosamund. - Pensaste que eu a teria matado por altrusmo em teu 
benefcio, no foi? Ou ento... terias pensado que era por te querer para mim?
- Nada disso! - reagiu Marshall,indignado. - Mas tu sabes o que disseste naquele dia... a respeito da Linda 
e tudo o mais... e pareceu-me que te preocupavas com o que pudesse acontecer-me.
- Sempre me preocupei a esse respeito - disse Rosamund.
- Acredito que sim. Sabes, Rosamund... custa-me falar a respeito de coisas... no tenho o dom da 
palavra... mas gostava de esclarecer uma coisa. No amava Arlena, a no ser ao princpio, e a minha vida 
com ela todos os dias era uma tarefa de arrasar os nervos. Era mesmo um verdadeiro inferno, mas tinha 
realmente pena dela. Era uma doidivanas, sempre maluca por homens. No podia evitar. E eles deixavam-
na sempre mal e tratavam-na abaixo de co. No me achava capaz de lhe dar um empurro final. Tinha-me 
casado com ela, e incumbia-me de cuidar dela o melhor que podia. Acho que ela sabia isso, e estava-me 
realmente grata. Ela era... era uma criatura verdadeiramente pattica.

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- Pronto, Ken, agora compreendo - disse Rosamund mansamente.
Sem olhar para ela, Kenet Marshall encheu cuidadosamente o cachmbo.
- s muito compreensiva, Rosamund - murmurou. Um ligeiro sorriso encurvou a boca irnica de Rosamund.
- Vais resolver-te a pedir-me agora em casamento, Ken, ou ests resolvido a aguardar seis meses?
o cachimbo de Kenet Marshall caiu-lhe de entre os lbios e despedaou-se nas rochas.
- Bolas - queixou-se. - j  o segundo cachimbo que perco desde que cheguei. E agora no tenho outro. 
Como raio adivinhaste que eu tinha decidido que seis meses seria um prazo adequado?
- Possivelmente porque  de facto o prazo apropriado. Mas preferia saber desde j alguma coisa de 
concreto, se no te importasses. Porque daqui at l s capaz de te cruzar com alguma dama perseguida 
e correr outra vez em seu auxlio como um autntico cavalheiro.
Ele riu-se.
- Desta vez vais tu ser a dama perseguida, Rosamund. Vais ter de abandonar o teu negcio de roupas, e 
iremos viver no campo.
- No achas que tenho um bom rendimento com o meu negcio? No compreendes que  o meu negcio, 
que criei com muita dedicao, e de que muito me orgulho?  preciso descaramento para agora me vires 
dizer: Desiste de tudo, querida.
- E eu sou descarado!
- E ests convencido de que gosto de ti o suficiente para fazer o que me pedes?
- Se no gostasses - declarou Kenet Marshall - no me servirias de nada.
- Oh, meu querido - disse Rosamund com suavidade -, durante toda a minha vida sempre desejei viver 
contigo no campo. Finalmente, o meu sonho vai realizar-se...

FIM

85 volumes
(romances e contos policiais)
em trs sries:
Poirot Os livros protagonizados por Poirot foram considerados a Melhor Srie Policial do Sculo XX.
Miss Marple
Outros
Uma coleco indispensvel daquela que foi considerada pela Bouchercon World Mistery Convention 
como a maior escritora policial do Sculo XX. Hercule Poirot  o personagem mais famoso de Agatha 
Christie.
A autora pretendia um personagem excntrico, e com Poirot conseguiu-o. Agente reformado da polcia 
belga, Poirot tem-se em grande considerao - a si e s suas celulazinhas cinzentas,  sua 
personalidade extravagante e pomposa, aos seus modos afectados. Dotado de caractersticas fsicas to 
peculiares quanto as mentais, o detective  facilmente identificvel atravs da sua cabea oval e do 
bigodinho invulgar - e sempre irrepreensvel - do qual trata com esmero e, quase, reverncia. Desta feita, a 
sua relao com o crime e a investigao, torna-se coerente: longe de aderir a mtodos de investigao 
vulgares, o detective apoia-se no seu raciocnio lgico e no estudo da psicologia do criminoso.
 
